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É dia de futebol, mas e daí?


Botequim Literário


Pelé e Wilson Simonal no Maracanã - Foto: Agência O Globo


Marcus Vinícius Beck


É quixotesco, o retorno do ludopédio.


Pelo ímpeto mortífero dos cartolas e pela pressão do capitão corona, um flamenguista de ocasião assim como o fanfarrão da farda verde-oliva, João Batista Figueiredo, a bola começou a rolar no Campeonato Brasileiro sob a marca de 100 mil vidas ceifadas – um Maracanã abarrotado de gente, como nos tempos de Pelé, Garrincha, Gérson, pra efeito de comparação.


É, caríssimo Wilson Simonal, os 90 minutos – na terra do obscurantismo chinfrim-chinfrim bolsonarista, ops, eu sei da redundância... – passaram a léguas de distância de ser a emoção e alegria. A vontade é de radicalizar a porra toda, mandar os sicários fardados às favas, mas de que adianta se o lead da Galáxia de Gutemberg continuará criminalizando os antifascistas.


Por mais triste que seja, o tal dito popular neste caso, puta que pariu!, uma imagem vale mais do que mil palavras: não há cena mais desastrosa - que simboliza tão bem a nossa inércia diante da moléstia, que escarra em nossa cara a dor da perda, que bota em panos quentes a nossa incapacidade em lidar com as pestes e os vermes - do que as arquibancadas vazias.


Apesar da tragédia anunciada, o show tem que continuar. Pouco, na verdade nem um pouco, eu diria, importa o desleixo da galhofa daquele molambo que se faz presidente. O ex-paraquedista, quer dizer capitão, pode ser um homem divino (um messias, até, sujeito abençoado pela dádiva do charlatanismo neopentecostal), mas o coitado não faz milagre.


Coronavírus? E daí, “vamos tocar a vida!”, afinal “todo mundo vai morrer um dia”.


Pois é, e ainda tem aqueles que podem cancelar o cronista por insistir nesse negócio de, vejam vocês, misturar futebol com política. Futebol e política!


Mas, como eu ia dizendo, não é pra todo mundo ter um brother (miliciano, chefão de organização criminosa, como dizem as manchetes na terrinha) capaz de pagar seu boleto enquanto você assa uma picanha. Nem michelles, digo micheques, mil cheques, enfim.


Bom, a verdade verdadeira, só a redundância faz sentido nesta joça guiada por esses vermes políticos, é que o brother pagou até as escolas e o plano de saúde da filha do Flavinho. Confuso, né? Nem tanto. Explico: o esquema é lavar a grana, comprar imóvel com dinheiro vivo, em Copacabana – tá achando que essa gente brinca em serviço?


(E você, assim como o cronista, lamuriando-se por não ter um vintém pra comprar um Campari vagabundo e conseguir suportar os delírios mortíferos do ex-capitão.)


Bolsonaro, salve Temer, proferiu outro dia sua primeira mesóclise. E a cada dia que passa, com o choro de marias e clarices, o ex-paraquedista assemelha-se a mediocridade irremediável do cacique dos corredores da, pasmem, velha política. Um vampirão, o Temer. Um canalhão, o Bolsonaro. Ambos completam-se.


E assim, com a lista de mortos pela moléstia (patológica e política), a bola começou a rolar no Campeonato Brasileiro. Enquanto o escriba bate estas frases da salvação, o que mais comenta-se por aí é a finalíssima entre Bayern de Munique versus PSG, Lewandowski versus Neymar... mas quer saber? Carregamos o fardo da dor, meu caro Paulo Leminski, mas de uma dor nada elegante.


São as medalhas da necropolítica. E a bola não vai parar, não vai!



Marcus Vinícius Beck, jornalista e escritor. Autor do livro-reportagem 'Diário Subversivo'

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