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  • Marcus Vinícius Beck

A sociedade e os invisíveis


Eram 21 h, segunda-feira, 13 de março de 2015, avenida Pedro Ludovico, centro de Goiânia... Gambá acende mais um cigarro. “Tem uma moeda?”, pergunta para uma moça que passa ao seu lado. Ela não fala nada, apenas balança a cabeça e ergue a sobrancelha, recusando o pedido.

Infelizmente, Gamba é mais um dos que a sociedade não vê. E não vê porque não quer. Ninguém repara se ele está bem, mal, com dor ou sem dor. Sua casa é as ruas. Nela, pede moedas. E, constantemente, fuma algumas pedras de crack. “Antes ele era gordo, olhe o estado dele agora”, repara o antigo dono de um bar, no centro da cidade.

Gambá integra grupo de moradores que sofre com a violência policial nas ruas. “Vivemos levando porrada”, diz Xan, amigo de Gambá, que também habita às ruas. “Mas ele é faixa preta em jiu jtsu”, brinca, antes de ficar sério. “Aqui a polícia não tá nem aí se você mora na rua, tampouco o que está fazendo aqui”, desabafa, com cara de quem já levou alguns ponta pés da PM.

De acordo com Xan, o problema mesmo são os endinheirados que andam em seus carros com ar-condicionados e são análogos ao que acontece na cidade. “Doutô não tá nem aí pra gente”, afirma. “Direto uns engravatados passam por aqui, e fingem que não nos vê”.

Quinta-feira, 20 de fevereiro, de 2017, 11h, avenida Pedro Ludovico, centro de Goiânia... Gambá está carne e osso. Não consigo vê-lo como antes: ele está irreconhecível, magro, olho fundo. E não me reconheceu quando passei ao seu lado. “Vai morrer, mais dia menos dia”, afirma Robson, frentista de posto.

Em fevereiro do ano passado, a Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG), afirmou que Goiânia foi a primeira capital a criar o intersetorial, que é composto por dez secretárias. Entre as preocupações da instituição está o bem-estar e a higiene dos moradores.

“Com esse comitê e com a ajuda de muitas mãos, reativamos o Centro Pop, onde a população de rua realiza sua higiene, recebe auxílio para almoçar no restaurante popular, além de confecção de documentos e encaminhamentos para toda a rede socioassistencial”, afirmou, Maristela Alencar, Secretaria de Assistência Social na gestão de Paulo Garcia (PT).

O Núcleo de Estudos sobre Criminalidade (Necrivi) da Universidade Federal de Goiás, porém, apontou que há aproximadamente 350 pessoas que vivem em situações de rua em Goiânia, mas nem todos que estão nas calçadas goianienses são nativos. Apenas 30% da população é daqui, os outros são do Maranhão, São Paulo e Bahia.

Outro fator que incomodam os moradores de rua é a violência da Polícia. Adriano da Costa, da Delegacia Estadual de Investigação de Homicídios, explicou que os assassinatos que ocorrem nas ruas não são por conta do uso de força da PM, e sim por causa do tráfico de drogas. "Estou na delegacia há sete meses e não existem indícios de ação de grupos de extermínio nesse período", assegura.

No palácio Pedro Ludovico, cabo Carlos (nome fictício), que está na guarita, disse que os moradores de rua são tranquilos, mas salientou: “Alguns, meu amigo, são complicados”. Encarei o homem da lei, que estava com as mãos em sua farda, e perguntei: “Por quê?”. Ele, desta vez meio ríspido, falou: “Porque moram nas ruas”.

Talvez se eu falasse que era jornalista, o sujeito mudasse de opinião e fosse um pouco mais cordial. Policias, pensei, entram em êxtase com balas e confusão. É um prato cheio para demonstrarem sua incapacidade em manter o bom convívio entre as pessoas.

É impossível não caminhar pelas ruas do centro, e não se comover com os excluídos. Eles não têm esperanças, nem emprego, nem expectativa. Vivem dia pós dia como se tudo findasse no próximo suspiro. Pobre, é claro, não possui direito à escolha. Afinal, para que ajudá-los? Chama a polícia, cidadão de bem!

Sim, esse é um mantra vociferado nos bancos das faculdades e nas discussões temperadas por cerveja de 15 reais dos bares mais caros da zona sul da cidade. “A Rotam tem que descer o cacete”, brada um “cidadão de bem”. “Esses drogados não contribuem com nada”, frisa o outro, bebericando sua preciosa Biritis, de R$ 30,00.

Enquanto alguns gozam de educação nos colégios mais caros, outros veem seu destino nas calçadas que são pisadas por burocratas de terno e gravata, falando ao smartphone, checando e-mail e correndo apressados como robôs que são guiados por um controle remoto.

#excluídos #invisíveis

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