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  • Marcus Vinícius Beck

Imperdível: amor nos tempos de fúria conta história de revolta e amor


Escrito por Lawrence Ferlinghetti, o livro “Amor nos tempos de fúria” traz o encontro de Annie, uma pintora estadunidense, passional e idealista, e Julien, um cético banqueiro anarquista português. O pano de fundo da obra é o conturbado ano de 1968, em Paris, onde aconteceu a famigerado Maio de 68.

Em Monparnasse, no La Couple, em Paris, no fim da noite, Annie é apresentada ao banqueiro Julian Mendes. Durante a revolta estudantil da época, a história é desenrolada sobre o ponto de vista dos dois personagens. Narrado em terceira pessoa, de forma simples e impessoal, Ferlinghetti põe o leitor em todo o caos que estava instaurado em Paris. O mais importante, porém, é o diálogo dos protagonistas que se estende por todo o texto.

Neles, Annie e Julian discorrem sobre política, conflitos da época e expectativas de ambos. Poeta e editor Beat, que está finalizando atualmente sua autobiografia, aos 98 anos, Ferlinghetti dá um toque especial em suas narrações. Em alguns trechos da prosa, por exemplo, tem-se semelhança com o fluxo de consciência, que foi imortalizado na prosa de Marcel Prosut e James Joyce, no início do século passado.

Ferlinghetti, na década de 1950, foi o responsável por descobrir o texto delirante de Jack Kerouac, autor de “On the Road”, e a prosa junkey de William Burroughs, que o autor de “Amor nos tempos de fúria” desprezava por falar excessivamente sobre drogas e viagens. Havia ainda Allen Ginsberg, porta-voz e articulador do movimento, que lançou “Uivo e outros poemas”.

Os versos de Ginsberg, em contrapartida, mostravam versos livres e descompromissados com quaisquer formalismos literários. Primeiro poema do livro, “Uivo” foi declamado na livraria de Ferlinghetti, em São Francisco, e possuía mais de 50 páginas. Outro poeta, Michal McClure, alcoólatra e amigo de Jim Morrison, vocalista do The Doors, era ligado à natureza, e sua obra ainda não tem tradução no Brasil.

O que é beat?

Allen Ginsberg, célebre poeta e símbolo do movimento beat, afirmava que o “movimento literário da geração beat é um grupo de amigos que trabalham juntos em poesia, prosa e consciência cultural, desde meados da década de 1940, até que o termo se tornasse nacionalmente popular, no fim dos anos 1950”.

Em outras palavras, pode-se dizer que eles foram um bando de poetas, prosadores, vagamundos e artistas que perambulavam anarquicamente pelos EUA na época do Marcathismo – período em que a tolerância a movimentos comunistas era zero”. Na década de 1960, inspiraram jovens a romper com atitudes e estilo de vida que lhes eram impostos pelo capitalismo e por seus familiares.

Está ne gênese do movimento beat, a inspiração para o movimento hippie que despontou no verão do amor, que ocorreu em 1967. Jack Keroauc, entretanto, morreu discordando dos hippies, chamando-os de “burros”.

Movimento beat no Brasil

O poeta e tradutor de ‘Uivo e outros poemas’, Claudio Willer, explica que o movimento beat demorou para chegar na Amética Latina por causa das ditaduras que se instalaram pelo continente durante as décadas de 1960 e 70. “Teve leitores atentos como Zé Celso Martinez Côrrea, que cirara o Teatro Oficina, e Luis Carlos Maciel, difusor da contracultura”, relata Willer, contando que o movimento no Brasil ganhou força com o poeta Roberto Piva.

“Com Piva, o movimento beat chegou não mais como notícia, mas como diálogo, relação no plano da criação, em seu livro de estreia, ‘Paranoia’, de 1963. Em 1976, traduzi Ginsberg, Corso, Ferlinghetti, Ted Jonas e outros, para espetáculo chamado América”, explica o tradutor. Todavia, Willer diz que artistas próximos a tropicália, como Wally Samolão, Toquarto Neto e Rogério Duarte trouxeram um pouco da poesia beat ao país.

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