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  • Rosângela Aguiar

PLE é bom pra quem?


A máfia do transporte coletivo mostra, mais uma vez, o seu poder e influência sobre o poder público. E aqui vão dois exemplos. Goiânia e São Paulo. Na primeira, o Governo Estadual decretou o fim do passe estudantil que garantia a meia passagem e o direito de usar o cartão em qualquer dia e horário, inclusive nas férias escolares, e torna obrigatória a migração para o Passe Livre Estudantil que restringe a 48 viagens mensais e uso exclusivo para ir e vir de colégios e universidades. Em São Paulo, o prefeito marqueteiro João Dória limitou o número de viagens do Passe Livre Estudantil com a redução de 8 para 4 e uso exclusivo, como em Goiânia, para ir e vir de escolas e universidades para casa. Como lá como aqui na capital goiana, um dos motivos alegados para esta decisão é garantir o subsídio e ainda manter congelado o preço da tarifa. Em Goiânia custa R$ 3,70 e em São Paulo, maior cidade da América Latina, com quase dez vezes mais habitantes, custa R$ 3,80.

Se antes os estudantes poderiam ir e voltar para a escola, mas também usar o benefício para ir ao cinema ou estudar na casa de alguém, agora esses deslocamentos extras ficaram bem mais improváveis. Com isso o poder público limita o acesso ao conhecimento, à cultura, à vivência política já que nem todos, para não dizer uma grande maioria dos estudantes, não têm condições financeiras de arcar com este custo a mais. Afinal, este é um país onde uma boa parcela da população ganha até um salário mínimo (R$ 937,00). Como o estudante ou as famílias vão bancar mais este custo extra?

Este é o caso de quem estuda em escola pública que, por maior que seja o esforço dos professores, não dá o conhecimento necessário, e o aluno não sai com todo o conteúdo de que precisa. E é por este motivo que ele precisa ter acesso a bibliotecas e outras atividades que complementem o conhecimento e o aprendizado. E a partir de setembro, quando entra em vigor o Passe Livre Estudantil em Goiânia, os estudantes terão que fazer o Cartão Fácil (caso de Goiânia) e pagar R$ 3,70 por cada viagem extracurricular, ou seja, a tarifa integral e não mais a meia passagem para ir à biblioteca, ao teatro, ao cinema, um seminário ou qualquer outra atividade que agregue conhecimento.

E, querendo ou não, a meia passagem tornou-se um grande alívio para os deslocamentos na cidade principalmente para as famílias das classes C e D, de baixa renda. Para quem ganha até R$ 2 mil por mês, o custo extra com as viagens de ônibus vai pesar. Vamos exemplificar. Imagine uma família de pai, mãe e dois filhos em idade escolar que tenha esta renda de R$ 2 mil por mês e as crianças façam atividade extracurricular como esporte ou faça parte de algum programa que no contra turno escolar tenha atividades para se manter longe das drogas e da criminalidade, em especial nos bairros da periferia e tenha que gastar mais R$ 148,00 de passagem de ônibus a mais por cada filho? Será que a conta no final do mês vai fechar?

E mesmo quem ganha um pouco mais, o gasto extra com as viagens até para ir ao médico, ao posto de saúde, vai pesar. Num país onde o salário mínimo vigente é de R$ 937,00 e os estudos econômicos feitos, por exemplo, pelo Dieese, apontam que o salário mínimo deveria ser pouco mais de R$ 3 mil para garantir o mínimo de qualidade de vida, retirar este direito de ir e vir dos estudantes ao conhecimento e à saúde chega a ser um crime por parte do Poder Público e da máfia do transporte coletivo no país.

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