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  • Marcus Vinícius Beck

Intolerância à arte


A semana passada começou com um irritante debate sobre a arte e sua função social. Grupos à direita tentaram deslegitimar a expressão artística de várias obras expostas em Porto Alegre, pelo programa Santander Cultural. Existiria de fato um ponto de encontro entre o capital financeiro e o sexo? A discussão, por incrível que pareça, atingiu níveis imensuráveis de conservadorismo, ignorância, petulância e prepotência – característica básica desses movimentos - com acusações insustentáveis e pífias sobre pedofilia e zoofilismo.

O que houve de fato foi uma histeria alimentada pelo Movimento Brasil Livre (MBL), destinado a difusão e proliferação da má-fe, do senso-estético terrivelmente deturpado e antipoético, da censura, do cala-boca, do simplismo, do clichê, do senso-comum. Ora, a função da arte é justamente mover debates acerca da sociedade e, se for o caso, criticá-la, colocando-a contra dogmas que se mostram presentes neste momento, e que sempre estiveram, inclusive nos períodos mais trágicos da história da humanidade. O mundo está conturbado, respirando com a ajuda de aparelhos, e é preciso constantemente lutar para mudá-lo.

Conturbadíssimo, melhor dizendo. Sim, o cancelamento da exposição evidenciou a histeria de grupos ligados às ideias sórdidas, que foram responsáveis por levar o mundo ao caos no século passado. Vale ressaltar que Hitler, quando chegou ao poder, na década de 1930, passou a repudiar obras de artistas impressionistas, expressionistas, cubistas e surrealistas, isto é, da arte de vanguarda que sacudiu o status quo europeu na Belle Époque. No Brasil, o Manifesto Antropofágico, escrito em 1922, por Oswald de Andrade, no bojo da semana de arte moderna, também foi alvo de críticas de conservadores, que se mostraram impossibilitados de compreender o texto do poeta modernista.

O que diriam os paladinos da moral se vissem uma imagem de autoria de Salvador Dalí, onde um leão e um touro lambem os seios de uma mulher. Qual seria a reação deles ao se deparar com textos dramáticos de Nelson Rodrigues em que é mostrado/ narrado cenas de adultério? Nelson, na década de 40 e 50, foi considerado pornográfico, louco e outras insanidades que passou a debochar rodrigueanamente anos depois. O que arrotariam os zeladores dos bons costumes de lessem o clássico Madame Bovary, de Gustave Faubert? O que falariam?

Nas redes sociais, palco de imbecilidade sem precedentes, parafraseando o escritor Umberto Eco, figuras carimbadas do MBL enxergavam as obras expostas no Santander Cultural como algo passível de se jogar no lixo. O interessante é que essas “análises” foram feitas por gente que integra a horripilante e preocupante estatística que evidencia a falta de hábitos culturais da sociedade brasileira.

Segundo dados do Instituo Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE), 92% dos brasileiros jamais coloraram os pés em um museu e 93% sequer foram em alguma exposição de arte. Problema seríssimo para uma sociedade que vive uma crise ética e moral sem precedentes. O que diria Reich, autor do clássico A função do orgasmo? E Henry Miller, o velho safado, caso estivesse escrito sua trilogia A crucificação encarnada hoje, no Brasil?

Em artigo publicado no Estadão, o jornalista Eugênio Bucci frisou que a palavra cultura não permite simplificações baratas. A arte a serviço da “moral da família brasileira” jamais pode ser tida como arte. Talvez possa ser considerada ‘algo’, mas não necessariamente arte. Moralismo barato em todas as religiões – e em vários momentos da história da humanidade – foram responsáveis por queimar livros, levando artistas ao suicido, como o gênio Van Gogh.

Um dos recursos do moralismo é atribuir à arte status de pornografia. Acusam-na (leia-se representação da sexualidade) como algo passível de censura. Foi assim com Walt Whitmann, Allen Ginsberg, Erza Pound, entre outros, só para ficar no campo da literatura. Mas, ao trazer a discussão para o campo das artes plásticas, ver-se-á que o francês Gustave Coubert, em seu quadro A origem do mundo, também foi alvo da verborragia de reacionários.

A censura moral é uma prática extremamente arbitrária cujo objetivo, não restam dúvidas, é cercear a liberdade de expressão, de modo a criminalizar toda e qualquer expressão que quebre e critique a enganação rezada por esses grupos reacionários, acostumado a frequentar as praças de alimentação de shopping center. A arte é transgressora, e deve incomodar, sempre, se possível. Toda manifestação autoritária primeiramente coíbe as manifestações culturais e jornalísticas, depois instaura a tão sonhada ditadura. Chegamos em um tempo que obras de arte tem de vestir túnica. Que coisa.

#arte #sociedade #direita

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