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  • Marcus Vinícius Beck

O jornalismo e a ilusão do lead e sublead


Amigo bebum, amigo leitor, o jornalismo está respirando por aparelhos na terra do pequi, e faz tempo. Baronatos dos veículos de comunicação – leia-se Assis Chateaubriand´s que desfilam pelos salões discretos da burguesia goianiense – transformam um dos mais nobres ofícios em uma solene prostituição, porra.

Seu cronista, o que aconteceu contigo? Chega, caralho! Eita... são muitos palavrões, hombre. É que fico colocando meu cocoruto calvo para racionar acerca dessa cretinice toda, e já sabe, né...

Este cronista que vos escreve, operário de proposições, sujeitos e predicados, além de escriba com vocação nata, presenciou inúmeras cenas que beiram a parvoíce. E tudo, pasme, sufocado e, eventualmente, degolado pelo dead line. Todavia, chefe é chefe e segue o jogo, como diz o outro.

Sim, o horário do fechamento simboliza o martírio dos miseráveis intelectuais. Todos, simplesmente todos, param para ouvir insanidades de quem crê que a vida resume-se ao “manda quem pode obedece quem tem juízo”.

Assuntos esdrúxulos – como a prisão de Aécio Neves – não possuem espaço no noticiário, dá para acreditar? Ora, meu caro, você não compreendeu que é a coisa mais normal do mundo dar o passaporte para a Justiça e desviar algum trocado?

Pausa, respiração e vamos ao que interessa. Nessa peleja diária atrás da notícia, do furo, da exclusividade, repleta de tretas e mais tretas, nada mais justo do que se debruçar sobre alguma obra jornalística – com boas pitadas literárias, é claro. Garantia de boa leitura, e de lazer impecável. Vamos lá.

“Memórias: a menina sem estrela”, de Nelson Rodrigues é um livro importantíssimo para qualquer sujeito que aspira ser proletário do texto. O maior gênio brasileiro de todos os tempos, o tio Nelson, narra fases de sua vida – e da imprensa brasileira nesta obra -, pois o Shakespeare dos tópicos trabalhou anos e anos em redações, incluindo o extinto Última Hora, de Samuel Wainer, e O Globo, de Roberto Marinho.

“Minha Razão de viver: memórias de um repórter”, de Samuel, Wainer, foi organizado pelo jornalista Augusto Nunes – especialista em tecer discursos entremeados de frases com cunho odioso. Bem, Wainer sim modernizou a imprensa tupiniquim. Quer gastar sola de sapato produzindo reportagens? Aqui você tem uma baita aula sobre a relação conflituosa entre poder e imprensa.

“Minha memória dos outros”, de Zuenir Ventura, pode ser resumido em uma única palavra: delicadeza. Ventura, considerado um dos maiores jornalistas do Brasil e dono de um texto lindo e irretocável, descreve vários períodos do jornalismo brasileiro nesta obra, inclusive os anos de chumbo. Obrigatório para quem deseja sacar sobre a arte de informar a sociedade.

“A mulher do próximo”, de Gay Talese, não podia, jamais, ficar de fora desta humilde lista. Tido como um dos pais do New Journalism, o escritor/jornalista revolucionou o texto jornalístico com técnicas da literatura realista do século XIX. Resultado: um relato sobre a revolução sexual, que estourou na década de 1960. Foda.

“Radical chique e novo jornalismo”, de Tom Wolfe. Impossível deixar o “terno branco” de fora de qualquer lista que tenha a pretensão de falar sobre a arte de contar histórias. Intelectual e inconformado, Wolfe é o cara que pensou o New Jounalism. Afinal, por que entrevistar um trabalhar braçal se você pode arrumar um emprego como trabalhador braçal?

“Rum: Diário de um jornalista bêbado”, de Hunter Thompson. Só estando terrivelmente embriagado, e bebedeira é quase como se fosse dever do ofício, para esquecer de pôr o gonzo na lista. De Hunter é difícil escolher um livro. Calma, meus amigos, não foi dessa vez que esqueci de pô-lo.

Agora, meu caro, é a sua vez de contribuir com esta alcoólica coluna – que, desculpe a redundância, é redigida por um alcoólatra por vocação -, comentando embaixo deste post. Infelizmente, sexta-feira, depois do expediente, preciso molhar a palavra. Abraço. Até a próxima.

#botequimliteráriodobeck

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