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  • Marcus Vinícius Beck

Manual para escribas e jovens jornalistas


Amigo escriba, amigo jornalista e amigo cachaceiro, eis que é inevitável dar-lhes algumas dicas sobre o ofício jornalístico. No primeiro período da faculdade, dizem-nos que escrever é uma arte. Concordo, mas saliento: pode ser uma arte se o cara for Hunter Thompson ou Nelson Rodrigues, por exemplo. Para mim, que sou um mero escravo do lead e sublead, frequentador assíduo de redações e gutenberguiano por vocação, escrever é um ofício importantíssimo – pois é com ele que pago a cerveja, o cigarro e a folia de cada dia.

Você pode até criticar no bar a chefia, reclamar que o pagamento está quatro meses atrasado, que o jabá impede-lhe de ser independente nas reportagens, você desvairadamente pode tudo, menos desobedecer a linha editorial do jornal e propor pautas polêmicas. “O proprietário vai dizer que crianças também leem jornais, e não vai nada legais elas terem contato com conteúdo LGBT”, dirão os editores.

Você pode até inventar desculpas para a chefia, dizer que a sua mãe está internada em estado grave e tudo o mais, quando na verdade o que passou pela cabeça foi pegar apenas uma sessão sobre cinema político e debater sobre diretores cubanos em algum lugar do Centro depois de escrever textos – coisa que o dono do jornal não sabe – para instituições horripilantes, mentirosas e cretinas.

Bem, diante disso, passo a bola para o escritor e Nobel William Faulkner, vai que é tua, mestre: “uma ficção é mais verdadeira que qualquer jornalismo”. Chega de blá, blá, blá e vamos ao que interessa:

- Com o nome que assina as reportagens, você deve tuitar apenas o essencial. Agora, com um twittger fake você pode desmoralizar a chefia, denunciar os infinitos pescoção de que foi vítima, zoar as manchetes bizarras que saem na primeira capa, criticar a linha editorial do veículo e denunciar a falta de café na redação, deixe de fora apenas aquela coleguinha (o) de cultura que é gente fina para caramba.

- Lembre-se: nem todo bêbado e drogado é um Hunter Thompson e Xico Sá. Se beber meia dúzia de cervejinhas, esqueça o gonzo, o fora da lei e o jornalismo literário, invista apenas no velho e eficiente – nestes casos apenas – lead e sublead, pois esse caminho é bem mais fácil do que ter de se submeter ao constrangimento de conversar com um guarda no meio da madrugada.

- Nas assessorias de imprensa e nos números oficiais – quem entende esses números, meu caro Eduardo Galeano? - você encontrará apenas o lero-lero, aquelas aspas para preencher os toques necessários para preencher a página. Agora, um relato humanizado requer caneta a postos e sola de sapato resistente. No subsolo do poder, está a essência do jornalismo. Pense nisso.

- Nunca acredite que o assunto é tão velho que não possa ser discutido com seu editor na reunião de pauta. Com um simples tapa nos dois primeiros parágrafos, você transformou o texto numa reportagem inédita, de interesse público. Tenha sempre em mente de que, caso nada disso dê certo, e você deixe a pauta passar, a chance de que vai rolar uma inveja guterberguiana no dia seguinte é enorme. Todo repórter é como um bom carroceiro de rua, vive da mais singela reciclagem.

- Apure com rapidez e requinte, deixe a matéria redonda e vá para o cinema no final da tarde com tua amiga de outro jornal – jornalistas conhecem uns aos outros, sobretudo de outros veículos. Um bom filme, como diz Xico Sá, ilustra a cabeça mais do que mil anos ligados na máxima voltagem que o jornalismo permite. Todavia, como tudo na vida, há um problema: encontrar algum superior por lá. Acredite: isso é um problema.

- Quando o jabá mais vagabundo – esqueça, focas são jogados para escanteio nesse caso – alcançar 40% de seu pagamento, vá à mesa do chefe, mostre-lhe o contracheque e diga honestamente que a sua independência está comprometida por causa do cento de salgadinho que recebeu de uma agência de comunicação. A barriga não pode ficar roncando durante o expediente, tampouco quando se está numa conversa inadiável com aquela gatinha da editoria de cultura.

- Evite beber antes de ir trabalhar, porque no dia seguinte seu editor pode pedir para você ir cobrir uma coletiva de imprensa no Paço Municipal. Se o porre da noite anterior tiver sido daqueles, a probabilidade de dormir no gabinete do prefeito é grande. Já aconteceu comigo. É engraçado e constrangedor, ao mesmo tempo. Ao menos que você não esteja nem aí para a porra toda. Neste caso, foda-se.

Amigo jornalista, agora é a sua vez de dizer o que ficou fora, pois vou ali na esquina molhar a palavra. Até a próxima semana. Tchau, obrigado!

#botequimliteráriodobeck #cronica

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