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  • Marcus Vinícius Beck

Neal Cadassy do Cerrado


Amigo bebum, o goiano do pé rachado é aquele que faz piadas de si mesmo, o goiano do pé rachado é aquele que grita ‘Vila’ no meio do boteco, o goiano do pé rachado é aquele que canta as modas de viola, mas também canta os clássicos do rock e da MPB. Por isso, aparenta ser o mais desinibido e alegre dos brasileiros, e certamente o mais democrático deles. Que, sabendo-se rir – ou chorar – de si mesmo é capaz de sentar-se ao meio-fio e gargalhar após uma tragédia.

Minha memória de sulista não me permite lhe esquecer, jamais, meu caro. Raphael Vinícius, 22, meu primeiro ‘brother’ em Goiânia, mulherengo – ou ex-mulherengo – rei dos trocadilhos, hippie goiano autêntico do pé rachado, porém que odeia pequi, me ensinou que o único jeito de enxergar a vida é por meio da fechadura da leveza, que a filosofia feminina é uma incógnita e, após uma cachaça e outra, outros múltiplos conhecimentos que deixariam o mestre-mor da literatura beat e do gonzo, Jack Kerouac e Hunter Thompson, respectivamente, sedento de inveja, vinham à mesa.

Folgado, filha da puta, gente boa, amigo, malandro e companheiro... pena que a vida às vezes dá volta, e agora ele está desenhando seu caminho e sua vida. Fico feliz. A vida dá tantas voltas que a gente acaba esquecendo que essas voltas são totalmente desnecessárias, mas... Foda-se, o que quero dizer – de meu jeito meio confuso, segue o jogo, ora pois – é que Raphael não podia ver uma mulher bonita que já tecia alguns de seus comentários memoráveis, que prefiro não citar aqui, por razões de bom-senso, pois tenho de manter meu espaço este lúcido e série espaço que vos escrevo, sabe como é, né?

Gosto de lembrar dos simples, dos perdedores de tempo, dos fãs do ócio criativo, dos que jogam conversa fora porque não há nada mais útil para ser feito. Ócio, especialmente o criativo, é o verdadeiro talento do goiano, uai. E onde mais o pratica na capital do Cerrado são nos botecos – de preferência naqueles copo sujo - ao som de qualquer cachaça e sabor de qualquer música – desde que seja boa, é claro, ninguém é obrigado. Vai que é tua, mestre Millôr Fernandes: “A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar, ao amigo, de todos os seus defeitos e de todas as suas qualidades”.

O cara do cabelo à lá xamã, o Neal Cadassy do Cerrado, o micróbio, índio aburguesado filha da outa, o gordo safado e cretino – só para os íntimos, respeita, raro leitor (a)! E, sim, Goiânia não é mais Goiânia desde quando deixamos de agitar a noite com nossas andanças pela capital às três da madrugada, quando voltávamos a pé de lugares longínquos, gritando como dois seres com os sentidos e a percepção completamente tomadas pelo álcool – e outras sub substâncias psicodélicas.

Tenho para mim que as ruas são as verdadeiras faculdades; os botequins, universidades. Algumas frases, tal como as que falávamos tomados pelo furor etílico, dão sentido à vida, ou aparentam a dar. Como filosofia de vida ou não, vivendo numa cidade em que o excesso de tranquilidade é uma orgia e a falta dele é uma afronta, convivendo com grades mazelas, o goiano é um dos poucos tipos brasileiros para que ninguém é gaúcho, paraibano, amazonense ou paulista. Ele, leia-se Raphael, entende que está tratando antes de tudo e sobretudo com brasileiros. Valeu, meu camarada. Até a próxima, caro leitor, obrigado pela paciência. Até a próxima semana.

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