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  • Marcus Vinícius Beck

Mesa de bar


Amigo alcoólatra, como é bom sentar no boteco na sexta-feira ao meio-dia e dar um risinho safado para o capital que se esborracha há duas quadras dali. Como é bom, mesmo para um falido da porra que tem grana apenas para uma dose de conhaque, mandar o patrão às favas e, ainda por cima, desmoralizá-lo na mesa do bar ante colegas, também proletários.

Um birita à sombra da mais-valia, da vagabundagem e do ócio na espelunca mais famosa de toda cena underground de Goiânia: a tal da distriba do Universitário. Pena que o cara lá vende cerveja quente. Um desrespeito. Total.

Mas vamos fazer um esforço, vai.

A minha peregrinação diária nas instituições etílicas da capital goianiense me rendeu múltiplas situações cômicas. Outras bem trágicas. Mas como é bom encher a cara junto de uma companhia feminina, a verdadeira luz na cachola deste cronista que vos torra a paciência semanalmente, com teus pés enroscando embaixo da mesa nos pés dela, conversa leve, sobre arte, poesia e os rumos da literatura contemporânea e do cinema. Uma conversa dessas, ilustre leitor e leitora, pode potencializar a troca de olhares e iluminar toda uma cidade tomada pela caretice – afinal, o sujeito que não olha para a maçã do rosto da moça é um tremendo besta.

Numa mesa de bar não valem comentários que não tenham, no mínimo, uma sátira no meio da frase – metáforas são mais que essenciais, metonímias, então, nem se fala, isso sem falar na anáfora... Ridículo é o cara abancar-se no templo etílico e começar a discorrer sobre a perspectiva do liberalismo na sociedade pós-moderna. Ora, meus raros, mandem, sem dó, tampouco piedade, o sujeito para a puta que lhe pariu, caso presenciem uma excrescência dessas. Será melhor para todo mundo, vão por mim.

Sonhos, todavia, podem, e devem monopolizar o monólogo alcoólico. Além de refrescar o juízo, criam uma sensação de que nem tudo está perdido. Sonhos são a obra-prima de simplesmente todas as fitas do gênio do cinema francês Truffaut, o cara que nascera para filmar o amor, com toda licença, por favor, Xico Sá – padrinho sentimental deste lúdico espaço junto de Nelson Rodrigues, Odair José e Hunter Thompson.

Mas quanto dura uma bebedeira? Depende. O ideal é que dure, no mínimo, seis, sete horas. Se tu estives acompanhado as cartas mudam. Neste caso, deves sempre estares atentos aos sinais da moça, já diria o poeta Carlos Drummond, depois não adianta falar merda por aí.

Lembra, meu filho, por tudo que és mais sagrado em tua vida dos ensinamentos do pai da crônica sentimental, Paulo Mendes Campos: o amor acabar, seja antes daquele beijo ou depois... tu sabes, né?

Viva a boêmia com a benção das mulheres e dos mestres do copo, sem eles não haveria filosofia, sociologia e antropologia de boteco. “Beck, você sempre generaliza as coisas”, disse ela. “Fia, mesa de boteco não faço análises científicas da conjuntura baseado nos textos de Max Webber, meus me livre dessa caretice desgraçada, por sinal”, rebati.

Chega de lirismo bêbado. Beijos, abraços e felicidade – ah, não deixem de molhar a palavra, por sinal vou ali na esquina agora. Até a próxima semana. Volte sempre.Tchau, obrigado.

#botequimliteráriodobeck #cerveja

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