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  • Marcus Vinícius Beck

Eis que o Brasil é alvinegro


Amigo boêmio, amigo sofredor, por obséquio, o que mais vem sendo comentado nos últimos dias pelos quatro cantos do Brasil é a conquista do heptacampeonato brasileiro do Corinthians. Inquestionável e brilhante. Quando o assoprador de apito decretou o final do certame, o que mais se ouviu foram gritos e rojões, choros e risadas, silêncio e mais choros – de alegria.

Mesmo que tu tenhas pendurado o manto do craque Neto – aquele que conduzira o Coringão à conquista inédita do Brasileirão em 1990 - na cabeceira da cama, no intervalo, o Timão conseguiu virar sua primeira partida no Brasileirão contra o Fluminense, e justamente no jogo que valia a taça. “Tinha que ser com a cara do Corinthians, com sofrimento”, sentenciou seu José da Silva, 55, corintiano de carteirinha.

É, tio Nelson, o pior cego é aquele que mostra-se incapaz tolerar o acaso, a luta, o sofrimento, o choro e, além de tudo, só possui olhos para a bola que rola basta e friamente pelos gramados.

Vai que é tua, Adoniran Barbosa, preciso molhar a palavra para seguir com esta crônica: “Como é bom ser alvinegro, ontem, hoje e amanhã”, sopra-me no ouvido o rei do samba paulista. Agora, sim. Coríntia, cada minuto te amo mais, cada minuto sofro feito um energúmeno por ti, tu és o amor de minha vida.

Acostumado com o sofrimento à ponta da garganta quando o Timão entra em campo, eu imaginava que a comemoração do Brasileirão seria no final de semana. Mas eis que a sobrenatural lamuria alvinegra surgiu e tomou conta da áurea da Arena, na última quarta-feira (15), no primeiro minuto do segundo tempo.

Os proletários, enfim, tinham um motivo plausível para derrubar o capital, e embebedar-se durante dias a fio: em cinco minutos havíamos virado a partida, haja grito no gogó, seu José da Silva. Até o meia Danilo jogou! Haja emoção neste coração que por pouco não parara em 2012, quando o capita Alessandro levantara a tão sonhada Libertadores da América, a única de nossa história e conquistada depois de 60 anos.

Pensei, sentado no canto do boteco, em seu Odinir Tavares, 70, e suas histórias sobre o triste período em que o Coringão ficara 23 anos sem conquistar um título. “Quando, enfim, ganhamos a porra do campeonato paulista de 77, uma padaria de uma portuguesa amanheceu toda destruída”, conta ele, às gargalhadas com o episódio.

Dane-se o patrão, bato na mesa, devidamente tomado pelo furor etílico, vai coríntia. Já diria o mestre alvinegro Adoniran: “Mulher, patrão e cachaça em qualquer canto se acha”. Mas o time do coração, não. Demora para se achar.

Viva o futiba no boteco, viva a conversa lírica e melancólica da boêmia de cada dia, viva o Doutor Sócrates... Tim-tim.

Se um homem amasse sua mulher como ama o time não haveria divórcio, jamais. Acontece, meu caro, que um homem, ao bradar sua preferência clubística, na infância, assume um compromisso seríssimo pelo resto da vida.

Haja coração, como diz o outro, haja fígado para aguentar a bebedeira até o final das férias, haja paciência para assistir os jogos de comadre que passarão na TV até a primeira semana de dezembro. Futiba, agora, só no ano que vem.

Saudações alvinegras, caro leitor. Um abraço. Volte sempre. Até a próxima sexta-feira. Vai Coríntia!

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