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  • Marcus Vinícius Beck

Uma carta de amor na modernidade líquida


Amigo boêmio, o natal vem se aproximando e, nesta época do ano, é comum de se ver gente bebendo todas nos botecos pés sujos. Alguns bradam coisas contra a chefia e denunciam as mazelas que ocorrem na firma. Outros suplicam por esperança com o time do coração no próximo ano. E, por fim, uns poucos optam por sofrer de amor, já que não restam-lhes tristemente nada para fazer.

No entanto, aos homens e mulheres que estão de saco cheio com este miserável cronista de costumes, que vos batucou religiosamente toda sexta-feira durante este segundo semestre de 2017, digo: redijam cartas para seus entes amados. Eu sei que é pedir demais, pois nestes tempos líquidos em que ninguém tem paciência para ler um e-mail, uma carta é como o desabafo contra os métodos desumanos de produção capitalista.

Por isso, na tua cabeça deve estar correndo inenarráveis insanidades contra este escriba.

Calma, deixe eu lhes explicar: venho por meio destas linhas, com todo perdão a Erasmo Carlos, fazer a defesa das cartas. Uma carta, com os sujeitos, verbos, predicados e um ou outro adjetivo inteligentemente escolhido, é capaz de realizar milagres amorosos; é capaz de ser mil vezes mais eróticas do que os vídeos pornográficos que poluem a cabeça dos jovens. Pela carta, hoje e sempre!

Escrever uma carta de amor nada mais é do que um álbum de Johnny Cash tocando na caixa de som. Enquanto isso, você põe a primeira palavra na folha, e se sente como se estivesse tocando a primeira nota do violão do black man. Escrever uma carta é como evitar que alguém toque naquele clássico disco do Taiguara que você não tira de jeito nenhum do armário. É como fechar os olhos durante Love making music do Barry White.

Por isso, escreva uma carta para a amada. Com amor, as palavras virão para a ponta do dedo com facilidade. Mesmo que você tenha bebido várias cervejas na quitanda da esquina, escreva para a donzela. Afinal, não há nada mais belo, lindo, charmoso e paixonante do que uma carta devidamente escrita e assinada pelo pretendente. Ufa, até perdi o fôlego!

Lembre-se quando estiver sentado em frente a tela do computador, com a inspiração em outras bandas: gênios, e não este ocioso e bêbado cronista, eram exímios artistas na arte de escreverem cartas. Então, não tenha receio de inspirar-se em Henry Miller derramando amores por Anais Nin ou nas epístolas de Scott Fitzgerald para a sua gata Zelda Fitzgerald. Esqueça a fala do poeta português Fernando Pessoa: cartas de amor são inesquecíveis, se forem verdadeiras.

Meus jovens, às armas, por favor. Exemplos e mais exemplos poderiam ser falados neste rabisco. Você aí, que vive um amor à distância, nada como uma carta fumegante, aquelas que valem mais do que mil nudes. Mas é necessário ter em mente que uma carta jamais irá atender a pressa destes tempos que vivemos. Uma carta é como um poema de Federico Garcia Lorca: tem de ser lida calma e tranquilamente.

Viva o amor, e até a próxima crônica do amor louco e da boêmia desvairada.

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