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  • Marcus Vinícius Beck

O subversivo da prosa americana


O escritor Henry Miller é tido como um dos melhores escritores estadunidenses de todos os tempos. Acusado de subversivo e pornográfico, Miller revolucionou a prosa americana com seus textos que penetravam com acidez e crueza à natureza humana. O escritor, que conviveu com vários expoentes das artes, sobretudo no período em que morou em Paris, na década de 1930, teve várias obras proibidas na terra do tio-sam. Mas nada que o impedisse de virar um ícone da literatura maldita, nos anos 1950 e 1960.

Publicada em Paris, em 1934, Trópico de Câncer só conseguiu ter uma edição nos EUA em 1961. Nesta época, Miller chegou a ser rotulado por alguns como um gênio e seus livros ganharam status de obra-prima. No entanto, ele não estava totalmente blindado das críticas, e foi considerado equivocadamente como um sub-produto literário e pornográfico. A fama de maldito do escritor não é gratuita, e custou-lhe anos envolto em pobreza – episódio que foi palidamente narrado na fita Henry e June, de Philip Kaufman.

Literariamente, o escritor não é nenhum Marcel Proust, e está longe de sê-lo. Em Miller, bem como em Marquês de Sade e Rimbaud - poeta que ele venerava e para o qual escrevera o ensaio A hora dos assassinos -, as epifanias se misturam como se fossem um jazz ecoando madrugada à dentro. A prosa genuína e honestamente virulenta de Miller atinge um estado de pureza pelo avesso e encontra-se em sintonia com a vida tal como ela é, para citar Nelson Rodrigues - pai do teatro moderno brasileiro e uma espécie de William Shakespeare dos trópicos.

Enquanto isso, moralistas de várias estirpes tentam deslegitimá-lo com base em ‘análises’ de críticos literários entremeados em ‘verdades’ sobre obras essencialmente artísticas. Mas os livros de Henry Miller podem despertar asco e repulsa no leitor, uma vez que ele se refere às mulheres, em vários trechos de suas obras, de uma forma pouco educada. O texto dele se compara ao som de uma banda de rock, que tinha a pretensão de mudar o mundo e, por isso, acabou sendo julgada como subversiva.

A intenção de Miller, de denominar praticamente tudo ao seu redor da forma mais chula possível, tem uma função bem explícita: dar sobrevivência ao ser humano e, por conseguinte, deixá-lo menos mecânico. Agora, se você não possui estômago passe longe de Dias de paz em Clichy. O livro, para se ter uma ideia, inicia-se com uma cena em que Miller leva uma prostituta para sua casa e faz sexo anal com ela. Na verdade, a descrição é hilária e traduz bem o espírito da prosa do escritor.

Miller, porém, não deve, sob hipótese alguma, ser lido sob a égide da putaria. O escritor, que bebera na fonte de gente de alto calibre da literatura e filosofia, também foi um grande observador dos costumes da sociedade estadunidense. Em Pesadelo Refrigerado, Miller dá uma volta pelas estradas e pequenas cidades dos EUA, e chega a conclusão que a sociedade norte-americana está cada vez mais presa aos meandros... enfim, leia-a.

A verdade é que sempre acabamos tornando-nos demasiadamente frígidos diante dos orgasmos prolongados que são descritos nas obras de Miller. Juro, de pé junto. Fico com cara de idiota, procurando outros textos para me satisfazer, mas é impossível. Desta forma, afirmo: Miller não é, e está longe de sê-lo, mais uma vez, um mero pornográfico, pervertido e depravado. Ele é mais, muito mais. E, para descobri-lo, não há outra forma, senão lê-lo. Vale a pena. Acredite.

Henry Miller (1891 - 1980)

Obras: Sexus, Plexus, Nexus, Trópico de Câncer e Pesadelo Refrigerado

#HenryMiller #cultura