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  • Marcus Vinícius Beck

Temos de falar sobre o jornalismo brasileiro


Prezado leitor, temos de falar sobre o jornalismo brasileiro e seu lead que condena preto, pobre e puta. Temos de falar sobre o jornalismo brasileiro e a opção editorial adotada por jornalões, revistões e televisões pelos quatro cantos do Brasil. Temos de falar sobre o jornalismo brasileiro e a angulação de suas reportagens, que excluí o proletário e bajula os donos do poder. Temos de falar sobre o jornalismo brasileiro e sua complacência com o ‘deus mercado’, que está radiante com a dissolução da esquerda solitária na terra tupiniquim.

Faço de tudo para tentar ao menos compreender o que vem acontecendo, mas não consigo. Juro que me esforço, leio, reflito, discuto, mas ainda sim sigo na escuridão. Parece realismo mágico! Juro que leio tudo quanto é jornal – sou como aquele cara indefinido cuja existência Caetano Veloso duvidara, no Festival da Canção, em 1967, vide a faixa “Alegria, Alegria”.

Sim, que prendam quem deve explicações à Justiça, mas não se apoiem em provas questionáveis, como um Power Point, tampouco, jornalistas e editores, reduzam a política a um mero big brother ou Fla x Flu. Porra, já basta livrar a cara de larápios tucanos e gangsteres emedebista, não é mesmo?

É, tio Nelson Rodrigues, o canalha é canalha na véspera e no dia seguinte. O tal Judiciário, alvo de saudações calorosas dos setores à direita, nunca condenou ninguém por conta das obras faraônicas na ditadura militar, muito menos no caso do Banestado, que ganhou, de modo bem brando, aliás brandíssimo, comparado a Lava-Jato, as páginas dos jornalões e revistões na década de 1990.

Afinal de contas, a chefia jamais irá permitir que um repórter volte da rua – se é que ainda há repórter que gaste sola de sapato, papel e caneta nestes tempos tecnológicos – com uma matéria contrária aos feitos de seus amigos.

Em meu sexto ou sétimo dia como foca, fui surpreendido: meu editor chamou-me à sala de reunião para me explicar uma pauta. Eu deveria ir para uma cidade da região metropolitana de Goiânia checar uma nota que o dono do jornal recebera em seu WhatsApp sobre coleta seletiva. O desafeto do cidadão kane era o prefeito do município, e ele suspeitava que moradores da periferia estavam em situação “horrível, parecendo que viviam num verdadeiro chiqueiro”.

Ao farejar a notícia, todavia, tudo estava dentro do normal. Mandei, mentalmente, o dono do jornal às favas. Os moradores não faziam uma queixa sequer acerca da gestão municipal, aliás eles afirmavam que estava “tudo muito bom”. Uma confissão: tive de ceder à prostituição jornalística e juntei alguns entulhos, que simbolizavam dejetos, e fotografei-os em meio à uma rua de grande movimento. Voltar, pois, à redação sem nenhum material é como ir trabalhar louco de ácido.

A partir deste dia, passei a olhar sempre para um dono de jornal com desconfiança. E, ao perceber algo horripilante que eles fazem, o que acontece religiosamente todo dia, tenho vontade de vomitar como um Bukowski chegando em casa depois de secar uma garrafa de uísque vagabundo e beber outros punhados de cerveja num bar copo-sujo.

Desculpe amigo leitor, mas era preciso desabar. O jornalismo é algo seríssimo, e não pode ficar restrito a picaretas. Sei que há o tal capitalismo para foder-nos nas matérias de cada dia, porém ética, intelectualidade e senso-bom são valores que diferenciam o ser humano dos outros animais, e determinam se uma pessoa cumpre ou não decentemente seu dever como jornalista. Agora, mais do que nunca, temos de falar sobre jornalismo.

#jornalismo #2018

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