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  • Marcus Vinícius Beck

As lições de um velho novo boêmio na noite goiana


Amigo boêmio, um bom par de tênis, um bloco de notas com folhas sobrando e um fígado de Hemingway. Eis meu lema de cada maratona alcoólica. O personagem pode estar na esquina, num boteco qualquer, pronto para contar histórias e molhar a palavra. Em qualquer esquina e bar, diga-se de passagem. O desta semana não estava num copo-sujo específico, pois há meses venho bebendo com ele e já o transformei em personagem neste espaço em várias ocasiões.

Com vocês Carpinteiro Libanês, 23, vulgo Thompson Silva, goiano, vilanovense, jornalista, poeta de botequim e homem raiz. Anos de sabedoria popular absorvida durante papos com mestres da boêmia nos mais diferentes bares da região norte de Goiânia.

É isso aí, viva a lírica bêbada de cada dia, pois a poesia está cada vez mais contaminada pelo óbvio ululante, vamos em frente, meus amigos, Carpinteiro com o taco de sinuca em mãos, mira na bola, giz branco sobre a mesa, suave como uma canção de Chrystian e Ralf, caçapa.

“Sabe, Beck, você precisa aprimorar seus dotes de sinuqueiro, eles são frágeis, não é nada difícil ganhar de você, mestre”, alardeia ele, chamando-me de ‘mestre’ em alusão ao doutor do jornalismo gonzo, Hunter Thompson. Fã do depravado-mor da narrativa jornalística, Carpinteiro defende veementemente que um Campari cura porre, “mais que tudo”. “É remédio”, esclarece.

É, meu caro João Antônio, um cara aprende as táticas de uma partida de sinuca quando se pratica com afinco, fôlego e vontade todos os dias. Um cara aprende sobre as coisas da vida, para citar Raulzito, quando troca uma ideia com lendas. Todavia, é preciso contar com um fígado relativamente resistente para tal epopeia alcoólica.

Nestas horas, é prudente lembrar dos ensinamentos do poeta paranaense, Paulo Leminski: “eu e meu fígado temos uma relação respeitosa: ele não me incomoda e eu não o incomodo”.

Carpinteiro mete mais uma bola na caçapa, ajeita o blazer, na estica, mostra-me sua camiseta da página do

facebook sobre o futebol dos anos 90 “Cenas Lamentáveis”, com o decreto número 32, gênio, canta “eu vou ficar/guardado no seu coração/ na noite fria solidão”.

Ri, ergui o copo e brindamos. A sabedoria etílica, filosofo, é primordial durante a vida de uma pessoa minimamente perdida no palácio da desilusão amorosa.

Outro dia, eu estava mais pra lá do que pra cá e ouvi a seguinte frase de uma colega: ”Carpinteiro é o típico show man”. Curioso, indaguei: “Por quê?” No que findei a frase, o cara disse que eram por dois motivos bem simples, pois “Carpinteiro namorou uma mina com a personalidade tão forte quanto a dele, enfartou e trabalhou num jornal famoso por não arcar com seus compromissos trabalhistas”.

Como assim, meu rapaz, se oriente, por favor. “Ora, Beck, pense comigo: o cara tem todos esses atributos, e ainda por cima torce para o Vila Nova”, sentenciou. Concordei, meneando a cabeça, positivamente.

Sim, Carpinteiro é a mistura do texto jornalístico de Hunter, da crônica de costumes de Nelson Rodrigues, que é fã incondicional, e da música sertaneja, à qual não dispensa, pois em “Goiás é o tipo de som que reina nos bares, festas e tudo o mais”. Palmas.

Foi mal, nobre leitor, a rasgação de cera, mas era imprescindível. Um abraço. Até a próxima crônica do lirismo elítico, vagabundo e incidente. Tchau, obrigado.

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