Buscar
  • Wes Machado

Defender a cultura como uma trincheira


No contexto pós-golpe intensificou-se o avanço da transferência da gestão de equipamentos culturais públicos à iniciativa privada. Sob o discurso da crise e do arrocho econômico amplia-se caminho para políticas de cortes e austeridade, que afeta diretamente o setor cultural brasileiro. Em 1998, no governo FHC, surgem as Organizações Sociais, criadas pela Lei Federal nº. 9.637, no âmbito do Plano Diretor de Reforma do Aparelho do Estado (PDRAE). As OSs são organizações privadas, desempenhando serviços de atribuição do Estado, e pagas com dinheiro público. No setor cultural, por exemplo, estão gerindo teatros, museus, bibliotecas, casas, oficinas e fábricas de cultura, etc.

Desde do início do Governo Temer a cultura vem sofrendo diversos ataques, além de descaso e falta de investimento, a mesma lógica privatista se aplica em alguns estados e cidades. Na cidade de São Paulo o prefeito João Dória anunciou a entrega da administração do Centro Cultural São Paulo e das 54 bibliotecas municipais da cidade as OSs, parte de um pacote de medidas de venda da cidade ao setor privado, que abrange também parques, o Sambódromo, além de importantes teatros, como o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). A ideia de que os serviços públicos são ineficazes contribuem para que a população em geral não se sinta diretamente afetada por esse processo de privatização de nossos bens culturais. Mas a longo prazo além da entrada nestes equipamentos culturais serem cobrados, o que impõe uma barreira de acesso social, as relações de trabalho para os agentes culturais destes equipamentos ficarão muito mais precarizadas.

Outro caso de ataque a cultura é o do Teatro Oficina Uzyna Uzona, patrimônio cultural e imagético brasileiro, que enfrenta uma briga histórica com o Grupo $ilvio $antos pela posse do terreno do entorno do teatro. O projeto do Grupo Silvio Santos é a construção de torres ao redor do teatro o que colocaria na penumbra, não só o Teatro Oficina, como uma parte do Bixiga. O Oficina é tombado nos três âmbitos: municipal, estadual e federal, mas recentemente o CONDEPHAT, órgão que regula e fiscaliza o patrimônio histórico na capital paulista, decidiu por 15 votos a 7 que Silvio Santos pode seguir com seu empreendimento. A questão do Teatro Oficina vai muito além do que uma briga por um determinado espaço no centro da cidade e nos aponta diretamente para o fenômeno da especulação imobiliária que está ligada diretamente a política de gentrificação e da higienização que ocorre nos grandes centros urbanos. O Bixiga é um reduto cultural paulistano e a existência do Teatro Oficina é uma resistência contra a força da grana que destrói coisas belas.

O projeto de Brasil que queremos é o de ampliação de direitos e a privatização de equipamentos e aparelhos culturais vai na contramão da democratização do acesso, fazendo com que cada vez mais a cultura - que além de ser um pilar econômico é também um elemento de integração nacional - continue seguindo uma lógica cada vez mais mercantilizada e seletiva. Interessa aos mantenedores e aliados do golpe um Brasil que não se reconheça, que importe o que é de fora como sendo melhor, que feche teatros, censure artistas e proíba manifestações artísticas. Do lado de lá aceleram o processo de desmantelamento do nosso patrimônio artístico e cultural, do lado de cá resistimos juntos. O enfrentamento ao golpe possibilitou que estudantes, artistas e intelectuais caminhassem cada vez mais unidos na defesa daquilo que nos é mais caro: a nossa democracia.

E assim seguiremos, a cultura resiste não somente pelo seu direito de existir, de apontar, de subverter, de emocionar, de escandalizar, mas acima de tudo pela sua capacidade de nos fazer sonhar. Resistiremos em cada teatro, museu, quilombo, aldeia, rua ou praça pois cultura é patrimônio, não tem patrão nem dono.

Wes Machado, coordenador geral do CUCA SP, estudante de Teatro da Universidade Anhembi Morumbi.

#2018 #wesmachado #CONDEPHAT #privatizaçao #oss #SãoPaulo #JõaoDória #resistência