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  • Marcus Vinícius Beck

Ode à liberdade de imprensa


Do lead ao pé: o jornalismo precisa ser livre das pressões econômicas. Pilar do Estado Democrático de Direito, saqueado por juristas e governantes que estão acima da lei, o ofício é romanticamente retratado na fita The Post – Uma Guerra Secreta, que serve como alento aos jornalistas que compreendem a função social de sua profissão. Afinal, como diz o editor Ben Bradlee, “é publicando que se garante o direito de publicar”.

Com esta máxima, o estadunidense Washington Post virou um veículo de comunicação de credibilidade no âmbito nacional, apesar de meses antes ações do jornal passarem a ser cotadas na Bolsa de Valores com esta intenção. Em 1971, Katharine Graham estava no comando do Post havia oito anos. Ela assumiu a chefia após o suicídio de seu marido, em 1963. Tímida, nunca impôs qual linha editorial deveria adotar ao tratar de Richard Nixon. O que prevalecia, em seu entendimento, era o jornalismo.

Alguns anos antes, muita gente via com maus olhos a contratação do editor-executivo, Ben Bradlee. Correspondente da revista Newsweek na Europa, mantinha uma relação bem próxima do ex-presidente dos EUA, John Kennedy, chegando a ser secretário de imprensa do mandatário. Bradlee, repórter do Post no final da década de 1940, defendia que a liberdade de expressão não deveria obedecer imposições do Estado. Frequentemente, é citado como um dos melhores editores da história do jornalismo. Apenas em sua gestão Post conseguiu 17 prêmios Pulitzer.

Embora Graham e Bradlee tivessem um relacionamento pessoal respeitável, interesses opostos estavam em jogo quando o Post teve acesso aos documentos que comprovavam a carnificina que virara a Guerra do Vietnã. Desde meados da década de 1960, a Casa Branca sabia que vidas de jovens estavam condenadas à morte na Ásia. Esta é a espinha dorsal The Post, que conta com Meryl Streep e Tom Hanks nos papeis de protagonistas da trama. São ícones da sétima arte interpretando ícones do jornalismo.

Filme

Na fita, o ponto de vista é a redação do Post, que pulsa no ritmo do noticiário e vibra quando há “algo quente” que pode virar a manchete do dia seguinte. Conhecida como Pentagon Papers, a série de reportagens sobre a Guerra do Vietnã começou com o jornal The New York Times, meses antes de o Post endossar à causa. Com a desculpa de que os papeis continham segredos de Estado, juízes federais processaram o Times e conseguiram a suspensão das reportagens. Mas nem isso impediu Bradlle de publicar.

Interpretados por Streep, todos esses temas ganham vida na telona por conta da sutileza da personagem que está em constante mudança. E é isso que dá força narrativa à fita. Os movimentos mais preciosos do filme, vale ressaltar, cabem a Streep e Tom Hanks, no papel do mítico Bradlee, que inevitavelmente será alvo de comparações com Jason Robards, outro ator que esteve na pele do editor em Todos os Homens do Presidente, de 1976, filme sobre o caso Watergate.

Por mais estranho que possa parecer, foi em The Post que os dois contracenaram pela primeira vez. E, logo de cara, demonstraram uma química cinematográfica leve, fácil e sutilmente cômica – função que fica evidente nos diálogos. No entanto, frases pontas como “mas não podemos fazer isso” está presente no filme, afinal cinema hollywoodiano sempre terá aquela receita narrativa aristotélica.

Em via de regra, numa crítica busca-se um distanciamento entre o objeto analisado e o texto. Contudo, neste caso, torna-se praticamente impossível manter tal postura, pois o cerne do filme é justamente o jornalismo, ofício defendido ética e moralmente pelo Site Metamorfose com honra. A trama, como gosta o diretor Steven Spielberg, transformou-se numa aventura, mas não física, e sim dialética. Em tempos cujo fascismo está despontando rapidamente, o filme de The Post pode confortar todos que todos que veem esperança na esquina.

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