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  • Marcus Vinícius Beck

Sem Carnaval, mas com folia


Amigo boêmio, os adeptos do colarinho branco já deixaram claro que não investirão um tostão sequer na festa mais brasileira de todas na terra do pequi. Mas tal discurso das raposas políticas não vai te impedir de ir para a folia biritar, amar e transar. “Folia tem, mas é foda passarmos o ano todo arquitetando o Carnaval e, ao chegar em cima da hora, não tê-lo”, diz o mestre Olodum, da escola de samba Brasil Mulato.

É foda, sim. Mas não se desespere, já que nas ruas terão festas. O Carnaval, senhoras e senhoras, é o paraíso dos seres mal-diagramados como neste cronista. O fora fica até mais reconfortante e revigorante. Todavia, a dor é imediata e o pé na bunda é inevitável, tanto que durante o feriadão aquele ‘não’ assemelha-se a uma pantufa, tamanha fofura que é possível encontrar na negativa da moça.

Eis que indago: quanto tempo dura uma paixão carnavalesca? Algumas conseguem segurar a barra até a primeira incursão no bar. Outras, raríssimas, dão em namoro ou casamento, como foi o caso de uma amiga que ficou com um sujeito a primeira vez na folia e acabou namorando-o. Vejam vocês: esse negócio de juízo não está com nada durante o período carnavalesco.

Digo mais: assim deve ser levada a vida após a quarta-feira de cinzas, sem delongas. Esquentar a cabeça por conta dos problemas e ligar para a crush altas horas da madrugada, sendo motivado pela birita que corre nas veias, não pode acontecer na folia. Ao menos haja uma paixão terrivelmente avassaladora, aí que não tem o que fazer: é melhor ficar com ela, pois não vale trocar uma pela efemeridade das outras.

E o sexo carnavalesco, então? Nem se fala. Se o cara sofre de ejaculação precoce, daí é que o mundo da folia o apressa mais ainda. Várias transas-miojo: esquentou, ferveu, acabou, tchau, até a próxima. É tempo propício para qualquer fracasso, como as broxadas (sim, o dicionário Aurélio admite duas grafias para o fiasco masculino) que evocamos após uma noite regada a álcool.

Outra: se tiver de trabalhar durante o feriadão – escribas estão sempre atrás da saborosa fortuna, que nunca vem – use óculos escuros. Não importa se irá conversar com a chefia. Ponha-os e mantenha sempre a voz firme e séria. Certamente estarão na mesma que você, pois todos se embebedam nos foliões.

Tratemos de levar a vida como no Carnaval, sem esquentar-se com aquela discussão boba que teve com a namorada (o). Esqueça os conselhos de que deve ter juízo, porque nada é mais insuportavelmente desnecessário do que esses conselhos moralistas. Não, no Carnaval é melhor nem tê-los e, se tentaram lhe falar, é melhor nem ouvi-los.

Pois bem, vou ali na esquina iniciar os trabalhos. Quem sabe não dou sorte e encontro o amor da minha vida, desculpe, o amor do feriadão, o amor da semana, o amor de hoje, à noite, dos minutos, segundos e milésimos. Afinal, como diz o pai espiritual desta coluna, Xico Sá, no carnaval amamos e somos amados pelo menos por 15 minutos.

Até a próxima.

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