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  • Wes Machado

Escravo moderno


Ser negro pra mim é louvação do passado e projeção do futuro. Nasci em 94, pouco me lembro de quando era criança ter referências de outros negros como modelo de vida. Mas em casa e nas ruas dos bairros eram os moleques pretos que nem eu que se aglomeravam no asfalto pra jogar bola.

Na periferia de Salvador assim como no resto da cidade os negros e negras são maioria esmagadora. Eram o que meus olhos estavam habituados a ver e enxergar como belo. Me lembro da primeira vez que fui ao shopping e lá estavam meus pares, mas diferente de mim não estavam indo ao cinema, mas em postos de serviço que ia da senhora que recolhia ao caixa do supermercado.

Aquilo me deixou com uma pulga atrás da orelha, mas nada que abalasse as estruturas alicerçadas do meu mundo de criança. Em uma casa de 10 filhos vi desde cedo meus irmãos irem pra praia vender picolé e amendoim e minha mãe sair pela rua com uma caixa de sonhos e salgados. O sistema te empurra a ideia de que você precisa crescer e trabalhar, para ser bem sucedido. A defesa do trabalho é reforçada inclusive com a idéia cristã de que o trabalho dignifica o homem. Mas já cês já perceberam quais postos a população negra ocupa nos postos de trabalho?

Nós estamos na base da produção, nas fábricas, nas ruas, nas casas, nos subempregos. A herança histórica deixada pelo processo de escravidão no Brasil não veio equiparada com uma política de inserção dos escravos libertos ao sistema de trabalho, o que é sintomático para entender a construção social que projeta e prepara brancos para ocuparem as melhores funções, enquanto ao povo negro é apontado o caminho, aos moldes do século XXI, da servidão.

Se no passado nossa força produtiva era pautada pela força física e muitas vezes qualificada pelos dentes brancos, hoje ela é vendida nos call centers, nas lojas de shopping, nos serviços domésticos e manuais.

Trabalho digno é questão de emancipação do povo negro. Trata-se Emancipação econômica frente ao status quo que insiste em nos manter na base sustentando nas costas o restante da pirâmide.

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