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  • Marcus Vinícius Beck

Nobel da literatura está em cheque


Premiação que desprezou Machado de Assis, Jorge Amado, Graciliano Ramos e tantos brasileiros, a escolha do próximo escritor a ser condecorado pelo Nobel da Literatura está em cheque por conta de escândalos que vieram à tona nos últimos dias, na Academia Sueca. As acusações de assédio sexual e vazamento de dados de alguns vencedores das edições passadas abalaram as estruturas de uma instituição que tem 230 anos. A denúncia envolvendo três acadêmicos só acentuou a crise que se instalou sob os aristocratas das letras.

No centro da trama, está Katarina Frostenson, acadêmica há 26 anos, pouquíssimo tempo, e integrante do Comitê Nobel, além da esposa do dramaturgo e fotógrafo francês Jean-Claude Arnault. Ambos são promotores do Fórum, que é um centro cultural ligado à Academia Sueca. No ano passado, quando o movimento #metoo ganhara força ao redor do mundo, o fotógrafo fora acusado por 18 mulheres de assédio sexual, um sujeito admirável mesmo... Mas as denúncias imediatamente foram varridas para baixo do tapete. O início dos vazamentos de dados começaram aí.

Como forma atenuar estes inconvenientes, a Academia rompeu seu vínculo com o Fórum e deu o ponta pé inicial a uma investigação que fora encerrada sem nenhuma conclusão por falta de provas. As razões para este desfecho, como você deve estar se perguntando, são óbvias. Mas a instituição aproveitou para pôr em votação a possibilidade de censurar a conduta de Frostenson. No começo de abril, seus apartidários venceram com uma margem apertada, criando uma espécie de desacordo com a decisão. Em meio à isto, os medalhões Klas Östergren, Peter Englund e Kjell Espmark renunciaram.

Renomeado divulgador da literatura nórdica, o escritor e editor húngaro Gabi Gleichmann disse que não foi completamente descartada a ideia de cancelar a premiação deste ano. Ele destaca que Arnault foi o “arquiteto dos prêmios para Le Clézio e Modiano”, repletos de trambiques e parafernálias, e propõe que a solução requeria, antes de mais nada, a “renúncia voluntária” de Frostenson, esposa de Arnault. Bem, aristocratas curtem estar em evidência, né?

Nobel em risco

Os aficionados por literatura estão temerosos em relação ao futuro do prêmio mais tradicional do mundo. Mas este problema que ganhou as manchetes dos principais jornais do mundo de fato traz risco à premiação. Primeiro, porque os até então intocáveis acadêmicos tiveram suas máscaras caídas. Segundo, porque foi revelado a grandíssima balela chamada Nobel da Literatura. Aliás, para efeito de reflexão, nenhum autor brazuca sequer ganhou o prêmio.

Por outro lado, do ponto de vista literário, figuras completamente desprezíveis foram agraciadas com a premiação tida como a ‘mais importante’ do mundo das letras. Falo desse pessoal que ainda respira sob os privilégios de uma Europa que não perdera seus resquícios à lá século XVIII e cujas ‘obras literárias’ nem sequer conheço – Graças a Deus!. Talvez seja ignorância, mas tenho preferência pelos clássicos. Clássicos esses que nunca, nunca mesmo, foram laureados com um Nobel. Clássicos que mudaram a literatura no último século... clássicos que narraram a vida como ela é, vide a prosa visceral de Henry Miller, sempre desprezada por essa gente que agora está na berlinda.

No final de 2008, poucos dias depois que ser anunciado a famosa porta branca da Academia Sueca para anunciar que o Prêmio Nobel concedido a J.M.G. Le Clézio, o então secretário da instituição, Horace Endgahl, disse que alguém tinha vazado a notícia e, desta forma, beneficiou quem investiu no francês nas casas de aposta do Velho Continente. Quase uma década depois do vazamento de dados, porém, o batido romance de espionagem da Academia Sueca segue com seu enredo em aberto. O fim todos sabemos, mas sempre é bom manter as aparências.

Vencedor de 2010

Vencedor do Nobel de 2010, o escritor peruano Mario Vargas Llosa disse, em entrevista ao El País, que se trata de “um grande escândalo que levou a uma divisão muito forte”. Llosa ainda pontuou que as pessoas com as quais comentou o caso compartilham da mesma visão de que o buraco é mais embaixo. “A divisão trouxe à luz rivalidades que existem em todas as instituições. Sobre as denúncias, aparentemente muito fundamentadas, a Justiça deve se pronunciar, mas o escândalo não deveria afetar uma instituição que sempre desfrutou de um respeito e audiência universais”, diz o escritor, que fora amigo de Gabriel Garcia Marquez e Júlio Cortázar.

Vargas Llosa, vale ressaltar, flerta com idéias conservadoras. Mas ele escreve bem. Só não falar sobre política, economia e outros assuntos espinhosos.

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