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  • Marcus Vinícius Beck

Há um ano, ele foi “embora sorrindo, sem ligar para nada”


Arte: Heitor Vilela

Texto originalmente publicado no ano passado. Reproduzo-o para lembrar do aniversário de morte do trovador cearense, que completa um ano no próximo dia trinta.

“Em cada luz de mercúrio/ vejo a luz do teu olhar”.

Vários porres, em Ponta Grossa, no interior do Paraná, foram ao som de “Alucinação”. Os vômitos tinham um motivo, além da garrafa de Presidente, o conhaque mais forte do sul do mundo: era a estranheza pela dor do amor. Muitos amores, porres e cotovelos escorados nos balcões de bar, na conquista ou na derrota, lá estava o bigode no autofalante. Belchior sempre foi o sujeito que cantou os fracassos e os triunfos desses rapazes latino-americanos sem dinheiro no bolso e vindos do interior.

Recentemente, chorei ouvindo-o e bebendo Bavária. Era uma dor que evidenciava minha impotência: a mulher que amo está com outro, e tudo o que consigo fazer é sentar e redigir umas sentenças malucas. Ainda tenho alguns leitores, como Belchior também tinha – e muitos – ouvintes. A vida, de uns tempos para cá, está difícil, mas tudo torna-se mais suportável com “Coração Selvagem” berrando na vitrola.

O trovador do Ceará também embalou roqueiros. Comentarista da TV Globo, o ex-jogador Casagrande, na decisão do campeonato paulista, deixou Corinthians e Ponte Preta de lado para ressaltar a importância de Belchior à sua geração a partir da década de 1970. Fã do trovador cearense, uma amiga soube da morte do mestre e não conseguia assimilar o que aconteceu. “Não quero falar disso”, afirma ela, emocionadíssima. “Triste”, salientou Luís, meu irmão e mentor na boemia.

No último domingo, antes da final do campeonato goiano, estávamos vestidos com a camisa do Vila Nova, comendo frango, feijão tropeiro e farofa, entoando cânticos e honrando rituais pré-decisão, quando descobrimos a notícia de que Belchior morreu. A alegria deu lugar ao silêncio. “Cê não vai acreditar”, diz Thompson Silva. “O grande Belchior morreu”, contou, visivelmente chateado. O trovador calou-se.

Belchior dialogou com Beatles, Godard, Baudelaire, Dante, os Dylan (Bob e Thomas), Torqueto Neto, Mário Faustino, Jorge de Lima, Albert Camus, Drummond, Roberto Carlos, Luiz Gonzaga, “nada é divino, nada é maravilhoso”, ele soube como ninguém cantar as dores naqueles momentos em que não sabemos como diagnosticá-las. Só temos compreensão do que deveras sentimos. É um delírio com coisas reais. Saca aquela melancolia de domingo à tarde?

Momento em que só passa pela nossa cachola beber um trago e levar a agulha para riscar na vitrola. “Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro de seu coração/ Esconda um beijo para mim sob as dobras do blusão/ Eu quero um gole de cerveja no seu corpo e nesse bar/ Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja”.

No primeiro punhal de amor traído, no destino das inevitáveis partidas e na sensação de estranheza ou estrangeirismo, meu caro Xico Sá, sempre há de ter uma balada de Belchior. Ninguém interpretou melhor o Brasil do que o cara. Belchior é, antes de tudo e sobretudo, um cigarro queimando no cinzeiro, esperando ser fumado, enquanto alguém chora ao lado. O gênio foi antes de tudo um permanente exilado.

Errante, Belchior cantou assim, em uma canção do disco “Paraíso”, de 1982: “Um dia você me falou, em Andaluzia e em Valladolid/ Granada fica além do mar, na Espanha/ Molhou em meu vizinho seu pão/ E também me falou em coisas do Brasil/ O FMI, Tom, poeta tombado na guerra civil...’

A música citada é a faixa “E que tudo mais vá para o céu”, um diálogo com o rei Roberto. Na mesma música, o cara parafraseia o poeta Carlos Drummond e da asa negra da graúna alencariana. Nenhum cantor celebrou a literatura brasileira quando do Belchior. Nem Caetano, outro que é chegado a coisas que aprendeu nos livros.

“E eu fui embora sorrindo, sem ligar pra nada;/ como vou ligar para essas coisas/ quando eu tenho a alma apaixonada? (...) “E eu quero mandar para o alto/ O que eles pensam em mandar para o beleléu/ E que tudo mais vá para o céu”.

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