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  • Marcus Vinícius Beck

Liberté - Maio 2018: uma festa que deixa um quê de ‘quero mais’


Evento reverenciou primavera francesa. Agora, resta-nos aguardar os próximos capítulos da novela que a galera do coletivo Metamorfose vem produzindo

Desci do Baleia Vermelha e caminhei em direção ao Cabaret Voltaire. Estava ansioso, sentia o coração bater na garganta, pensamentos desconexos e, ao mesmo tempo, estranhamente conexos. Veio-me à mente alguns fleches da época em que vivemos a Rádio Libertária: o sonho estava se tornando realidade, pois tudo nascera durante aqueles dias de embriaguez, utopia e tesão. Sim, porque há pouco mais de um ano tudo isso que pretendemos fazer e, de certo modo estamos fazendo, era apenas uma ideia na cabeça e um amontoado de entraves dos mais variados tipos que nos impossibilitavam a dar um passo à frente.

Agora estamos aqui... Mas para que esta matéria não seja um ode de mau gosto à festa Liberté – maio 2018 é preciso voltar algumas décadas no tempo. Em 1968, o mundo estava em ebulição. Na rádio, o rock psicodélico de The Doors e Jefferson Airplane emancipava a consciência dos jovens que estavam cansados de viver aquilo que seus pais julgavam ser certo ou errado. Eram tempos de Guerra do Vietnã, de Geração Beat, da teoria orgástica de Wilhelm Reich, de revolta, de caos, de medo e delírio, vide o épico livro-reportagem de Hunter Thompson ao melhor estilo de O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald...

Anos depois, em 2014, a luta contra os desmandos promovidos pelo Estado ganhou conotação histórica. Isso porque militantes foram presos em uma operação mandrake comandada pela Polícia Civil. A prisão do jornalista, editor do DM Revista e integrante do coletivo Metamorfose, Heitor Vilela, do cientista político Ian Caetano e do estudante João Marques uniram setores progressistas das mais variadas orientações ideológicas contra a criminalização de manifestações populares na Capital goianiense. Ou seja: um enredo que poderia tranquilamente ocorrer durante os anos de chumbo, mas que ocorreu em plena ‘democracia’.

Deixe para lá essas coisas que já deve ser de seu conhecimento, caro leitor. Porque o que eu quero salientar com essas palavras é que a cidade de Goiânia tem de estar preparada para abraçar um novo rolê que vem despontando no cenário alternativo, e que promete usar a cultura para chamar atenção aos fatos históricos e políticos de extrema importância para a sociedade. Apesar de ser alvo de críticas equivocadas por pessoas que não respeitam intervenções artísticas, a festa Liberté- maio 2018 cumpriu seu papel primordial: lembrar e saudar o mês de maio de 68, essencial para a organização dos movimentos sociais que surgiram a partir de então.

Público

O Coletivo Metamorfose e estudantes de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (UFG) organizaram na última quarta-feira (23) a festa Liberté – Maio de 2018 em comemoração aos 50 anos do mês em que aconteceram revoltas sociais que inspiraram gerações de jovens em várias parte do mundo. Ao todo, o evento contou com performances artísticas, exposições, flash tattoo, projeções de videoarte e discotecagem. A primeira atração da noite foi a discotecagem do jornalista Heitor Vilela. O setlist foi composto basicamente por músicas que faziam parte da trilha sonora da primavera parisiense, como as canções Mai de 68 e It's no Secret, da banda californiana Jefferson Airplane.

No instante em que rolava as canções revolucionárias, o Cabaret ainda estava vazio. Porém, minutos depois, não seria exagero algum afirmar que havia pelo menos 450 pessoas, o que tornou o espaço praticamente intransitável. Por outro lado, ainda que estivesse difícil a locomoção sem esbarrar em alguma pessoa, boa parte do público disse que o evento foi “muito foda”. Já outros não economizaram nas críticas construtivas e sugeriram que as próximas festas que o coletivo Metamorfose organizar sejam menores, pois isso iria fazer com que as pessoas presentes conseguissem interagir umas com as outras sem interferência sonora.

O cientista político Mateus Ferreira da Silva, alvo de truculência policial no ano passado durante a Greve Geral, estava satisfeito com o evento. Fumando cigarro de palha e bebendo cerveja, ele analisou as revoltas ocorridas em maio de 68. “A primavera francesa cumpre papel imprescindível no que diz respeito aos movimentos sociais que rolaram depois”, afirma. Questionado sobre sua candidatura à deputado estadual, o cientista político disse que é “necessário ocuparmos os espaços e, até mesmo, o próprio parlamento”. “A gente não está em um contexto revolucionário, então é importante a gente estar nesses lugares”.

Ofegante por conta da correria para deixar a festa ‘redonda’, a fotógrafa e jornalista Júlia Lee, 21, relatou que o evento atendeu suas expectativas. De acordo com ela, o público foi bastante receptivo com as atrações que rechearam a noite. “Foi uma sensação incrível e gratificante, porque conseguirmos uma grana e, com isso, damos um passo muito grande para concretizar nosso sonho”, destaca. Para ela, além de o evento ter sido um “sucesso”, outras festas com temáticas políticas estão a caminho e prometem dar um novo gás à desgastada cena cultural da Capital goianiense. “Quem sabe, né? Minha meta é usarmos o Centro Cultural José Mendonça Telles para essas festas”, finaliza.

Atrações

O ponto alto da festa foi a performance da fotógrafa Júlia Lee. Com apenas um casaco azul escuro, ela subiu em uma escada e ficou em cima de uma balança, onde jogou sua única vestimenta para os ares. Em um de seus mamilos, foi possível ler a frase “hetero frágil”. Depois deste momento, o que mais se falava entre as pessoas que estavam lá era a “estética porra-louca daquela menina”. Por outro lado, uma galera dadaísta não compreendeu muito bem o que Júlia queria passar com sua intervenção. Nada de anormal.

Mas dane-se isso tudo. Na verdade, em tempos repressores, nada melhor do que literalmente chutar a cara da sociedade com posturas que, é claro, vão dar o que falar, mas também irão despertar maior consciência nas mulheres. Ser convencional não é uma opção para a fotógrafa, e ela certamente quis expressar sua revolta. No final da apresentação, Júlia pulou para a parte de cima do Cabaret, escondendo sua nudez castigada e deixando um gosto de quero mais nos irrisórios machos que estavam lá só para vê-la pelada.

Boquiaberto, o público ficou meio sem entender o que estava de fato acontecendo com aquela “menina muito louca”. Perambulei por alguns pontos da casa e ouvi a galera tecendo comentários elogiosos sobre a intervenção dela. Eu tinha conhecimento prévio de que ela iria fazer uma performance, porém não sabia que teria esse impacto todo.

Conversei com Júlia dois dias após sua apresentação, quando saímos para almoçar juntos. Ela me relatou que sua intenção de fato era gerar um incômodo nas pessoas que estavam na festa Liberté. ”Minha performance foi um grito de uma mulher que ta cansada de ter que esconder seu natural e, ao mesmo tempo, tem seu corpo hipersexualizado e explorado pela indústria pornográfica e pela cultura de massa”, pondera a fotógrafa, que é conhecida na cena underground da cidade por publicar em suas redes sociais fotos com essa pegada. Inclusive, chegou a ser censurada por conta do “teor desrespeitoso” das imagens que veicula no instagram e facebook. “Uso meu corpo como uma forma de expressão”, explica.

Entre uma poesia declamada e uma performance avassaladora, o público aproveitava para ir ao bar pegar mais uma cerveja. Vendida a R$ 4,00 a Antarctica e R$ 8,00 a Heineken, quem curte saborear uma boa cevada não ficou sem molhar a garganta. Se você estava quebrado, com tostões estritamente contados no bolso, não ficou sem saborear a bebida mais apaixonante dos bares e festas. Destilados também estavam sendo comercializados aos montes. Encher a cara, para quem curte um rolê com pegada política e social, foi uma opção digna para uma quarta-feira pré-feriado.

Desfecho

Com início às 19h, a festa Liberté – Maio 2018 acabou por volta das 5h da madrugada. Cansado, não tinha mais energia para percorrer todos os cantos do evento. “O que você achou da nossa capacidade de fazer uma festa?”, perguntou-me Júlia Lee, quando o sol estava despontando no céu para matar o ímpeto boêmio da galera. “Bem”, respondi, “creio que vocês estão de parabéns, porque ficou muito bom tudo isso”. Com os olhos brilhando, ela me disse que a sensação de ‘missão cumprida’ era reforçada pelo fato de que nunca organizou um evento desse porte. “A cena cultural dessa cidade está mudando”, refleti, em voz alta.

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