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  • Marcus Vinícius Beck

“Fica é festival elitista”, afirma comerciante


Moradores passam longe de serem favoráveis ao Fica. Mas há quem o veja como uma oportunidade para aumentar a renda

Adão de Assis, vendedor de água no centro histórico, afirma que é fácil "aumentar a renda" nesta época do ano. Fotos: Júlia Lee

A comerciante de roupas Irene Rodrigues, de 50 anos, segurando vestuários femininos em sua loja e andando calmamente como gente que mora em cidade que respira a áurea do século XVIII, contou que o Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA) traz vários prejuízos para a Cidade de Goiás. Moradora da antiga capital de Goiás desde sua nascença, ela revelou que os visitantes não cuidam das ruas ao prestigiarem o show de encerramento do festival e não pensam duas vezes antes de atirar bitucas de cigarro e latas de cerveja pelas ruas. Além disso, em sua visão, o FICA nada mais é do que um evento destinado para a elite. “FICA é festival elitista”, afirma ela, sem pestanejar. “Falta divulgação, principalmente para quem mora na periferia”.

Por outro lado, nem todos os habitantes da cidade veem os dias de agitação cultural provocado em grande parte pela exibição de filmes e mesas de discussões com maus olhos. Pelo contrário. O vendedor ambulante Adão de Assis, 71, garante que o FICA gera inúmeros benefícios para o município e fomenta a prática do turismo, que é uma das poucas formas de os cofres públicos da Cidade de Goiás encherem. Encostado em uma sombra em frente a Casa de Cora Coralina, ele diz que o público frequentador é educado e respeitador, o que lhe dá um gás todo ano quando chega os dias de festival. “Meu lucro aumenta consideravelmente nessa época do ano, então não tenho por que não gostar de dessa festa toda", explica.

Acostumada a pouco movimento durante o ano, a antiga capital de Goiás é uma cidade inspiradora. Mas nem esse fator exime o município de problemas que ganham as páginas de jornais do Estado. Sim, Goiás está longe de ser um local perfeito, mas o mínimo de consideração por parte dos órgãos responsáveis deveria acontecer, especialmente no que diz respeito à quantidade de lixo jogada no chão. Em contrapartida, a secretária municipal de cultura e turismo, Flávia de Brito Rabelo, ratifica que iniciativas que visam atenuar esse problema vem sendo tomada em parceira com integrantes do projeto FICA Limpo. Porém, para medida de esclarecimento ao leitor, é importar frisar que este atua nos momentos em que há festival e somente no centro histórico. Em dias normais, a prefeitura deveria agir.

Enquanto isso, críticas por parte de habitantes do município de Goiás se tornam cada vez mais corriqueiras. A secretária e amiga de Irene, Aparecida Lopes, 38, reclama que quando “o FICA passa e nossa cidade é obrigada a conviver com os mesmos problemas que já viraram nossos irmãos”. Mesmo que discursos desse tipo sejam frequentes – ainda mais se você andar pelas ruas de calçamentos da cidade -, verá que tais queixas possuem um fundo de verdade. Ora bolas, com todo respeito aos jargões populares, um município que fora tombado pela Instituto de Preservação ao Patrimônio Nacional (Iphan) ainda na década de 1970 merece respeito. E muito.

Divulgação

Além dos vários problemas socioambientais que curiosamente acometem a histórica Cidade de Goiás, os moradores também estão insatisfeitos com a divulgação do Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA). Ao trabalhar em várias edições do evento em anos anteriores, a secretária Aparecida Lopes, 38, não titubeia, e diz com propriedade: “Se você não estiver por dentro, tipo trabalhando de fato na organização do FICA, jamais saberá qual será a programação que está prevista em mesas de debates”. Ressalvo: discursos desse porte não deveriam ser a nota que rege o rolê, mas acabou virando, por razões estranhas – ou nem tanto.

Iniciativa próximo a igreja Matriz de Santana chama atenção

O gari Arquemínio Batista dos Santos, 58, tem a mesma visão de Aparecida. Além de limpar os resíduos que tristemente poluem a Cidade de Goiás, como já foi mencionado neste texto nos parágrafos acima, ele reclama da falta de divulgação do FICA. Funcionário da prefeitura há dez anos, nunca sequer foi a uma exibição de filmes, ou algo do gênero, o que torna-o um peixe fora d´água – ele e todos que são reféns da deficitária divulgação do reconhecido festival. “A cidade fica suja, mas a gente limpa ela para deixar mais bonita”, diz, como quem labuta diariamente para pôr um pão francês na mesa de sua família.

Em função disso, é importante destacar, atitudes de consciência social e ambiental deveriam ser tomadas o mais rápido possível. O público que de fato mantém a cidade limpa – leia-se, esta frase não tem a intenção de colocar um ofício em maior, ou menor, importância que o outro – está relegado a segundo plano. E, vale ratificar, não importa se você vem a Goiás apenas para assistir ao show da cantora Ana Carolina: a cidade tem de permanecer limpa, pois é dessa forma que ela ganhará mais beleza, mais grandeza, mais sensualidade. O resto dá-se um jeito.

Varal solidário

Embora os problemas citados sejam latentes, a população do centro histórico de Cidade de Goiás organizou um "varal solidário". A ideia é fazer com que pessoas sem casa ou passando alguns dias na cidade o usem para secar suas vestimentas. Para usá-lo, não é necessário pedir permissão para ninguém: basta ir ao local onde está instalado o varal e pendurar as roupas. Quando secá-las, basta recolher. "Trabalho aqui todo dia e cansei de ver a quantidade de gente que passa por aqui e estende e tira roupa. É curioso", salienta Irene Rodrigues, 50.

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