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  • Marcus Vinícius Beck

Reflexão e cervejada resumem primeira noite do FICA


Primeira noite do FICA teve reflexões sobre povos indígenas e, para fechar com chave de ouro, cervejada

Foto: Júlia Lee

“Mas é assim que eu te desejo/ sozinha num quarto/ no sonho eu te vejo”. A música Desejo de Amar, da dupla goiana Chrystian e Ralf, ecoava por vários bares e distribuidoras de bebida na primeira noite do 20° Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA). Por outro lado, ainda que o gosto pela canção sertaneja seja real entre boa parte do público que mora na Cidade de Goiás, foi possível encontrar diversos gêneros musicais presentes ao longo de minha peregrinação boêmia No Coreto, localizado no centro histórico da antiga capital do Estado, uma roda de samba fazia com que várias pessoas deixassem se embalar por um cavaquinho e batuque.

O festival teve o ponta pé inicial após discurso do governador José Eliton (PSDB) durante solenidade de abertura que sacramentou a abertura do FICA. No entanto, pouquíssimos estavam realmente interessados no que o tucano iria falar, ou em seu comparsa Demóstenes Torres – aquele mesmo que era chapa do contraventor Carlinhos Cachoeira. O mais comum foi ver gente aproveitando o longo discurso para comer alguma coisa nos restaurantes e pizzarias que fazem da cidade também uma atração gastronômica. Na verdade, pensar na verborragia tristemente falaciosa do político já era pretexto suficiente para ficar longe de tudo aquilo que ele representa.

Por volta das 21h, quando Eliton largou o microfone, o premiado diretor de cinema e antropólogo, Luiz Bolognesi, deu entrevista coletiva para jornalistas na entrada do teatro São Joaquim (leia mais em cultura) para prestigiar a exibição do filme Ex-Paje. Enquanto o documentário estava sendo mostrado, o público não esboçava qualquer tipo de reação facial. Mas não era necessariamente porque a obra era ruim, nem nada nesse sentido. Pelo contrário: o que se viu ali foram minutos de reflexões densas que despertaram na plateia uma sensação perturbadora acerca da catequização promovida por evangélicos que não respeitam o diferente, tampouco a cultura dos povos indígenas.

Bem, o que é preciso salientar neste texto é o seguinte: a largada do tão esperado FICA foi dada. Outro ponto de suma importância foi uma intervenção artística de uma poetisa de rua. Estava tranquilamente bebendo minha cerveja após findar minhas atividades diárias quando fui surpreendido. Ela perguntou se era sossegado declamar “umas poesias” para a gente. “Vocês podem escolher se querem existencial, erótica ou romântica”, disse, olhando para nós como se esperasse ansiosamente um sinal de aprovação com a cabeça. Então, disparou sua metralhadora verbal em direção as hipocrisias deste mundo. E depois embelezou o amor, seja ele de que forma for.

Mesas

As mesas dos bares também estavam com bastante gente saboreando uma cerveja. Acostumada com a calmaria interiorana, os donos dos estabelecimentos nesta época do ano sabem que está fora de cogitação fechar mais cedo. O público que frequenta o FICA é ávido por uma boa celebração ao fim do expediente. Além disso, não há menor graça em trabalhar e ir se enfiar num hotel após a conclusão das obrigações. O que vale é sentar em cadeiras de plástico e discutir assuntos de grande complexidade para a sociedade. Pode parecer discurso intelectual de quinta categoria, mas é muito simples: a vibe do FICA é essa. Simples.

Em contrapartida, por ser terça-feira, o público estava um pouco em marcha ré. Ora, ontem foi o primeiro dia de festival e não houve sequer alguma surpresa por conta da baixa empolgação. Certamente todo mundo – incluindo este escriba – esteja se resguardando para a folia que ainda está por vir. Aliás, torçamos para que a cidade fique movimentadíssima, com gente se amando, se curtindo e se apaixonando nas calçadas e ruas que remetem ao século XVIII. Apesar de haver poucos turistas, pois eles são responsáveis por lotar a cidade, terça-feira à noite em Goiás Velho era um bom lugar para se estar.

Enquanto isso, só para efeito de comparação, os moradores das regiões periféricas da Cidade de Goiás estavam provavelmente sem curtir a festa destinada aos turistas e jornalistas. É verdade que o festival conta com divulgação deficitária, bem como todos sabem o caráter excludente do evento. Embora tais discrepâncias ocorram, o FICA vem cumprindo aquilo que seus organizadores se dispuseram fazer há 20 anos. Agora, não lhes restam outra saída a não ser dar conta do recado.

Como, é difícil saber. Mas que é preciso, é.

#cultura #FICA #crônicas

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