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  • Júlia Lee

Revolução pela conexão


O cerrado é desmatado diariamente no estado do agronegócio. Rios secam, ou se transformam em sangue por ‘acidente’, os alimentos se tornam cada dia mais tóxicos, as cidades só aumentam a quantidade de lixo produzido e os residentes do estado de Goiás não tendem a se importar com a luta pelo meio ambiente. Afinal, existe sustentabilidade no estado do BBB (bala, boi e bíblia)?

Um espaço de terra onde o próprio bioma é por natureza resistente as condições da vida, com seus ipês amarelos que florescem somente nos piores dias do período de seca. O berço das águas doces do mundo e onde os humanos fazem questão de contaminar os vulneráveis lençóis freáticos com seus venenos químicos. Estado coronelista, que ignora e engaveta as ilegalidades ambientais em função da estabilidade econômica gerada pelo próprio desmatamento. Quiçá por todas essas coincidências que o Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA) acontece na histórica cidade de Goiás, que foi a primeira capital do estado.

Há 20 anos a produção do festival traz oficinas, debates, mesas, filmes e oportunidades para aumentar a conscientização ambiental de quem tem a possibilidade de participar desse grande evento. Uma pena que moradores da periferia mal sabem quando o evento acontece – por falta de divulgação dentro da própria cidade, apesar da impecável divulgação nacional, sem contar na sujeira que os turistas fazem no centro histórico, sujeira tanta que a prefeitura criou o projeto FICA Limpo para manter a aparência limpa. O que no fim do dia é somente uma grande ilusão de ótica, já que o resto da cidade fica a deus dará.

Bem, pelo menos o lema da vigésima edição do FICA é claro e direto: “O meio ambiente visto com arte”, e de fato, estamos no quarto dia de festival e o conteúdo escolhido pela curadoria só continua a surpreender. O pulo do gato é saber que a arte é uma ferramenta maravilhosa para levar estalos de consciência, é um momento e a lembrança do amor, assim como a descrição do curta ‘Octubre outra vez’, dirigido pela mexicana Sofia Auza.

Sofia Auza, reprodução.

“A prática mais importante na luta pelo meio ambiente é saber que tudo está conectado, e que não conseguimos lutar por uma comunidade mais justa e sustentável sozinhos, vivemos numa sociedade e isso inclui a própria Terra”, conta Sofia.

A genialidade do cinema é conectar uma mensagem com o sentir do outro. Afinal, se queremos mudanças precisamos de conexão. Sofia apresentou seu curta na mostra competitiva, a sala de cinema encontrava-se lotada, inclusive de crianças, e seu filme, com cores em tons pastéis e fotografia metafórica conseguiu levar poesia, militância e risadas numa plena tarde de terça feira para a plateia. A história conta com um roteiro que compara os amores entre casais com o amor pela luta de um mundo melhor, às vezes o amor é a única forma de aproximarmos uns dos outros para escutar o grito de socorro que o planeta solta todos os dias.

Assim como mostra o documentário italiano Coros do Anoitecer, que grava em 3D sons da floresta Amazônica na linha do equador, até as seivas das mais fortes árvores começaram a vibrar diferente depois do desmatamento desenfreado do século XXI. Se não por amor, como lutaremos contra as hipocrisias cruéis da realidade?