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  • Sara Macêdo

Ni santa ni pecadora nos queremos vivas!


Existe uma dicotomia errada em menosprezar a luta feminista brasileira em relação à insurgência Argentina, cada país passa por diferentes relações históricas da construção da luta organizada, especialmente na América Latina, onde em 76% do nosso território temos a presença amarga do aborto clandestino (de 6,4 milhões de abortos realizados no sul da América, 76,4% foram considerados inseguros). A prática do aborto na Argentina foi tipificada penalmente no ano de 1921 e vigora até os dias de hoje, trata-se exatamente de uma luta de 97 anos, e suas fundadoras exemplificam a importância do debate incessante com a sociedade, que teve consequências exponenciais, pois no período de apenas 24 horas do dia 13 de junho de 2018, 1 milhão de pessoas estavam nas ruas, com o laço verde na mão representando o apartidarismo.

Com 11 escolas ocupadas e o movimento estudantil também mobilizado, o recado dado atinge proporções grandes na terceira maior aglomeração urbana da América Latina, na capital e maior cidade da Argentina, Buenos Aires. Obviamente houveram protestos contrários à legalização, evidenciando nosso marco colonizador cristão, que é um dos grandes responsáveis por políticas de submissão da mulher, e essas vozes somavam a marca de 300 manifestantes, contra um total de 1 milhão. No Congresso, a disputa obviamente não reverbera as ruas, e durante 22 horas a disputa foi voto a voto num espaço com maioria de homens brancos e ricos, enquanto a vigília prosseguia nas ruas, uma prática forte e interessante do movimento feminista, herança também do Movimento de Mulheres da Plaza de Mayo. Com certeza o sim final para a legalização na Câmara de Deputados foi mais acalentador que qualquer Copa do Mundo.

Educação sexual para escolher, contracepção para prevenir, e aborto seguro para não morrer, são essas as palavras que definem essa lei que pode definir novos rumos para a política que explora corpos de mulheres na América Latina, pois trouxeram a pauta urgente do aborto ligada não só a agenda feminista, mas também no estabelecimento como pauta pública (houve uma Campanha Nacional pelo direito ao aborto na Argentina). É um processo de expressão irreversível pois age como um fogo vivo de alquimista, que só morre quando queima mais, afinal Macri, um presidente católico e conversador não pode tampar o barulho das ruas. A próxima parada é o Senado, e seu líder já apontou que irá aprovar o projeto, num momento em que o país vive uma grande crise com o FMI.

A América Latina sempre agiu com espírito guiado unânime, na Colômbia, a política que dispõe sobre o aborto funciona nos mesmos moldes a do Brasil, com um processo tão demorado e conservador, excluídos somente desse panorama desumano, Cuba, Porto Rico, Uruguai e Guiana. Venezuela também não segue diferente do Brasil, e na República Dominicana uma mulher pode acabar presa em qualquer modalidade de aborto, que segue na resistência diária dos movimentos feministas, e que pode ter seu leme mudado com a legalização conquistada pelas hermanas argentinas. 85% da sociedade brasileira já concorda que a prática do aborto deve permanecer como decisão da mulher, só falta que um pavio com sangue da terra brasilis seja aceso.

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