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  • Rosângela Aguiar

Uma entrevista jornalística ou uma aula de mansplaning e manterrupting?


OPINIÃO

Foto: Reprodução

O título acima tem o propósito trazer à reflexão sobre a entrevista do programa Roda Viva da TV Cultura nesta segunda-feira, dia 25 de junho. A entrevistada era uma mulher, pré-candidata à presidência da República por um partido de esquerda. Todos estes elementos transformaram o que deveria ser uma entrevista jornalística com a deputada estadual pelo PC do B do Rio Grande do Sul, Manuela D´Avila, em uma aula de machismo e de um péssimo jornalismo. Na bancada dos entrevistadores, quatro homens e duas mulheres, sendo um deles assessor na campanha de outro pré-candidato, um erro quando se pretende fazer um bom jornalismo. Nenhum dos entrevistadores deixou Manuela D´Avila completar o raciocínio e as frases. E o que deveria ser um momento para os telespectadores conhecerem a pré-candidata do PC do B se transformou em uma aula de manterrupting, nome em inglês para esse tipo de interrupção frequente na fala da mulher e e de mansplaning, manifestações claras de machismo.

O objetivo da entrevista jornalística é obter informação para difundi-la num meio de comunicação, no caso a TV Cultura, uma emissora estatal cujo programa em questão, Roda Viva, já foi bastante respeitado e conceituado. Deveria ser um momento para informar o público com perguntas e respostas. E o que foi veiculado foi um espetáculo grotesco onde o jornalismo foi jogado no lixo e as pessoas desligaram a televisão tão desinformadas quanto no início do programa a respeito das propostas e de quem é Manuela D´Avila, pré-candidata à presidência do país, apesar de que ela demonstrou objetividade, com equilíbrio emocional e clareza nas poucas vezes que conseguiu responder plenamente uma pergunta.

No comando da bancada de entrevistadores o jornalista Ricardo Lessa protagonizou a destruição da credibilidade do programa Roda Viva. Mas ele não estava sozinho. Os jornalistas Vera Magalhães (Estadão/Jovem Pan), Letícia Casado (Folha de São Paulo), João Gabriel de Lima (Revista Exame) e dois outros que não são jornalistas, Joel Pinheiro da Fonseca (economista e colunista da Folha de São Paulo) e Frederico d´Avila, diretor da Sociedade Rural Brasileira e assessor na campanha de Jair Bolsonaro, pré-candidato à presidência. Todos, sem excessão, transformaram o programa em uma aula de manterrupting e mansplaning.

Em vídeo que está circulando nas redes sociais, a professora Marlise Mattos, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher, da UFMG, explica que a "entrevista" com Manuela D´Avila no Roda Viva foi uma clara demonstração do que ela chama de violência política sexista. "É uma forma de violência baseada no gênero com vista à manutenção dos privilégios masculinos neste campo político, que infelizmente está presente e tem sido recorrente no Brasil", afirma a professora que é referência em pesquisa sobre a participação da mulher na política brasileira.

Segundo a professora, a "entrevista" trouxe vários exemplos elucidativos e variados do que ela chama de violência política sexista. "Desde fenômenos como interrompê-la inúmeras vezes para explicar o que ela acabou de explicar e que a literatura feminista internacional já consagrou e já nomeou (mansplaining); interrompê-la sucessivas vezes, tentativa de manipulá-la psicológicamente e emocionalmente para que ela desestabilizasse. E são fenônemos corriqueiros e comuns", explica no vídeo a professora Marlise Mattos.

Outra constatação desta violência contra Manuela foi a tentativa de descontrução da pessoa, os ataques pessoais, as colocações machistas e nenhuma pergunta esclarecedora. Chegou ao ponto do assessor do Bolsonaro, Frederico d´Avila perguntar se ela era a favor da castração química para estupradores e Manuela responder mais de uma vez e repetir a mesma frase e dizer que é preciso acabar com a cultura do estupro que existente no país. "Sabe como a gente diminui o estupro? Não votando em candidato que defende que a mulher seja estuprada", disse a pré-candidata, deixando claro seu posicionamento quanto à questão. No entanto, o assessor de Bolsonaro continuou a repetir a pergunta e tanto ele quanto os demais, inclusive as mulheres presentes, fizeram chacota e riram quando ela falou da cultura do estupro.

Em um dado momento o mediador Ricardo Lessa perguntou em tom de provocação: "É machista elogiar sua beleza quando estamos discutindo política?”. Uma pergunta desnecessária e que teve a clara intenção de desestabilizar a pré-candidata. Uma pergunta de quem não sabe o que perguntar, de quem desconhece fatos, não leu nada sobre o entrevistado. E isto não foi somente o mediador. Todos os entrevistadores fizeram perguntas explicativas e sem sentido, que fugiam do real interesse de mostrar ao público que em é Manuela D´Avila. Vimos o nível do jornalismo cair num abismo obscuro.

Apesar da não-entrevista, a pré-candidata saiu gigante ao demonstrar coerência e equilíbrio emocional durante uma hora de ataques. Já a TV Cultura e o programa Roda Viva saíram com a imagem comprometida. E o que o telespectador poderá esperar dos debates e entrevistas políticas até outubro quando os profissionais jornalistas ali presentes (não falo dos que não são jornalistas) não conseguem ser éticos e ter o mínimo de isenção ao fazer perguntas? Como esperar conseguir informações sobre pré-candidatos, candidatos e suas propostas para o país se nem mesmo os jornalistas ali presentes se preocuparam em elaborar perguntas coerentes, com base na verdade e realidade e não em fake news.

Terá o jornalismo, em especial o da TV Cultura, sofrido um apagão? Se foi, torcemos para que seja temporário, caso contrário, é a própria ruína da profissão já tão combalida.

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