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  • Marcus Vinícius Beck

Assédio na UFG


Abuso

Professor titular foi demitido após denúncias de estudantes. Ex-servidor, todavia, irá recorrer da decisão

Os abusos teriam acontecido durante o ano passado de 2016. Neste ano, a instituição já havia anunciado desligamento de outro professor. Foto: Reprodução

A Universidade Federal de Goiás (UFG) demitiu nesta semana por meio da portaria n° 3.729 o professor de Ciências Agrárias Rogério Elias Rabelo por supostamente ter assediado sua orientanda durante congresso em Goiânia. Um dos abusos aconteceu no ano de 2016, mas uma das vítima teve coragem de denunciar o ex-servidor apenas em agosto do ano passado. Após o episódio vir à tona, o docente chegou a ser afastado temporariamente da instituição e não conseguiu mais retornar à sala de aula. O advogado de defesa, por sua vez, afirmou que irá recorrer da decisão e salientou que Rogério é inocente das acusações.

No mês passado, a UFG já havia anunciado a demissão do professor Américo José dos Santos Reis depois de alunas o acusarem de ter praticado assédio sexual. Assinada pela vice-reitora da instituição Sadramara Matias Chaves, a portaria que oficializou o desligamento de Américo também chegou a ser publicada no Diário Oficial da União. Segundo dados da Coordenação de Processos Administrativos (CDPA), as primeiras acusações contra o professor foram feitas no final de 2012. Em março do ano seguinte, foi aberto uma sindicância que culminou em um Processo Administrativo Disciplinar para investigar o caso.

Integrante da frente autônoma feminista, a advogada Sara Macedo disse que a demissão do professor é fruto de uma luta que vem acontecendo desde o ano passado. De acordo com ela, a violência institucional e de gênero possui respaldo no próprio meio das universidades. “O machismo e o patriarcado são estruturais e estão em todos os espaços”, afirma. Ela destacou também que Rogério foi o segundo docente das Ciências Agrárias a ser demitido por conta de suposto assédio sexual. “Foram contabilizadas 20 denúncias, mas podem ter outras que ficaram com medo de revelar práticas de assédio. É preciso deixar a universidade limpa desse tipo de conduta”, ratifica.

A estudante universitária L.B, 23, relatou no grupo da universidade outro caso de assédio. Ao andar pelo corredor entre a Faculdade de Comunicação e Informação (FIC) e Faculdade de Ciências Sociais (FCS), ela disse que “uma enxurrada de assobios” foram destinadas a si e uma amiga. De acordo com ela, o sentimento que lhe tomou foi de violação e temor com o que poderia acontecer com as duas. “Eu me senti completamente violada e assediada”, diz. Embora demonstrasse descontentamento com a postura dos homens, ela revelou que não pararam de assediá-la. “O que eu quero é respeito. Não quero que outras meninas passem por essa situação”.

Em função disso, o estudante universitário K.T, 21, rebateu o desabafo e criticou a postura da assediada. Para ele, o ato de escrever um texto em rede social não irá mudar praticamente nada em relação à prática de machismo. “O comportamento desses caras não vai mudar se vocês criarem uma ilha para eles, para onde todos possam atirar comentários e comentários a respeito do comportamento abusivo deles”, afirma. Ele ainda sugeriu que as duas mulheres deveriam ir conversar com assediadores para solucionar o impasse. “Há uns dias eu e minha amiga passamos por algo muito ruim aqui e que não gostaríamos que se repetisse mais”, argumenta.

Pesquisa

Em dezembro do ano passado, o Datafolha mostrou em levantamento que um terço das mulheres (29%) disse ter sido assediada na rua e um quinto (22%) no transporte público. Já no local de trabalho 15% relataram sofrer assédio e 10% na escola ou faculdade. Além das mais novas, quem sente mais o problema são as mais escolarizadas e as que têm maior renda familiar. O estudo mostrou ainda que houve aumento nos relatos de assédio conforme o tamanho da cidade. Nos municípios com até 30 mil habitantes, 30% disseram ter sido vítimas nos que têm mais de 500 mil moradores a taxa sobe para 57%.

O Código Penal só considera crime o assédio sexual quando há uma relação hierárquica entre as partes envolvidas. A cantada na rua, por exemplo, é considerada uma contravenção penal e pode gerar multa. Atualmente, dois projetos de lei que tramitam no Congresso pretendem preencher essa lacuna. Os textos propõem no mínimo dois anos de prisão para quem constranger, molestar ou importunar sexualmente alguém, ainda que não tenha qualquer tipo de contato físico. Aprovados em outro, os textos são de autoria do deputado federal Humberto Costa (PT-PE) e Marta Suplicy (MDB-SP).

A socióloga Uianã Cruvinel Borges explicou que o processo colonizador é um dos grandes definidores dos papéis de gênero que se perpetuam até hoje. De acordo com a estudiosa, a dominação da mulher pelo homem no Brasil se consolidou nesse momento histórico. “Dominação essa que se perpetuou em nossa história, tomou novos contornos e assumiu novas formas, inclusive a de misoginia. Um exemplo claro de misoginia contemporâneo foi o desenho traçado da presidenta Dilma Rousseff. Sua imagem foi completamente deturpada e moldada pela misoginia. Pode-se mesmo afirmar que o golpe sofrido foi misógino”, diz.

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