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  • Marcus Vinícius Beck e Júlia Lee

“O Brasil se mostra um país reacionário, racista e contra seus próprios povos”, afirma Guajajara


Eleições 2018

Candidata à vice diz que ruralistas tentam pôr na cabeça da população falácias de que o agronegócio é responsável por combater a fome

Sônia Guajajara e Rogério de Cunha, diretor do MTST em Goiás, na coletiva de imprensa. Foto: Júlia Lee

Com atenção voltada a ativistas do Mídia Ninja, a candidata a vice-presidência Sônia Guajajara (PSOL), 44, declarou nesta semana em visita a Goiânia que “é simbólico estar na capital” para divulgar projetos voltados ao meio ambiente do seu plano de governo. Em coletiva de imprensa realizada na sede do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ela lembrou que durante toda a história da República nunca houve indígena concorrendo ao Palácio do Planalto. “O Brasil se mostra um país reacionário, racista e contra seus próprios povos”, diz, arrancando aplausos dos militantes presentes.

Guajajara criticou o fomento ao agronegócio e lembrou que os donos do poder semeiam mentiras sobre a atividade. “Historicamente, os donos do poder tentam colocar na cabeça da população que o agronegócio é responsável por gerar emprego no campo e produzir alimentos para as pessoas, mas na verdade ele as envenena e as mata”, critica a candidata à vice, que integra a chapa do presidenciável Guilherme Boulos (PSOL). “O Estado não pode continuar a terceirizar suas responsabilidades”, afirma ela.

A candidata reforçou ainda a importância de se governar com a população ao lado. “Se estamos com o povo ao nosso lado, não podemos aprovar medidas que os poderosos querem”, pontua. Na conversa com os poucos jornalistas que estavam na coletiva, Guajajara disse que não “podemos permitir tantas pessoas sem ter onde morar, enquanto juízes aprovam aumento de seus próprios salários e receber auxílio moradia e outras regalias. Além disso, não iremos permitir que se tenha educação de péssima qualidade”.

Desafeta da iniciativa anunciada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Guajajara frisou que é necessário fazer um contraponto ao modelo econômico vigente, que seria o responsável pela destruição do meio ambiente. Ela destacou que os projetos vêm passando por cima das comunidades locais e, muitas vezes, os nativos sequer chegam a ser ouvidos por quem ocupa os postos no Poder Executivo ou Legislativo. Segundo ela, é fundamental começar a pensar em meios alternativos para a produção de energia elétrica.

“Temos de nos espelhar nos lugares que produzem energia solar. São iniciativas que fazem com que o homem do campo fique no campo, pois atualmente o mandamos para a cidade sem nenhum preparo e o deixamos à margem”, lamenta a candidata. Para ela, a evolução do ser humano deve vir em primeiro plano, ou seja, é preciso deixar de lado o apelo às grandes empresas que submeteriam os trabalhadores a situações injustas. “Hoje, o que vemos são os interesses do capital”, completa.

Candidatos ao governo

Também estavam presentes na entrevista coletiva os candidatos ao Palácio Pedro Ludovico Marcelo Lira (PCB) e Weslei Garcia (PSOL), candidatos ao senado Fabrício Rosa (Psol) e Magda Maria (PCB), além de o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), Rogério de Cunha. Cerca de 30 pessoas, entre jornalistas e mídia ativistas, foram prestigiar o evento. A coletiva durou em torno de 40 minutos. Sônia Guajajara, a mais guardada para conversar com os poucos profissionais da imprensa que estavam ali, falou rapidamente com os repórteres.

O comunista Marcelo Lira comentou que, após o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, tornou-se necessário unir a esquerda. “É fundamental no contexto pós-golpe”, diz ele. Já o candidato pelo PSOL Weslei Garcia reforçou a importância de fazer alianças com os movimentos sociais, “a aliança com os movimentos sociais, com o povo, com a classe trabalhadora, é indispensável”, afirma.

Processo de colonização aculturou índios

No Brasil, o processo de colonização exterminou e aculturou várias etnias indígenas, fazendo com que muitos deles passassem a usar nomes de origem não indígena. Em Goiás, os bandeirantes foram responsáveis por dizimar vários índios durante a ocupação da região oeste do Brasil. Para efeito de comparação, quando Sônia Guajajara nasceu, em 1974, o Estatuto do Índio e a Lei de Registros estavam em vigor havia poucos meses – as duas legislações são de dezembro de 1973.

O estatuto estabeleceu que os nascimentos fossem “registrados de acordo com a legislação comum, atendidas as peculiaridades de sua condição quanto à qualificação do nome, prenome e filiação”. Todavia, a Lei de Registros pregava que índios não integrados à sociedade não tinham a obrigação a fazer o registro de nascimento em cartório, já que tal trâmite poderia ser realizado em livro próprio do órgão federal de assistência aos índios.

Como determinou a Constituição Cidadã, em 1988, o fim da tutela deu maior autonomia aos indígenas. A partir daí, passou a prevalecer a autodeterminação dos povos e a auto declaração por parte de indivíduos e grupos.

Contudo, o problema do registro não se revolvia na prática. Desta forma, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) resolveu adotar, em 2012, uma resolução conjunta “considerando a necessidade de se regulamentar em âmbito nacional o assento de nascimento dos indígenas nos Serviços de Registro Profissional das Pessoas Naturais”.

Em agosto, Guajajara disse que o general Mourão, vice na chapa do presidenciável de extrema-direta Jair Bolsonaro (PSL), foi oportunista ao se declarar para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como indígena. No início daquele mês, Mourão provocou polêmica ao dizer que o brasileiro herdou “a intolerância dos indígenas e a malandragem dos africanos”. “Ele cometeu uma ofensa e um racismo muito grande, talvez seja uma forma de querer reparar. Ele ofendeu negros e indígenas e logo depois se assume índio?", disse ela, na ocasião.

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