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  • Marcus Vinícius Beck

Rádio libertária: uma experiência revolucionária - parte 1


LIVRO REPORTAGEM

Estávamos no meio da redação da Rádio Universitária. Lembro de ter falado algo como “a gente precisa ver quais programas de computador eles usam para pôr a rádio no ar”. E de repente Maia começou a sondar os trâmites burocráticos utilizados pela emissora.

Minhas mãos estavam trêmulas. Ao meu lado, a diretora da rádio UFG discorria sobre a importância de se usar o Ecad. “É lei, se você não colocar as músicas através do Cadena, a gente pode ser processado”, assegurou ela, olhando fixamente para nós. “Entendo... é muito complicado usá-lo?”, especulou Maia. “Não, você vai na pasta e seleciona a música que deseja tocar... há Caetano, Chico, Gil, Tom Zé”, explicou a diretora, mostrando o passo-a-passo na tela do computador.

Eram 16 horas... eu não conseguia falar nada. Apenas prestava atenção no diálogo de Maia com a diretora. O futuro nos reservava momentos prazerosos e

apaixonantes. Não havia mais volta, nem tempo para descansar. Em poucos minutos planejávamos estar com a programação integral da Rádio Universitária em nossas mãos, produzindo programas desvairados, sarcásticos, democráticos e subversivos.

Para isso, tínhamos um manual: Rádios Livres: A revolução agrária do ar, de Arlindo Machado, Caio Magri e Marcelo Massagão. A obra nos deu repertório para pensarmos programas alternativos. Afinal, não há sentido em ocupar um meio de comunicação – que necessita de concessão do Estado - e fazer como a grande mídia: gerar conteúdos burocráticos, horrendos, mal produzidos e recheados do bom e velho mais do mesmo.

Queríamos metáforas e metonímias – ao invés do lead, sub-lead e documentação, injetados em nossas veias nas faculdades de jornalismo. Queríamos passear pelo universo das figuras de linguagem e ironizar as medidas neoliberais de Michel Temer – especificamente a PEC 241, que previa o corte de verbas em educação e saúde por 20 anos.

Como faríamos isso, honestamente, não importava.

Porque éramos um bando de estudantes de Jornalismo, Ciências Sociais, História, Geografia e Filosofia que não temíamos futuras represálias judiciais.

Nossa história e ideias eram reais. Disso eu tinha certeza. E era muitíssimo importante, em minha opinião, mantermos vivo o sentido do que estávamos fazendo. Horas antes, eu e Maia nem sequer cogitávamos a possibilidade de ocupar a UFG – estava fumando um baseado para relaxar os neurônios e ouvindo estudantes falarem sobre a pós-modernidade dos professores e alunos no Campus Samambaia. Graças a isso, encontrava-me no grau quando Maia e Henry propuseram a sondagem da rádio UFG.

Lembro que não levei a ideia muito a sério. Ocupar a rádio de uma universidade federal? Ora, nem estudávamos lá. Não fazia sentido. No pátio entre a Faculdade de História (FH) e Faculdade de Comunicação Biblioteconomia (Facomb), atual Faculdade de Comunicação e Informação (FIC), quando Maia apresentou os prós e contras, eu não disse nada. Apenas a ouvi. Então, eu a fitei e falei: “A gente pode ir lá agora mesmo, inventar uma história e estudar como o inimigo está organizado”, propus.

Por um instante ninguém disse nada, até que Maia se remexeu no chão. “Puta que caralho”, bradou. “Estou excitada, vamos fazer algo histórico, gente”, berrou ela, olhando as horas no visor de seu celular.

De fato, só a possibilidade de não conseguir preencher a programação da emissora me preocupava de verdade. Ser preso, com codinome subversivo que fazia alusão aos rebeldes dos anos de chumbo, por disseminar mensagens libertárias, era apenas osso do ofício – e creio que Maia pensava exatamente assim. E eu sabia que não iria demorar até que fôssemos surpreendidos pelo Poder Judiciário. Era questão de dias – ou, talvez, horas para tudo ruir pelos ares.

Claro. Algum burocrata ficaria seriamente raivoso com um grupo de anarquistas, comunistas - adeptos da filosofia política de Mikhail Bakunin e Karl Marx -que desejavam dar voz a quem não tem. Jornalismo, contudo, não é dar voz a quem não tem por meio de personagens que tenham algo de relevante para contar? É... mas quem disse que o poder econômico se importa com quem tem voz ou não, com o que é relevante ou não? Se a verba publicitária caiu na conta dos meios de comunicação, tudo segue dentro dos conformes – com a manutenção do sistema capitalista.

Santíssimo Jesus, pensei enquanto Maia segurava a mão da diretora da rádio UFG, por quanto tempo duraria essa aventura inconsequente? Uma semana, duas, um mês? Até conseguirmos atrair olhares de Temer e sua trupe?

Sinceramente, eu não sabia – e nem fazia questão de me prender nisso. Nossa energia era forte demais, era grande demais para que uma meia dúzia de engravatados, com discurso confuso, dissessem o que poderíamos fazer ou não.

Maia se reclinou na cadeira, mas percebi certo nervosismo em seus olhos ao tentar esclarecer as coisas à diretora.

“A gente precisa dessas informações para um documentário radiofônico sobre a história da Rádio Universitária, que estamos produzindo”, justificou.

“Vocês estudam em qual universidade?”, indagou a diretora.

“Na PUC”, respondeu Maia, calmamente.

“Quem dá aula de radiojornalismo pra vocês lá?”, perguntou a diretora.

Minha companheira arqueou as sobrancelhas:

“Déborah Cristina”, contou. “Você a conhece?”.

“Sim... ela tem um programa aqui aos sábados”.

“Legal, ela é muito boa professora”, enrolou Maia, encarando-a diretamente nos olhos, esbanjando charme e doçura.

Segurei para não rir e contei os segundos para que saíssemos daquele lugar escabroso. Inexplicavelmente, as vibrações começaram a ficar estranhas. Talvez eu estivesse sentindo que nosso modus operandi se encontrava próximo de ser descoberto. Talvez precisássemos fumar um cigarro para pensar com clareza nas próximas ações.

Ao pôr os pés para fora da rádio, Maia sacramentou:

“Estamos fudidos.”

“Por quê?”, eu quis saber.

Ela me encarou:

“Por causa dos equipamentos. Eu não saco de mexer naquela porra daquela ilha de edição digital”, lamentou.

Balancei a cabeça.

Pensei em meus ídolos: um bando de zoados, como eu. Dei uma olhada de esguelha para Maia. Porra, alguma coisa precisa ser feita, pensei, dando uma longa tragada no Marlboro vermelho, que dividia com ela.

Seguíamos caminhando em direção ao Volkswagem Fusca de Henry. Seus passos eram rápidos. E eu, um fumante invertebrado, cujos pulmões deveriam estar na mais plena merda, sofria para acompanhá-la. Diante de minha incapacidade física, cogitei seriamente a possibilidade de bradar alguma piada cretina que rondava minha mente, mas por sorte acabei desistindo e apenas a acompanhei.

Por que ela andava tão rápido?

Não sei.

Maia parou no meio da calçada. Eu dei um largo sorriso, enquanto sentia gotas de suor escorrerem pela minha testa, manchando minha camiseta. Ela abriu os braços e me esperou vir ao seu encontro. Abraçamo-nos por muito tempo, de corpo inteiro, como dois irmãos, dois aliados, dois amigos, num só corpo.

Insônia... horas depois, no chão da Facomb, em meio a ocupação do prédio, olho meu celular: são três da manhã. Acendo meu último Marlboro Light. Cigarro bom. Ultimamente ando fumando uns troços foda. Como Madrid. Ruim demais. Mas é o que minha grana consegue comprar. Só que não deixa de ser uma merda. Você dá uma tragada, olha para o cigarro e pensa em deixá-lo de lado. Vou à janela. Goiânia está dormindo. Os militantes também. Cogito a possibilidade de soltar um rojão. Evidentemente, desisti dessa ideia, porque não tenho um rojão.

Sinto-me sozinho. E, de certo modo, radiante e feliz. Os revolucionários se amam. Eu poderia, tranquilamente, entrar num carro e rodar por aí, puxar assunto com as putas nas ruas, que são frias e estão à procura do ganha-pão, mas prefiro cantarolar Love me two times, do The Doors.

Love me two times, girl/ I´m goin´away…

O Marlboro acabou, finalmente.

Numa quinta-feira qualquer, dia 27 de outubro de 2016, portanto dois dias antes, pensamos em ocupar a Rádio Universitária. Só que não estudávamos na UFG (Universidade Federal de Goiás), e sim na PUC (Pontifícia Universidade Católica). E o que não faltou foram colegas da PUC - que preferem o comodismo do sofá e a tela do smartphone a colchões maltrapilhos de ocupação - dizerem que não deveríamos termos ingressados no movimento.

Coitados. Eles nunca serão capazes de compreender o que eu, Maia, Henry Miller, Thompson Silva, Carlos Durruti, João Durruti, Cista Rudi, Capitu, Maria Bonita, Alexandre Bogdanov e Luiz da Celg fizemos. Pobres seres desalmados, insensíveis da porra. Para eles, se eu me fodesse não faria diferença alguma. Até dariam risadas. Tenho pena deles, e às vezes raiva. Idiotas contaminados pela obviedade burguesa. Fúteis por dentro, superficiais por fora. Nunca saberão o que é uma autogestão, nem o que é viver onze dias com o tesão e a fadiga nas alturas.

Na volta à UFG, minha companheira afirmou que seria mais fácil ocupar a Tv UFG.

“Televisão é um meio de comunicação de boa de se fazer”, disse ela.

“Jamais... E outra: como a gente ia fazer pra fechar a programação?”, indaguei.

“Simples: colocamos uns filmes revolucionários pra encher espaço na grade”, solucionou ela.

“Legal, mas há outro problema”, falei.

“Qual?”

“A identidade da galera... definitivamente é melhor a rádio”, avaliei.

“Sim, mas como faremos para pôr 24 horas de programação no ar?”, questionou ela. “Precisamos pensar no conteúdo”.

“Verdade, tem alguma ideia?”, perguntei.

“Não... tô pensando no trampo que vai ser editar dez programas”, falou.

“É, montar espelho de programa é um trampo extremamente chato”, ponderei.

“Não é nem isso, editar é foda, cansativo. Precisamos, de alguma forma, ver se há algo mais viável”, afirmou ela.

“Ainda têm as músicas que precisamos escolher pra ser o BG”, lembrei.

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