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O calote na cultura goiana


Artistas goianos convivem com atraso em recebimento de verbas. Quem se apresentou no Fica espera dinheiro até hoje

O artista plástico e compositor Kleuber Divino Garcez, 44, disse que iminência de calote é grande por conta das eleições. Foto: Reprodução via Facebook

“É bem possível que a verba tenha sido desviada, porque o repasse foi feito para a empresa Idesa/ Oscip, uma espécie de Organizações Sociais que terceiriza o evento e que teria sido a responsável por não nos pagar” - Kleuber Divino Garcez, 44, artista visual e compositor

Enredo novo, filme antigo. Essa é a metáfora mais propícia para descrever a situação em que artistas goianos vem sendo expostos nos últimos anos. Para você ter uma ideia, até hoje a classe aguarda o repasse do Fundo de Arte e Cultura (FAC) relativo ao edital deste ano do Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA). O prazo estabelecido para pagar artistas e curadores que participaram do FICA era até 60 dias após o término do evento. Ou seja, já passou 85 dias e a categoria ainda espera receber pelas apresentações no festival cultural carro-chefe da gestão tucana.

Dados do Portal da Transparência confirmam que a Secretaria Estadual de Educação, Cultura e Esporte (Seduce) teria realizado o pagamento à classe dentro do prazo estipulado. O repasse chegou a ser publicado no Diário Oficial do Estado, mas os artistas alegam que ainda não chegaram a receber nenhuma quantia. O que provoca temor neles é a possibilidade de não terem os débitos quitados, já que a dívida herdada pelo próximo governador – que ao que tudo indica será Ronaldo Caiado (DEM), líder as pesquisas de intenções de voto – cairia em um sistema chamado Dívidas a Pagar. Portanto, a iminência de calote é cada vez maior.

“Durante a gestão do Marconi Perillo (PSDB), nunca tivemos calote. Havia atraso no repasse de verbas, mas não chegávamos a ficar sem receber”, relata ao Metamorfose o compositor e artista visual, Kleuber Divino Garcez, 44. Segundo ele, o cenário se tornou mais conturbado em função das eleições, pois o então governador saiu para concorrer ao Senado e deixou em seu lugar o vice, José Eliton (PSDB). “É bem possível que a verba tenha sido desviada, porque o repasse foi feito para a empresa Idesa/ Oscip, uma espécie de Organizações Sociais que terceiriza o evento e que teria sido a responsável por não nos pagar”.

Professora de Cinema da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Geórgia Cynara, 35, argumentou que eventos como o FICA e Canto da Primavera “são vitrines da gestão, ou seja, são vendidos como uma forma de demonstrar que o Estado e Município se preocupam em fomentar a cultura e a arte”. Ela comentou que as autoridades “usam as nossas performances sem terem pago pelo nosso trabalho. Não temos como ‘desapresentar’, mas temos como recusar a subir nos palcos dos eventos promovidos pelo governo, até que eles paguem o que deve”, diz ela, que também é musicista, em uma rede social.

O músico Luiz Porto, 28, afirmou que a classe “está estarrecida” com o atraso no repasse de verba. “Eu já não tenho nem mais ânimo para escrever uma legenda que denote desconforto e descontentamento geral a que estamos”, desabafa ele, em uma rede social. Ele criticou o Sindicato dos Músicos e falou que o órgão é “extremamente incompetente, de mal gosto e inútil”. “É ano político, estamos sem receber não só do Fica. Professores de arte e música já estão sem receber no já tão ameaçado Basileu França”, completou o artista.

A reportagem entrou em contato por e-mail na tarde da última sexta-feira com a Secretaria de Educação, Cultura e Esporte (Seduce), mas até o fechamento desta edição não obteve resposta. No dia 17 deste mês, por outro lado, a Seduce informou que R$ 2,5 milhões previstos no cronograma de pagamentos do Fundo de Arte e Cultura acordados foram liberados. A pasta disse ainda que o restante do reembolso será feito a partir da regularização da documentação por parte dos demais selecionados, porém não comunicou nenhuma data em que isso deve acontecer.

Canto da Primavera

A histórica cidade de Pirenópolis recebeu entre a última quarta-feira (19) e domingo (23) a 19° edição do Canto da Primavera. Divida entre o Cine Pirineus, Igreja do Bonfim e Rua do Lazer, a programação musical contou com nomes conhecidos no cenário nacional, como Zélia Duncan e João Bosco. O encerramento será hoje e ficará por conta da Orquestra Filarmônica de Goiás. Um festival cultural dessas proporções seria motivo para agradar a população e fazê-la cantar e dançar no ritmo de diversos gêneros musicais, mas há pouca coisa para comemorar.

Um músico declarou sob condição de anonimato ao Metamorfose que“elaboraram o edital do Canto da Primavera e derrubaram uma cláusula que dizia que o artista que participou no ano passado não poderia participar neste ano”. A escolha de fato serve para dar uma oxigenada no evento, mas, na prática, parece que isso está bem longe de acontecer e uma pequena panela segue tendo preferências nesses eventos. Os cantores Juraíldes da Cruz e Fernando Perillo, por exemplo, se apresentaram em 2017 e 2018.

Além disso, a chance de calote tira o sono dos artistas e faz com que seja praticamente certo o atraso no repasse para quem tocar no Canto da Primavera neste ano. “Artistas que fazem parte de um grupo em uma rede social, ouviram da boca de um próprio organizador que não tem dinheiro para pagar o Canto da Primavera. Por ele, esse ano o festival nem iria se realizar, porque há grande chance de virar uma bomba. Mas uma bomba que iria atingir diretamente nós, que ficaríamos sem receber”, diz Garcez.

Repasse

Artistas e produtores culturais protestaram na última semana contra a Secretaria Estadual de Educação, Cultura e Esporte (Seduce) para cobrar o repasse de 400 projetos aprovados em 2015, 2016 e 2017. Em tese, o dinheiro deveria sair do Fundo de Arte e Cultura (FAC), mas os recursos seguem sendo repassados de uma maneira que tem provocado o cancelamento de shows, espetáculos teatrais, dentre outras manifestações culturais, conforme artistas relataram ao Metamorfose. Ao todo, o débito chega na casa de R$ 32,1 milhões.

Na última sexta-feira (19), também houve manifestação da classe na Cidade de Goiás, palco do Festival Internacional de Cinema Ambiental (Fica). Os ativistas se organizaram na Praça do Coreto, no Centro Histórico, e protestaram contra 25 projetos aprovados pelo Fundo de Arte e Cultura, em 2017, que não tiveram verba liberada até hoje pelo Estado. “São projetos que englobam toda a comunidade, desde de escolas, ONGS, instrumentos de cultura como o Teatro São Joaquim”, dizem os manifestantes.

“Todo o ano é separado 0,05% da arrecadação do estado para investimento em cultura no ano seguinte. Os editais do fundo abrem em função da verba já prevista para realização dos projetos. Logo esse dinheiro existe! No entanto está sendo negado à população”, completa a nota.

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