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  • Marcus Vinícius Beck e Júlia Lee

O Barão Vermelho resiste ao tempo


Música

Banda segue na estrada levantando a bandeira do bom e velho rock ´n roll. Novo single deve ser anunciado neste mês

Mesmo com a saída de Frejat, a banda carioca Barão Vermelho segue na estrada. Foto: Júlia Lee

1981. “Pouco importa o que essa gente vá falar/ Falem mal/ Eu já tô pra lá de rouco, louco total”. A rebeldia carioca vira nascer um grupo que evitava utilizar caducas metáforas para expressar irreverências comportamentais e políticas. Nas inúmeras noites de rock ´n roll no Circo Voador, reduto de jovens boêmios do Rio de Janeiro, o som bluseiro e revoltado da guitarra de Roberto Frejat chegava aos ouvidos como um furacão impávido e destruidor. Nos vocais, um cara chamado Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido como Cazuza, fazia das palavras sua ferramenta de demolição onde quer que passasse.

Quase 40 anos depois, o Barão Vermelho resiste às tempestades e se reinventa à sombra de um passado repleto de glórias. Ainda que sem as notas contestadoras de Frejat (que anunciou seu desligamento do Barão para se dedicar à carreira solo, em 2017) e a porra-louquice vocálica de Cazuza (morto em 1990, vítima de AIDS), os remanescentes ignoram o baque dos amigos que ficaram pelo caminho e mostram que tem combustível para emplacar várias décadas com a uma energia que pode iluminar uma cidade de um milhão de habitantes.

Talvez a maior prova destas minhas palavras seja o compilado lançado no ano passado, Barão Para Sempre. Composto por clássicos, como Pro dia nascer feliz, Tão longe de tudo e Eu queria ter uma bomba, o trabalho está disponível na plataforma de streaming Spotify e serviu para os fãs se acostumarem com a voz e guitarra de Rodrigo Suricato - assim como aconteceu com o LP Barão Ao Vivo, de 1989, quando Frejat, após a saída de Cazuza, regravou Bete Balanço, Ponto Fraco e Por Que A Gente é Assim com riffs pesados, duas guitarras e linha de baixo que denotava revolta.

Qualquer jornalista musical com um mínimo de conhecimento da trajetória de Mauricio Barros, Guto Goffi, Fernando Magalhães e companhia sabe que as palavras que escrevo podem ser perfeitas inimigas. Bem, voltando ao que de fato interessa, o Barão é um patrimônio do rock nacional e vê-los na estrada é como imaginar o poeta francês Charles Baudelaire nos cafés parisienses. Centenas de pessoas tivessem os melhores momentos de suas vidas eternizados pela trilha sonora baroniana. Não será - nem pode ser - uma pedrinha no meio do caminhos que lhes tirará toda a efervescência conquistada ao longo de uma carreira de 37 anos.

Em um primeiro momento, a saída de Frejat provocou desconfiança aos fãs do grupo. Perfeitamente normal, pois o grupo e o público se habituou a ouvi-lo cantar clássicos como Maior Abandonado, Meus Bons Amigos e Pense e Dance. Mas uma das formas encontradas pelos barões para superar esse receio foi cair na estrada. Ou mais do que isso, porque ainda há energia e química entre eles, mesmo que com novos rostos. Por isso, nada melhor do que saborear uma velha receita com novos ingredientes e, até mesmo, com outro jeito de fazê-la.

Sem lançar um disco inédito desde 2004 e se reunindo a partir de 2007 para shows pontuais, o grupo voltou em definitivo à estrada no ano passado e já fez dezenas de apresentações com o novo vocalista. Daqui por diante, a dinossaurica banda conta com dois integrantes da formação original, sendo o tecladista Maurico Barros e o baterista Guto Goffi. Colegas de escola, o baterista Guto Goffi segue segurando as baquetas e marcando o ritmo, enquanto Maurício Barros dá aquela pitada bluseira característica do bom, velho e essencial Barão Vermelho.

De cara nova

Vocalista da banda carioca Suricato, Rodrigo Suricato assumiu o vocal após a saída de Frejat. Foto: Júlia Lee

2018. “Benzinho, eu ando pirado/ Rodando de bar em bar/ Jogando conversa fora/ Só pra te ver/ Passando, girando/ Me encarando/ Me enchendo de esperança/ Me maltratando a visão/”. Esses são os primeiros versos da música Ponto Fraco, sétima faixa do primeiro LP, lançado em 1982. Já nessa versão o Barão mostra um rock demolidor costurado por uma guitarra e um órgão que não deve nada ao pianista Nicky Hopkins. Agora, na voz de Rodrigo Suricato, o clássico ganhou uma nova roupagem. Na voz do novo frontman é possível ver um gás que Frejat, mais preocupado com as músicas românticos em sua carreira solo, havia perdido nesses últimos anos.

O que me chamou a atenção e me deixou musicalmente embriagado foi a descaralhante versão de Pro dia nascer feliz, do disco Barão Vermelho 2, de 1983. “Nadando contra a corrente só pra exercitar/ Todo músculo que sente/ Me dê de presente o teu bis/ Pro dia nascer feliz. O mundo inteiro acordar e a gente, dormir/ Pro dia nascer feliz”. Assim como em 1985, quando Cazuza disse “que o dia nasça lindo pra todo mundo amanhã, com a rapaziada esperta”, a música mais uma vez foi cantada num momento em que há temerosa chance de a extrema-direita chegar ao poder.

A apresentação do Barão Vermelho no Porão do Rock me reconciliou com a vida. Seu rock ainda me parece puro, sem firulas, tampouco frescuras e mumunhas. Uma torrente de experiência proporcionada por mais de três décadas na estrada, colecionando fracassos e sucessos, em meio à uma inegável padronização de nossa música popular brasileira. O Barão Vermelho maneja as guitarras, baixo, bateria e teclado com estratégia e virulência.

Além disso, o show deles é genialmente performático. Dizem que tempo é inimigo das bandas de rock, mas creio que essa máxima não se aplique a música feita pelo Barão. Tenho certeza de poucas coisas na vida, porém defendo que desse mal o Barão não morre - pelo menos por enquanto.

Entrevista - Maurício Barros:

Tecladista diz que aos 18 anos Cazuza lhe ensinou que tudo era amor. Foto: Júlia Lee

Como é para o Barão tocar pela segunda vez no Porão do Rock?

Ficamos muito honrados. Mostrar para o público de Brasília a nova formação era uma coisa que a gente estava tentando viabilizar há algum tempo e a logística do Brasil, por ser um país continental, nem sempre possibilita isso. Foi uma felicidade poder juntar tudo e ao mesmo agora e estarmos em Brasília tocando no Porão do Rock.

Em 1985, o Barão Vermelho cantou Pro dia nascer feliz no dia em que Tancredo Neves foi eleito presidente. Hoje, a banda toca um dia depois do #EleNão, que levou milhares de pessoas às ruas. Como vocês se sentem vivendo esse momento de novo?

Falei no palco (banda se apresentou na 20° edição do Porão do Rock) que muito novo aprendi a conviver com as diferenças. Cazuza nos apresentou uma nova visão de amor e vivência. Nós entendemos, aos 18, 19 anos, que era tudo amor. Amor é sempre amor. Não importa com quem quer seja. Se você está se doando, está fazendo bem, você está bem. Espero que as pessoas que não tiveram essa oportunidade possam de alguma forma experimentar e aprender com isso.

Então, Cazuza te ensinou bastante sobre liberdade?

Sim. Desde então, passei a ter diversos amigos de outras direções e gêneros. Mais importante do que qualquer coisa é as pessoas serem felizes. Se ela prefere fazer x, que ela faça x. De preferência que x faça com que ela não fique feliz agredindo outra pessoa. Estamos todos juntos.

Vamos voltar a falar sobre o Barão. A banda está em turnê pelo País e pretende lançar um novo trabalho em breve. Como vem sendo esse processo criativo?

Podemos falar de ressurgimento, mas prefiro usar a palavra resistência para explicar esse novo momento do Barão. O fato de o Barão Vermelho tocar em qualquer evento é uma felicidade para a gente. Espero que o pessoal da organização esteja feliz, pois a gente estar no palco e presente é sempre muito importante e estimulante. Sempre que pisamos no palco - nós somos quatro, cinco caras totalmente sem graça - viramos o Barão Vermelho. A gente põe energia ali.

Mauricio, você pode falar um pouco sobre o novo trabalho?

Claro. Estamos gravando um disco novo e agora no final de outubro sai a primeira canção que se chama A solidão te engole vivo. A letra fala praticamente de nossa vida atual. Nós temos tanto amigos, tantos likes, mas às vezes não temos alguém para tomar um chopp ou para perguntar se a gente está bem, ou para a gente dar um abraço. O Barão volta, o Barão está animado, o Barão está vivo e o disco está sendo gravado. A gente está se adaptando, pois como banda dinossaurica que somos, estamos nos adaptando aos novos tempos. Enfim, estamos atento e por isso lançaremos esse single. Na virada do ano, pretendemos lançar outro. Aí no início do ano, sai o disco. Com dez canções inéditas.

Como que é essa resistência em relação ao tempo do Barão?

A gente faz o que gosta. E fazer o que gosta pode parecer uma coisa simples, mas é dificílimo. Não é só porque a gente quer fazer isso. Tenho certeza que todo mundo quer fazer o que gosta e viver do que gosta. Disso não tenho dúvida. Se perguntar a todos os meus amigos, a toda a minha família as respostas serão as mesmas. A alegria nossa é que temos a sorte de poder fazer o que a gente gosta. Tocar com amigos do colégio que estavam conosco quando começamos esse sonho é uma honra, é um orgulho, é uma felicidade, é uma alegria.

Se tocar com os amigos antigos é bom, qual é a sensação de tocar com novos?

É rejuvenescedor.

O que você pensa sobre o candidato à presidência Jair Bolsonaro?

Eu como cidadão brasileiro, pai de duas filhas, estava com elas na passeata #EleNão, no Rio de Janeiro. E, se não consegui deixar claro, reforço: Mauricio Barros é #EleNão, #EleNemPensar, #EleNunca.

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