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  • André Luiz Pacheco da Silva

Não há título se todos perdem


Eu que não sou natural do Cerrado, deparei-me com a oportunidade de estudar um pouco a História Social de "Goyaz" e de "Goiás" também - destaco a divisão cronológica. Essa superficial leitura foi suficiente para despertar em mim algumas inquietações. Não tenho a pretensão alguma de fazer as vezes de professor, mas gostaria de aproveitar o mês de outubro e suas datas importantes para abordar elementos que chamaram bastante atenção deste amazônida que a ti escreve. Sigamos, pois.

Os Goyá foram os primeiros indígenas encontrados por uma expedição feita no que hoje é território do estado de Goiás, durante o século XVII, capitaneada pelo bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva (acompanhado por seu herdeiro Bartolomeu Bueno da Silva Filho homenageado na figura do "Bandeirante"¹, na Praça Atílio Correia Lima, em pleno cruzamento da avenida Goiás com a avenida Araguaia). Estima-se que em menos de um século após esse marco, os Goyá (ou Goyazes) já haviam desaparecido. Sim, desaparecido. Embora seja uma estimativa, fato é que até o final do século seguinte, já não se tinha notícias da etnia na região. Não tive acesso a muitos dados das contingências desse desaparecimento, mas, excluindo as hipóteses de confrontos com outras etnias e miscigenação com negros e europeus, a lógica (assim como a História) induz a pensar em morte, seja por extermínio ou doença e fuga. Podes pensar que isso não é nenhuma novidade quando se trata do destino final dos primeiros donos dessas terras outrora férteis e verdejantes - o que não deixa de ser verdade -, mas, às vezes, ter contato com uma informação repetidamente parece causar uma dessensibilização. Minha intenção é lançar um lampejo de humanidade. Para isso, vamos a uma rápida narrativa.

"Um certo dia, tu estás na sala da sua casa, teus pais na cozinha, teus avós no quarto, descansando. Surge na porta um agente público, falando uma porção de coisas que tu não entendes e vai embora. No outro dia, ele volta acompanhado por mais pessoas. Na outra semana, ele entra na tua casa e toma um dos quartos para si e para alguns que o acompanham. Depois de um mês, ele simplesmente obriga tua família a atender aos interesses dele e de um tal “impera-dor”, avisando que se não o fizerem haverá consequências. E assim se seguem os dias, até que um dia ele vai embora.

Aliviado, tu vais passear no parque. Na volta, um ônibus está parado em frente a tua casa e dele descem mais pessoas que tu nunca viste e parecem ser estrangeiras também, mas não da mesma origem que o invasor - estão todas uniformizadas. Tu entras em casa e encontra o invasor, ele havia retornado no mesmo ônibus. Agora ele força todos (a ti, tua família, os estrangeiros uniformizados) a trabalhar para ele, coisa que tu só entendeste porque viu alguém apanhar por não ter decifrado a mímica que ele fez - já que ninguém entende a língua que ele fala. A profecia do Apocalipse parece fazer sentido - será?

O inferno se presentifica no teu lar, que antes era tua fortaleza. 'Ó, Deus, por que logo eu?' , tu ias te perguntar. Sim, ia. Mas mataram teu avô naquele momento. Sim, mataram teu avô. No entanto, tu não tens tempo para pensar sobre isso, porque estão estuprando a tua mãe, enquanto tu ouves os gritos de outra mulher (estrangeira) que parece chorar alguém cuja vida se esvaiu após sofrer linchamento. Desesperado, tu tentas correr para fora. É então que te espancam e te dão um trabalho para fazer. Aí descobres que os estrangeiros uniformizados vieram sem vontade para a tua casa, tu percebeste isso pelo comportamento rebelde deles. Comportamento que dura pouco, porque logo morrem. Aliás, morrer na tua casa é tão frequente quanto tua vontade de chorar. Teu pai também não vive mais, foi-se por conta de uma doença que nenhum remédio que havia em tua residência foi capaz de curar.

Planos de retomada da soberania do teu lar surgem na tua cabeça, tu tentas pensar em algo com a tua mãe - a única que restou da tua família e que agora não passa de mero recurso sexual para os invasores partidários daquele primeiro. Tu te sentes esperançoso, cheio de si, delira com a redenção; não sabes como nem por que motivo, mas ainda tens vontade de viver. Na manhã seguinte, o plano será posto em prática. Não vai. Tua mãe morreu. Morreu porque se recusou a dar prazer para o último algoz da fila. Sem chão, sem nada, surge um pensamento meio perverso em seu mistério: 'mãe, era o último...'.

Na tarde seguinte, tu sais de casa a passos curtos e sem expressão, afinal nada mais importa. Alguém grita, querendo tua atenção. Que atenção? Pra que atenção? Tu segues mesmo sem reconhecer o solo que pisa. Chega até a esquina e toma a outra rua. Encontra aquele invasor primeiro, ele saca a arma e sem falar nada dá dois tiros em teu peito - então ele emite alguns sons que tu até nesse derradeiro momento não entendeste o que significam.

Teus olhos são tristes. Tua boca é feliz.

Tudo vai acabar. Tu acreditas em Deus novamente."

Podes pensar que isso tudo é um verdadeiro horror e que a necessidade de ler tais palavras é questionável. Pois é. Dizimar um povo, forçar os seus remanescentes à fuga no período de um século, um sopro para a História, é mesmo perturbador. Pois te convido a imaginar as consequências psicológicas dos eventos que compuseram esse triste destino para quem viveu o horror. Empatia é isso, pôr-se no lugar do outro.

E por falar em empatia, outra pertinência a se destacar, considerando os episódios recentes de feminicídio em Goiânia, em Goiás e no Brasil, é o caso particular da "tua mãe" - refiro-me à personagem do texto - que, infelizmente, não é tão ficcional assim. Estupro, agressão, violência contra a mulher em geral sempre esteve presente na realidade deste país (e deste mundo). Esse ponto, inclusive, dependendo da lente com a qual se lê o texto, talvez seja o de maior relevância da narrativa, ainda que apareça de forma secundária - maneira esta como a mulher costuma aparecer em nossa sociedade...

Em tempos de crise social e política, de ascensão de discursos calcados no ódio, no desprezo aos valores democráticos e da negação da diversidade, é sempre um bom passo recorrer à História a fim de analisá-la crítica e honestamente. Em tempos outrora temerários e atualmente trevosos em potencial, é indiscutível a importância de se construir conhecimento e não apenas colecionar informação (falsa). Isso se torna ainda mais oportuno quando o assunto diz respeito à tua origem, à tua identidade - como é o caso da História de Goyaz e Goiás, e do Brasil, por que não?

Sejamos todos responsáveis pelas nossas histórias e de nosso povo. Respeitemos os quilombos, as aldeias, as casas alheias. E se no fim das contas, a mão autoritária e destrutiva dos algozes se fizer mais forte, ainda é possível resistir. Assim como até hoje os Goyá resistem na História, dando nome às terras que penetram no tempo com seu sangue, com sua existência.

Aqui é possível parafrasear Mário de Andrade ao dizer que os erros do passado não devem servir de exemplo a ninguém, mas de lição. Amanhã há de ser outro dia, sim, mas não temos tempo de temer a morte. E pra não dizer que não falei das flores: faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há, mas eis que…

¹. sempre achei curioso o fato de que o sujeito representado em monumento no centro da cidade esteja com as nádegas dadas ao Setor Universitário. É ainda cômico quando se descobre que o totem é um presente da USP.

*Foto: Maria Luiza Graner sobre a performance de Geovani Santos "Mídia Humana", que fala sobre a exterminação dos povos originários.

André Luiz Pacheco da Silva é paraense, estudante de psicologia e psicanálise, escritor e editor do blog Tambatajá.

#DitaduraMilitar #opressão #goyá #goyaz #cerrado

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