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  • Maria Luiza Graner

Trigo, margarida e arruda


Deixei para depois o milagre do amor.

Sempre que o amor tentava me escapar pelos bolsos, lapelas e bainhas, eu ria. Ria porque sabia que você chegaria – desde a primeira vez que a gente dançou. Você ainda não tinha nome de flor. E ainda assim, quando você veio, floresci.

E feito um ingazeiro florido, que não sabe da vinda inevitável da fruta – doce e aveludada –, a minha boca se calou quando eu avistei o amor vindo em seus braços: lindo, agitado e criança. E assim, sincopadamente fonético, o amor foi rasgando-me os bolsos, as lapelas, as bainhas. O amor quis fazer festa.

O amor quis soltar foguetes que inevitavelmente sairiam pela minha boca, imperecíveis e dourados. Corajosa, você embalou e adoçou o amor-menino. Sentou-se ao lado do amor para dizer-lhe:

Sentimento meu, a simplicidade é morada do entendimento.

E eu vi (era setembro) a liberdade correndo nas suas raízes.

Você chega brisa e acaba em tempestade, reorganizando, inclusive, certezas que os sujeitos não sabiam que tinham. Paralisando os sentidos. Fazendo crescer tudo que é natural. Beija as vontades que a gente deixa ali, na gaveta de guardar as coisas que a gente não quer encarar, mas não quer jogar fora. E quando você vai embora, caminha até a porta como chega a chuva.

Poderosamente trivial.

Enquanto eu escrevo, o amor está em meu colo, enroscado. Já não mais embolso seu embalsamado corpo. Deixo correr livre o menino, pelos quintais que você me leva para caminhar, quando o tempo é de jardim.

E em silêncio, peço a qualquer santo:

Se o tempo for propício à semeadura, que seja

trigo, margarida e arruda.

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