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  • Metamorfose

Pra se ler num único suspiro


Crítica

Um ano com a cara no ócio, em Paris - ulalá, amigo (a) leitor -, fez do escritor paulistano Reinaldo Moraes um ícone da contracultura oitentista. Mas, ao contrário do que você pode estar pensando aí do outro lado, não foi uma tarefa tão fácil assim. Após assistir a quinta aula sobre planificação econômica soviética, Reinaldo teve convicção de que seguir carreira acadêmica na área de economia não ia dar certo. Corria o ano de 1979 e o governo dos milicos não era cruel como em outrora. Já havia sido aprovada a Lei da Anistia – que livrou do xilindró torturadores e anistiou exilados.

Morto de sono, tomado pelo tédio, Reinaldo foi chamado para uma conversa franca na universidade. Foi-lhe apresentado um novo orientador, mas o cara também curtia literatura e escrevia um romance. Os dois encontraram-se no Le Couple, um mítico café de Montparnasse. Dono de uma barba à lá Karl Marx (1818-1883), o professor contou quais eram seus autores prediletos. Conversaram sobre o escritor Louis-Ferdinand Cèline (1894-1961), autor de Viagem ao fim da noite (1934), obra tida como uma das melhores do século XX pelo jornal Le Monde.

O francês passara ao brasileiro uma lista de leitura para dar andamento ao seu emperrado projeto acadêmico, e, o mais importante, desobrigou-o a frequentar as aulas – e que o procurasse dali três meses -, o que caiu a calhar ao aspirante à escritor. Nesta época, Reinaldo estava sempre viajando pela África ou doidão (passatempo predileto do brazuca na terra do simbolista Charles Baudelaire, como não?). Ao fim do curso, enviou, por Correios, sua monografia sobre urbanismo, tendo concluído os estudos. Ali, passou a dedicar-se integralmente à literatura.

Escrito nas horas vagas, o primeiro romance de Reinaldo passou se chamar Tanto Faz, obtendo críticas favoráveis do cronista Mário Prata, na Revista Veja, em 1981. A primeira edição chegou ao mercado editorial pela coleção Cantadas Literária, da editora Brasiliense, responsável por lançar vários clássicos da geração literária tupiniquim oitentista. Até hoje, Tanto Faz é complicado de se digerir. Em stricto sensu, a temática que permeia o livro gira em torno de sexo, bebedeira, droga, música, literatura, filosofia escrachada e conversas densas de intelectuais sobre samba e poesia.

Bem, creio que não seja necessário dizer que há tanta coisa presente no enredo do livro, mas nada demais acontece. Isso porque os personagens deixam-se levar por uma transa, por uma carreira de cocaína, por um baseado, por uma boa música, por um verso... Reinaldo dá um show narrativo e ensina aos limpinhos, isto é, àqueles que desassociam a vida da arte ao fazer literatura o valor da prosa marginal. Sua linguagem transita entre o coloquial fino e culto, criando uma perfeita consonância morfológica.

O incrível é que o personagem chave dessa zueira literária chama-se Chico, um sociólogo ultra versado em música brasileira e boêmio nato solitário no velho continente. Com ele, Ricardo – o protagonista – vive perambulando pela noite, bebendo vinho barato, filosofando sobre conceitos esquerdistas, acadêmicos e lembrando episódios que rolaram no passado dos dois. O estudioso é uma espécie de guru e mentor ideológico boêmio de toda uma geração de artistas e intelectuais.

Já o segundo romance, Abacaxi, que integra a edição feita pelo selo Má Companhia, foi encomendado pelo editor Ivan Pinheiro Machado, da gaúcha L&PM, em 1986. Ele deu a Reinaldo seis meses para o finalizá-la, mas o escritor torrou o dinheiro, e não escreveu uma linha sequer. Com o tempo curto, Reinaldo, que não é bobo nem nada, refugiou-se em Visconde de Mauá, no Rio de Janeiro, e, junto de sua Olivetti 30, desembocou numa pousada barata, escrevendo entre copos de cerveja e tragos no baseado.

Mas, ao contrário de Tanto Faz, Abacaxi tem uma escrita linear, criando imagens minuto a minuto dos acontecimentos que se sucedem. Percebe-se que a obra foi feita com rapidez e alegria, e esta última sensação fica explícita ao leitor. Depois de Abacaxi, Reinaldo ficou dezessete anos sem publicar, mas não sem escrever. Traduziu Mulheres, do escritor norte-americano Charles Bukowski (1920-1994). Trabalhou como roteirista de telenovelas na rede Manchete e Globo. E aguardou vinte e quatro anos para lançar sua obra-prima, Pornopopéia (2009).

Isso, todavia, é história pra outra resenha.

#cultura #contracultura #literatura #ReinaldoMoraes

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