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  • Marcus Vinícius Beck

Velho safado e sensível


Literatura

Com apelo autobiográfico, o escritor Charles Bukowski previu que internet deixaria o ser humano mais isolado

Na década de 1990, alguns anos antes de morrer, escritor previu que a internet iria tornar o ser humano mais isolado. Foto: Reprodução

Se não tivesse sido acometido pela leucemia, o escritor estadunidense Charles Bukowski (1920-1994) provavelmente iria enxergar a internet com receio. O autor do romance Mulheres (1978) testemunhou apenas o início da rede, mas ainda assim conseguiu escrever o poema this flag not fondly waving. Contista com grande poder de síntese, a obra de Bukowski divide opiniões. Alguns o veem como um cara indecente, outros defendem que ele democratizou o acesso à literatura por meio de sua linguagem coloquial. Mas, na verdade, o velho safado (alcunha que lhe acompanhou durante a vida) abalou as estruturas do sonho americano.

Nascido na Alemanha na década de 1920, o autor é considerado o maior exemplo de um sujeito que vivia envolto entre bebidas baratas e cigarros vagabundos e faz disso sua obra-prima, criando uma literatura genuinamente original. Em grande parte, o sucesso que Bukowski teve derivou desse fracasso. Atualmente, o autor virou um fenômeno entre o público jovem. Se o anjo pornográfico brasileiro Nelson Rodrigues (1912-1980) representa a máxima da vida como ela é, o dirty old man da prosa realista norte-americana no contexto da Grande Depressão (recessão econômica que assolou o Tio-sam na década de 1930) é uma espécie de cronista da fodida classe trabalhadora.

Bukowski é publicado pela editora gaúcha L&PM desde a década de 1980. Os dois primeiros livros saíram em 1983, Crônica de um Louco Amor e Fabulário Geral do Delírio Cotidiano. A obra do velho safado já foi lida por várias gerações e resiste ao tempo. “Nos anos 1980, muito pouco se sabia dele. Eu diria que além de nós da editora, só uma meia dúzia de pessoas tinha ouvido falar em Bukowski. Eu o conheci na Itália, primeiro país em que fez sucesso fora dos Estados Unidos”, explica Ivan Pinheiro Machado, editor da L&PM, em declaração ao Biblioteca Pública do Paraná.

“A irreverência e honestidade de Bukowski são recursos que atraem jovens leitores em todo o mundo. Ao contrário da maioria dos adultos, ele não aprendeu a ser um diplomata polido. Sempre foi um rebelde, e essa é a persona favorita dos jovens”, diz Howard Sounes, autor da biografia Charles Bukowski, Vida e loucuras de um velho safado, publicada no Brasil pela editora Conrad e atualmente fora de catálogo. Bukowski era um rebelde literário, mas também pode ser considerado um intelectual sólido, como pode ser constatado no livro Pedaços de um caderno manchado de vinho (2008), que reúne ensaios sobre arte visuais e literatura.

Ponto de partida

Charles Bukowski despertou para a literatura muito cedo. Com problemas dentro de casa, apanhando diariamente do seu pai, ele começou a teclar para suportar as dores que sentia. Ainda jovem publicara seu trabalho em diversos jornais underground de Los Angeles, chegando a ter uma coluna em Open City, chamada de Notas de um velho safado. Os textos foram compilados no livro homônimo. Marcada consolidada em O amor é um cão dos diabos (1977), os poemas só chegaram quando o escritor tinha 40 anos e, mais ou menos, duas décadas dedicadas à subempregos e à escrita.

Tudo começou a mudar no momento em que Bukowski conheceu o editor John Martin, fã de literatura marginal. Ao ler a prosa do velho safado, Martin teve convicção de que estava diante do novo Walt Whitman (1819-1892), poeta estadunidense autor de Folhas na Relva (1855). O homem iniciou uma amizade com o escritor. Tendo Bukowski como ídolo, Martin resolveu criar uma editora com o objetivo de publicar os trabalhos do amigo. Na ocasião, o autor trabalhava nos Correios (período que fora relatado no primeiro romance Cartas na Rua (1971). Bukowski passou a ter um salário fixo de 100 dólares mensais.

Em Cartas na Rua, o escritor dá o pontapé inicial a uma série de romances que tinham como personagem principal seu alter-ego, Henry Chinaski, personagem célebre que já estava em contos no início da carreira. Com linguagem simples, beirando a oralidade, o autor conquistou fãs no mundo inteiro e, um ano após a publicação do romance, chegou a ser traduzido para 15 país. Até a morte, lançou os clássicos Factótum (1975), Mulheres (1978), Hollywood (1989) e Pulp (1994).

Confira o trecho do poema em que Bukowski anteviu a evolução tecnológica:

Em inglês:

now it’s computers and more computers

and soon everybody will have one,

3-year-olds will have computers

and everybody will know everything

about everybody else

long before they meet them.

nobody will want to meet anybody

else ever again

and everybody will be

a recluse

like I am now.

Tradução:

hoje tudo são computadores e mais computadores

e logo todo mundo terá um,

as crianças de três anos terão computadores

e todo mundo saberá de tudo

sobre todo mundo

muito antes de se conhecerem.

ninguém vai querer encontrar ninguém

nunca mais novamente

e todo mundo será

um recluso

como eu sou agora.

#charlesbukowski #literatura

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