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  • Rosângela Aguiar

Olhares sobre a vida sob diferentes aspectos no Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro


Museu

É uma aula de história, de vida, de fotografia. Não tem como não sair impactado por estas diferentes obras.

Fotos: Gustavo Maciel

Três nacionalidades diferentes. Três perfis diferentes. Três olhares diferentes e em tempos diferentes sobre a vida. Assim se constitui as mostras de fotografia que estão no Instituto Moreira Salles (IMS) no Rio de Janeiro até o início de 2019. Instalado em uma casa com o estilo típico da década de 1950 projetada pelo arquiteto Olavo Redig de Campos e com o paisagismo de Burle Max, o local que foi residência de Walther Moreira Salles instalada na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro, é, por si só, uma excelente opção de passeio nas tardes cariocas. Para quem gosta de arte é um bom programa e a entrada é franca. O primeiro olhar de quem chega ao instituto são os jardins em harmonia com os traços retos típicos da arquitetura da década de 50. Já na entrada se tem a visão da arte pura em seu estado pleno do concreto e natureza.

As fotos espalhadas por espaços diferentes do instituto nos levam a conhecer um pouco da transformação de Mali, no período da independência do país, pelas lentes do fotógrafo autodidata Seydou Keita; a visão crua e chocante dos sanguinários conflitos do período chamado de “Saque de Palermo”, que culminou na guerra da máfia na cidade italiana. Letizia Battaglia faz um registro jornalístico e com uma sensibilidade ímpar daquele período. E ainda podemos apreciar artistas, escritores e intelectuais brasileiros em suas passagens pela França no período entre as décadas de 1970 e 1980 pelas lentes de Alécio de Andrade e ainda ler as cartas trocadas com Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque entre outros.

Um olhar sobre o povo de Mali

Fortes, carregados de simbolismo, de história, os retratos de mulheres, crianças, homens e famílias inteiras em poses significativas para a época, nos leva a refletir sobre a história deste pequeno país da África Ocidental que foi colônia francesa até 1960, quando conquistou a independência. Os retratos de Seydou Keita traduzem o período de transformação do país por meio das expressões, roupas, poses e gostos de quem morava na capital Bamako. Um exemplo é o resgate das roupas coloridas típicas do país e da região que foi deixada de lado em função da colonização francesa.

A história de Seydou Keita é tão interessante quanto suas fotografias tiradas com o seu olhar tão peculiar. Autodidata, Seido Keita começou a fotografar quando ganhou uma câmera Kodak Brownie de um tio e nunca mais parou. Ele trabalha com o pai em uma marcenaria, e aos poucos foi largando este ofício para se dedidcar a arte de retratar seu povo no próprio estúdio. Ele mesmo revelava as fotos, montava os cenários e estabelecia as poses tanto dos clientes oriundos da pequena burguesia maliana do período colonial quanto de camponeses e gente simples que visitam a capital ou moravam nos arredores dos bairros mais nobres. O olhar do fotógrafo traduz a tensão entre o moderno e o tradicional. Entre os tons pastéis da formalidade francesa e o colorido dos tecidos africanos. A delicadeza do olhar de Keita é perceptível nas fotografias em preto e branco e nos olhares e gestos dos modelos. Algo que surpreende. A exposiçãode Seydou Keita pode ser vista no Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro até o dia 27 de janeiro.

Visão crua da realidade

Com tanta delicadeza quanto Keita, a italiana Letizia Battaglia, nos coloca diante de uma realidade que já vimos em filmes como Al Capone e outros sobre a máfia italiana. No entanto, se há uma delicadeza no olhar da fotógrafa em cenas tão chocantes, há também uma crueza da realidade despida e que choca e nos faz lembrar como a disputa do poder ilícito faz tantas vítimas, muitas inocentes.

A história de Letizia passa por freeleance em vários veículos de Milão até ela se mudar para a cidade natal, Palermo e lá documentou os sanguinários conflitos produzidos pela máfia italiana no único jornal que denunciava os horrores e a corrupção daquela época, LÓra. Ao mesmo tempo com um olhar delicado registrou por suas lentes mulheres e crianças nos bairros e ruelas que ainda conservavam as ruínas da Segunda Guerra Mundial em Palermo. É uma viagem no tempo impactante.

A fotógrafa, diante desta realidade, se engajou em lutas, integrou o movimento ambientalista e entrou para a política como deputada regional em Palermo e fundou a revista Mezzocielo, criada exclusivamente por mulheres. Em algumas fotografias, todas em preto e branco vemos um garoto empunhando uma pistola que nos remete às comunidades violentas do Rio de Janeiro e de outros estados brasileiros. Uma triste realidade que se perpetua ao longo das décadas. A exposição pode ser vista no IMS do Rio de Janeiro até o dia 17 de fevereiro.

Cartas a Alécio de Andrade

Carioca nascido em 1938 no Rio de Janeiro, o fotógrafo Alécio de Andrade se mudou para Paris em 1964, início do período do regime militar no Brasil. E por conta da convivência com intelectuais, artistas, escritores brasileiros, passou a fotografá-los na intimidade. Com um olhar lírico registrou momentos únicos de Chico Buarque, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, dentre tantos outros. São momentos únicos.

Na exposição Cartas a Alécio de Andrade além de apreciar estas fotografias pode-se ler as correspondências trocadas entre o fotógrafo que residia em Paris e estes artistas, escritores e intelectuais que estavam no Brasil nos anos de chumbo. Cartas cheias de lirismo, de poesia, que falam da vida de cada um. São retratos de Drummond, Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Vinicius de Moraes, Ferreira Gullar, Oscar Niemeyer, Glauber Rocha, Celso Furtado, Mario Pedrosa e Lygia Clark, entre outros. A maior parte das obras data das décadas de 1970 e 1980. E muitas destas pessoas se corresponderam com Alécio por anos e podem ser lidas na exposição.

Alécio de Andrade, além de se consagrar como fotógrafo, era poeta e pianista. Ganhou vários prêmios, trabalhou em jornais e revistas brasileiras e estrangeiras como Jornal do Brasil, revista Manchete, Newsweek e Elle. A exposição pode ser vista até o dia 24 de março no Instituto Moreira Salles.

Visitar exposições como estas nos fazem enxergar realidades muitas vezes distantes das nossas e nos leva a refletir sobre situações que perpetuam nos dias de hoje. É uma aula de história, de vida, de fotografia. Não tem como não sair impactado por estas diferentes obras.