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  • Marcus Vinícius Beck

A face contracultural de Paulo Leminski


Crítica

Poeta foi reverenciado por críticos literários durante as décadas de 1960 e 1970. Biografia narra as descobertas artísticas de Leminski

O tropicalista Gilberto Gil (à esquerda) e o poeta Paulo Leminski (à direita) juntos. Foto: Reprodução

“Sem forma revolucionária, não há arte revolucionária”, escreveu o russo Vladimir Maiakovski (1893-1930). E foi assim que o poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989) tornou-se conhecido durante a década de 1970. Leitor dos escritores da Geração Beat e dos poetas malditos franceses do século XIX, o polaco (como Leminski era conhecido em função de sua descendência polonesa) conquistou um lugar ao sol no meio editorial por conta de sua competência intelectual, já que era fluente em oito idiomas e tinha um vasta bagagem cultural, transitando por temáticas eruditas e popular.

Com o típico sobretudo que ia até o joelho e sempre fazendo anotações em cadernos, Leminski parecia ter saltado das páginas do simbolista Charles Baudelaire e era figura marcante nos bares curitibanos. Foi reverenciado pela revista Veja e pelos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo e contribuiu com o semanário O Pasquim, onde conheceu o guru da contracultura, Luiz Carlos Maciel (1938-2017), que ao conhecer Leminski logo pensou em tratar-se de algum “maluco”. “Só depois percebi que ele era um intelectual, até porque Leminski não se comportava como tal”, disse Maciel, em entrevista ao jornalista Toninho Vaz para a biografia Paulo Leminski, O Bandido Que Sabia Latim (2001).

O livro, que já teve três edições, foi sucesso no mercado editorial e mostrou a outra face do poeta marginal paranaense. Vaz é um jornalista, e, como tal, mantém o distanciamento que é necessário para mostrar alguns pontos da vida do poeta. E por conta disso a biografia ganha um caráter emocionante. Todo o texto tem como foco resgatar a vida deste gênio das letras que foi hippie, professor de judô, professor de história e redação, bem como jornalista (tendo trabalhado no jornal O Globo como copydesk). Leminski foi tudo, mas há duas coisas que ele nunca foi: óbvio e superficial.

Intelectual profundamente envolvido com o mundo das ideias, o poeta gostava de discutir pensamentos que estavam em alta em sua época. Era inquieto por natureza desde o mosteiro de São Bento, no início da adolescência, até as aulas-shows como professor revolucionário de cursinho, usando Bob Dylan e Beatles para prender a atenção dos alunos. Portanto, Vaz nos proporciona encontros pra lá de saborosos com gente do calibre de Mallarmé, Bashô, Dostoiévski, Cruz e Sousa, Guimarães Rosa, Octávio Paz, Fernando Pessoa, Franz Kafka e Allen Ginsberg.

A produção intelectual de Leminski é bem extensa. Em sua prosa, é obrigatório dar destaque para o romance Catatau (prosa experimental influenciada pelo movimento concretista, 2°. Porto Alegre, Sulina, 1989) e para Agora Que São Elas, romance lançado pela editora brasiliense em 1984. Nos versos, Distraídos venceremos (São Paulo, Brasiliense, 1987) e Caprichos e Relaxos (São Paulo, Círculo do Livro, 1987), também obrigatórios para quem queria conhecer melhor o universo literário do polaco.

Leminski fez da palavra sua vida e por ela foi feito. O vocábulo esperando para saltar ao papel é o fio que percorre toda a trajetória de trabalho dele e sua ligação intelectual com o mundo. O Bandido que Sabia Latim mostra-nos um Paulo Leminski jovem em busca de caminhos com o objetivo de traçar o perfil que mais tarde irá se concretizar pelo profundo desprendimento às coisas materiais, sempre longe dos modismos academicistas.

Para o polaco, a única coisa que importava era a linguagem e, por conseguinte, a feição do poema. Assim era Paulo Leminski.

O Bandido que Sabia Latim

Editora: Record

Páginas: 375

Ano de publicação: 2001

Preço: R$ 57

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