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  • Marcus Vinícius Beck

Turistas acompanham Mostra de Cinema


Tiradentes

Festival reúne pessoas de vários Estados do Brasil e diversos países do mundo. Comerciantes reclamam da baixa demanda em suas lojas

Tiradentes, Cine-Praça. Foto: Leo Lara

Marcus Vinícius Beck

Enviado especial a Tiradentes (MG)

A 22° edição da Mostra de Cinema de Tiradentes segue discutindo assuntos relevantes para o audiovisual brasileiro, mas o problema é que esse tipo de debate quase nunca interessa ou chega aos moradores da histórica cidade mineira. O Jornal Metamorfose caminhou pelas ruas de calçamentos rústicos do tricentenário município e perguntou aos moradores sobre suposta movimentação que a Mostra traria ao comércio. Também conversei com turistas paulistas, que veem a iniciativa de exibir filmes na Praça Dom Delfim Ribeiro Guedes, ao ar livre, como democratização da arte.

Sentada com as filhas numa hamburgueria de Tiradentes, a professora Letícia Alves relatou que não tinha conhecimento que estava acontecendo a Mostra de Cinema quando decidiu visitar o berço da arte barroca no Brasil. Natural de Campinas, no interior de São Paulo, ela comentou que o objetivo era visitar a cidade de Ouro Preto, porém acabou viajando mais alguns quilômetros para conhecer o palco da Inconfidência Mineira. “Quem me falou que ia acontecer a Mostra foi a minha mãe, que é bastante ligada às artes. O festival proporciona acesso ao cinema pra todos”, diz a professora.

Apesar de impressionada com a magnitude da Mostra de Cinema de Tiradentes, Alves frisou que nem todas as pessoas possuem condições de prestigiar um evento em uma cidade com o custo tão alto. Para ela, as classes menos favorecidas possuem orçamento mensal enxuto, na maioria das vezes destinado às despesas fixas mensais, e não podem dar-se ao luxo de fazer uma viagem que exige “bastante grana”. “Além disso, por ser uma cidade que respira história, tudo é bem acima do preço. Um sanduíche não sai por menos de R$ 20”, conta Alves.

Em conversa com o Jornal Metamorfose nesta manhã, a comerciante Luciana Maria de Paula relatou que, ao contrários dos anos anteriores, onde era alto o movimento nos comércios de Tiradentes, certamente ela terá prejuízo. Segundo Paula, a Mostra de Cinema é importante para quem possui restaurantes e pousadas. “Acredito que não há interesse em fazer uma divulgação boa, ao contrário do que acontecia anos atrás. No ano passado foi péssimo, muito ruim”, desabafa ela, que é proprietária de uma loja de artesanato no Centro Histórico, um dos pontos mais movimentados de Tiradentes.

Paula explicou ainda que, nos primeiros anos da Mostra de Cinema, os comerciantes conseguiam obter maior lucro em relação à hoje. Segundo ela, os proprietários de estabelecimentos que não são conveniados com a organização do festival estão em situação complicada. “É preciso guias turísticos para mostrar para a população as lojas de artesanato, por exemplo, que são um dos pontos característicos de nossa cidade. Aí junta isso com a crise e dá esse problema todo”, completa.

Cinema

Foto: Leo Lara

No último domingo (20), o dia foi agitado e teve bastante discussão na série Encontro com os Filmes, que trouxe para o debate questionamentos pertinentes sobre representatividade, estética e pontos de vista narrativos. As mesas sobre os longas-metragens Temporada, do diretor mineiro André Novais Oliveira, e Ilha, dos baianos Glenda Nicácio e Ary Rosa, foram fundamentais para expandir e debater as experiências sensoriais provocadas pelos filmes, tendo boa participação do público presente no Cine-Teatro Sesi.

As conversas tiveram como impulso o fato de a tentativa dos longas apresentarem ao espectador narrativas anti-hegemônicas, com personagens e conflitos fora dos padrões estabelecidos por um cinema brasileiro quase sempre movido pelo mesmo tipo de estrutura e gênero. No caso do longa baiano Ilha, a construção do roteiro possui grandes semelhanças com o clássico Oito & Meio, do cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993). Mas o ponto é que ambos fazem frescor a intensas situações do cotidiano.

Crítica a certa recepção de parte da imprensa ao longa Temporada, a historiadora Natália Batista rebateu as críticas (até mesmo positivas) de que “nada acontece e mesmo assim o filme se sustenta por duas horas” ou de que “a paisagem da cidade de Contagem fica bonita por causa do olhar do filme”. “É de se perguntar o motivo de se elogiar o filme dessa forma. Acredito que não se falaria assim se fosse uma família branca de classe média burguesa”, diz.

A atriz Grace Passô, homenageada nesta edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, reverenciou o “grande cronista” que ela vê no colega André Novais. “O mesmo olhar que o André tem para as paisagens (da cidade) ele tem para as pessoas, sempre em busca de estratégias para que está atuando se aproprie do texto que ele nos deu”, opinou a atriz.

Para Ary Rosa, o protagonista Emerson deseja “reivindicar sua história e levá-la pra dentro do seu território o Henrique, aquele que ocupa o outro lugar, o lugar mais central”. Depois de estrearem em longa-metragem com o Café com Canela, exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes no ano passado e com foco em personagens mulheres, Glenda e Ary resolverem contar a história a partir do ponto de vista de dois homens. “Buscamos um tipo de sensibilidade desvalorizada no homem”, destacou o codiretor.

À noite

Roda de conversa "Corpo Político", convidadas: Duda Salabert, Galba Gogóia, Tatiana Carvalho Costa. Foto: Jackson Romanelli

Com a política como centro, a programação noturna deu destaque para a realização da primeira roda de conversa, no Cine-Lounge. O tema “Corpos Políticos” abriu espaço para discussões políticas a respeito das possibilidades de existência de homens e mulheres trans no mundo audiovisual. Para discutir o assunto, esteve presente a professora, ambientalista e presidenta da ONG Travesti, Duda Salabert, que apresentou dados alarmantes acerca desse grupo social - 80% das mortes de travestis são de negros.

A programação contou com forte presença do público ao longo de todo o dia. Além das mesas de debate, o destaque foi para a estreia da Motra Olhos Livres, com a exibição do drama experimental Tragam-me a cabeça de Carmen M e Inferninho. Já na praça a atração foi para Clementina, obra tida como uma espécie de elo entre a cultura brasileira e raízes africanas. A noite foi fechada com o show do cantor paraense Jaloo, que foi responsável por lotar a tenda e apresentar ao público seu energia musical.

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