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  • Marcus Vinícius Beck

Um filme de resistência


Crítica/cinema

Trator destrói casa após desocupação do Parque Oeste Industrial. Foto: Divulgação

Marcus Vinícius Beck

Enviado especial para Tiradentes (MG)

Não sei se você está se perguntando aí sobre a qualidade do cinema produzido em Goiás, mas lhe garanto que é uma coisa surpreendente, vai por mim. Sensível, emocionante... Digo isso não como um jornalista cultural goiano em terras mineiras, tendo de acompanhar filmes muito bons, bons, muito ruins e ruins, e sim como quem realmente assistiu nos últimos dias obras interessantíssimas no berço da arquitetura barroca.

E foi exatamente essa sensibilidade que a documentarista goiana Fabiana Assis mostrou durante a Mostra Olhos Livres, cujo principal critério é a transgressão estética em detrimento à linguagem cinematográfica comercial. Com imagens fortes que escancararam a brutalidade policial durante a desocupação do Parque Oeste Industrial, no ano de 2005, o longa-metragem de mesmo nome foi brilhante ao mostrar com maestria que ainda há gente que faz de sua vida a luta pelo bem comum.

Afinal, a extrema-direita já chegou ao poder, não é mesmo? Então, meu amigo (a), seja bem-vindo a Eronilde Nascimento. Personagem central na luta goianiense por moradia, arrasada pela morte de seu companheiro que foi assassinado por pm´s na desocupação do Parque Oeste, ela reconstrói sua vida sempre tendo como norte a luta por moradia (direito, inclusive, assegurado no artigo 6° da Constituição Federal). Atualmente, ela só vê sentido em sua vida se atuar junto aos movimentos sociais.

O filme de Fabiana é uma assustadora denúncia sobre um Estado extremamente autoritário, à época governado por Marconi Perillo (PSDB), e que ainda hoje trata os ocupantes do Parque Oeste como “marginais”. Talvez por conta da pouca exposição nos meios de comunicação ainda haja uma visão tão deturpada sobre o trágico episódio que ocorreu no Parque Oeste Industrial. É terrivelmente assustador assistir a demolição de mais de 3 mil casas, destruindo vidas, sonhos e esperanças.

Assim, a escolha de a câmera acompanhar os passos de Eronilde até a volta ao Parque Oeste, local abandonado e sem os tais condomínios especulados por grandes magnatas da indústria imobiliária, me deixou grudado na poltrona do cinema. A diretora impressiona por conta de sua sensibilidade ao entrar no mundo daquelas pessoas vulneráveis socialmente, respeitando suas histórias, dores e cicatrizes.

Desta forma, é difícil elencar um momento do filme que nos deixam mais emocionados do que o outro, porém no instante em que Eronilde conta como foi sua prisão, repleta de agressões físicas e abuso dos homens da farda, fui interpelados com indagações dos mais diversos aspectos: ora, não é apenas na figura de extrema-direita de Bolsonaro que vemos os movimentos sociais ameaçados, não?

Exato. Toda a violência estatal à qual o filme Parque Oeste narra se passou quando Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), ocupava o Palácio do Planalto. Eronilde conta que encaminhou carta para Lula pedindo ajuda, mas isso não fechou as marcadas deixadas àqueles que perderam seus entes queridos nas emboscadas, e os que tiveram de esperar mais para ter a tão sonhada casa.

Parque Oeste fala sobre poder, violência, moradia e terra. E que me desculpe os críticos de plantão, mas o filme da documentarista Fabiana Assis é extremamente relevante, vide o momento histórico pelo qual passamos. Portanto, cinéfilos e estudiosos dos movimentos sociais de Goiânia, assistir Parque Oeste é fundamental, pois temos de manter viva a nossa memória coletiva e história.

Lutar e resistir.

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