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  • Marcus Vinícius Beck

“Parque Oeste” é ovacionado em estreia na Capital


Cinema

Longa premiado na 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes foi exibido com debate que deixou ânimos acirrados. Filme denuncia violência policial durante desocupação do Parque Oeste, em 2005

O premiado documentário “Parque Oeste”, de Fabiana Assis, estreou na última segunda-feira (4), em Goiânia, e foi ovacionado pelo público que prestigiou a 12ª Mostra O Amor, A Morte e As Paixões. Com curadoria do crítico de cinema Lisandro Nogueira, o evento exibiu ainda mais um longa-metragem goiano que teve destaque nacionalmente ao faturar a Mostra Aurora do Festival de Cinema de Tiradentes, em janeiro, considerado um dos mais tradicionais do País.

Dirigido pelo cineasta Getúlio Ribeiro, “Vermelha” destoou dos demais filmes exibidos no festival ao apresentar uma estética inquietante e nada convencional, com cenas desconexas e aleatórias que revelavam algo maior. Mas essa percepção não foi uma unanimidade entre a crítica cinematográfica do eixo Rio-São Paulo. Era comum se deparar em terras mineiras interioranas com cinéfilos que enxergavam a obra goiana como um longa que “não deveria ter sido feito”.

Bobagem gigantesca. Tanto “Parque Oeste” quanto “Vermelha” foram os principais responsáveis por subir o cinema goiano de patamar e apresentar com elegância ao País a qualidade do audiovisual produzido em nossa terra... Sem falar nos curtas-metragens “Kris Bronze”, de Larry Machado, e “Guará”, de Fabrício Cordeiro e Luciano Evangelista – que você em algum momento já viu este jornalista que vos batuca palavras em prol da sétima arte redigi-las aqui.

Por falar nisso, um dos momentos mais aguardados pelo público em geral era mesmo a estréia do impactante documentário de Fabiana Assis em telonas goianienses. Ora, é preciso fazer com que não nos esqueçamos da barbárie que culminou na morte de duas pessoas (moradores do Real Conquista falam em pelo menos 20, todas em decorrência da violência estatal) e na desapropriação de pelo menos 4 mil famílias, não é mesmo?

Exato, e para isso nada melhor do que uma obra fílmica com forte teor de denúncia cujo objetivo é manter nossa memória fresca, não?

Óbvio. Fabiana Assis entra com sensibilidade na casa de quem lutou naqueles dias de extremo terror e caiu nas promessas feitas pelo ex-governador à época, Marconi Perillo (PSDB), em que ele garantiu que viabilizaria moradia para centenas de famílias num terreno que não cumpria sua função social.

Digo mais: a câmera da diretora nunca sequer desrespeitou quem sentiu na pele a máquina de guerra estatal naqueles dias truculentos no Parque Oeste . Portanto, amigo leitor, não restam dúvidas: “Parque Oeste” é de fato um filme de resistência em tempos onde manifestações reacionárias ganham coro, e artistas vem sendo cada vez mais alvos da intolerância fomentada pelos fundamentalistas religiosos e milicos ungidos do senhor.

Debate

Ação teve saldo de duas mortes e vários desaparecidos. Foto: Divulgação

Um dos momentos mais acalorados da noite da última segunda-feira (4) ficou por conta do debate entre os espectadores, Fabiana Assis e a protagonista do longa, Eronilde Nascimento, figura central na luta por moradia na Capital goianiense. As perguntas feitas pelo público eram geralmente relembrando alguns detalhes que passaram despercebidos no documentário, mas que de jeito nenhum poderiam deixar de serem mencionados.

O que é importante salientar aqui foi a presença ilustre de algumas personalidades da política goiana. Convidado pelos organizadores, o senador Vanderlan Cardoso (PP) não compareceu à exibição, porém sua irmã foi representá-lo. O resultado não poderia ter sido mais óbvio: uma vaia ensurdecedora ganhou o espaço quando ela pegou o microfone para falar algo relacionado à memória coletiva.

Outros aproveitavam a oportunidade para tecerem elogios à iniciativa da diretora de filmar a opressão que rolou no Parque Oeste. Também houveram perguntas a ela sobre a possibilidade de o filme ser exibido em espaço público. Vários estudantes, dos mais diversos cursos da Universidade Federal de Goiás (UFG), demonstraram interesse em manter vivo o que as imagens de “Parque Oeste” assustadoramente insistem em escancarar a nós.

Se no tricentenário da cidade mineira o filme suscitou perplexidade, imagine o que poderíamos esperar dele na capital goianiense, não é?

Agora, divagações à parte, “Parque Oeste” - antes de tudo e sobretudo - nos convidou a refletir acerca do cinema enquanto forma de expressão comunicacional e artística em tempos onde aguardamos ansiosamente o desfecho do caso de Marielle Franco, e esse tipo de reflexão é cada vez mais pertinente e importante.

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