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  • Marcus Vinícius Beck

“A gente não sabe o que vai acontecer”


Entrevista - Fabiana Assis

Diretora do documentário “Parque Oeste” fala sobre o momento político do Brasil e diz que a produção artística está ameaçada pelo governo de Jair Bolsonaro

Solenidade final da Mostra de Cinema de Tiradentes. Foto: Beto Staino/Universo Produção

A documentarista Fabiana Assis, sentada no gramado do Centro Cultural Yves Alves, em Tiradentes, no interior de Minas Gerais, recebeu o Jornal Metamorfose em janeiro para conversar sobre o longa-metragem “Parque Oeste”. Premiado na Mostra Olhos Livres, cuja principal exigência é a transgressão estética em detrimento ao cinema comercial, o filme narra a brutalidade policial na desocupação do bairro de mesmo nome, que teve um saldo de duas mortes - moradores, no entanto, estipulam que esse número seja maior.

Na conversa, a diretora falou sobre o contexto sociopolítico brasileiro e disse que os movimentos sociais estão ameaçados com a ascensão da extrema-direita. Apesar do endurecimento do discurso autoritário, a diretora comenta que seu filme celebra a vida na figura de Eronilde Nascimento, protagonista do longa que perdeu o companheiro Pedro Nascimento assassinado pela Polícia Militar, em 2005.

Fabiana afirmou que as leis de incentivo à cultura, tanto nos âmbitos federal, estadual e municipal, estão ameaçadas por conta dos discursos contrários à iniciativa. Organizadora do PirenópolisDoc, ela relatou as dificuldades em estar à frente desse tipo de iniciativa.

Confira a entrevista na íntegra.

Jornal Metamorfose - A ascensão de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto é interpretada como uma ameaça aos movimentos sociais. Neste contexto de dúvida em relação ao futuro, qual é a importância do seu filme?

Esse filme surge nesse momento. Desde 2009, estou trabalhando na pesquisa, escrevendo em editais. Fiquei quase dez anos. Começou com pesquisa documental e aí fui entrando em contato com as pessoas que participaram da desocupação do Parque Oeste. Acho bastante simbólico o filme ficar pronto justamente nesse momento. Nunca imaginei que a gente fosse viver esse tipo de ameaça e medo que as pessoas estão. Apesar de escancarar essa violência, “Parque Oeste” é filme positivo porque mostra que é possível viver. A personagem dá uma volta na vida dela.

Jornal Metamorfose - Teu filme fala sobre a luta por moradia. Queria que você comentasse um pouco sobre o assunto.

É a temática central. O filme só existe por causa disso. Foi um dos maiores atos de violência do Estado, violência de Estado contra a população. Acho que essa questão das moradias é uma das grandes mazelas do Brasil. Entra governo, sai governo e vemos prédio pegando fogo em São Paulo e as pessoas morrendo. Outras levando tiro porque estão ocupando. Neste momento, em que a ameaça aos movimentos que lutam por moradia estão postas, “Parque Oeste” escancara essa luta. Eu temo pela vida dessas pessoas, que estão totalmente à margem. Há muita gente sem moradia, e isso é um direito humano

Jornal Metamorfose - Sem falar que é constitucional também, né?

Pois é.

“Acho que essa questão das moradias é uma das grandes mazelas do Brasil. Entra governo, sai governo e vemos prédio pegando fogo em São Paulo e as pessoas morrendo. Outras levando tiro porque estão ocupando.”

Jornal Metamorfose - Bem, você acompanhou a Eronilde Nascimento (protagonista do documentário) ao longo de anos. Como foi esse processo?

Na verdade, eu a conheci em outro momento, uns três anos depois. Eu já tinha começado a fazer algumas pesquisas. Eu a acompanho hoje com um contraponto às imagens do dia em que houve a desocupação do Parque Oeste Industrial. O pessoal do movimento de vídeo popular mudou para dentro do local junto com Brad, um americano cujo trabalho era acompanhar esses movimentos sociais, inclusive ele morreu num conflito no México. A Eronilde até me conta que ele falou que ia morrer num conflito. Morreu pouco tempo depois do Parque Oeste.

Jornal Metamorfose - Foi produzido bastante imagem do dia da desapropriação.

Sim. E a história está muito nessa coisa da memória do acontecimento, contextualizada na vida de Eronilde hoje. Por isso que falo que o filme, no final das contas, deixa uma mensagem positiva. Apesar de tudo, ela consegue resistir e continuar vivendo. Reconstrói a vida, reconstrói a família.

Jornal Metamorfose - Fabiana, você é uma das poucas mulheres que fazem cinema em Goiás. Qual é o desafio de fazê-lo, já que a indústria cinematográfica é bastante masculina?

Isso nunca foi uma questão pra mim, na verdade. Nunca pensei ‘ah, sou mulher’, mas eu acredito que essa questão tem de ser discutida, sim. É preciso a gente olhar para isso mesmo, porém, sendo bem honesta, eu nunca me senti desprivilegiada. Mas precisamos discutir machismo e assédio. Precisamos denunciar e falar sobre isso. Mas ainda não tive tempo de experienciar esse tipo de agressão, fazendo cinema.

Jornal Metamorfose - Minha cara, para um primeiro filme, “Parque Oeste” foi um puta sucesso, não?

Foi, foi. Fiquei bastante surpresa, mas eu acho que tem a ver com o contexto sociopolítico. Ele foi lançado em setembro quando já havia esse medo em relação ao cenário político. Então, o momento que vivemos está dando oportunidade para filmes como o “Parque Oeste”.

Jornal Metamorfose - A desocupação do Parque Oeste foi letal, com saldo de duas mortes, mas os moradores dizem que houve pelo menos 20. Quando o ex-governador Marconi Perillo foi preso teve ativistas pela moradia que foram à sede da PF. Isso simboliza uma vitória?

Neste momento, puderam soltar alguma coisa da garganta que estava presa, apesar dele ter ficado encarcerado só uma noite, só um dia. Sem dúvida, puderam soltar um grito que estava preso ali desde essa época. Voltando à problemática da mulher, o personagem central era um homem, o Tião. Mas acontece que ele sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e perdeu a fala. E eu fiquei sem personagem, até que encontrei a Eronilde e percebi que ali era um lugar de lideranças femininas. A violência que elas sofreram gerou isso nelas. Percebi que eu precisava fazer um filme sobre a perspectiva dessas mulheres, do meu olhar também como mulher e vendo como elas atuam. Acho que o filme caminhou para isso.

Jornal Metamorfose - Quais são os desafios de fazer cinema hoje?

É complicado. A gente não sabe o que vai acontecer. É uma incógnita. Estamos recebendo cacetadas de tudo quanto é lado. De mamadores das tetas do governo. As pessoas estão falando coisas sem saber o que é a Lei Rouanet. Nós temos várias críticas à Lei. Temos críticas às formas como são postos os mecanismos de incentivo à cultura nas esferas federal, estadual e municipal. Da Ancine, do Fundo Setorial do Audiovisual. Mas são mecanismos fundamentais que gerou uma safra de novos cineastas. “Parque Oeste”, por exemplo, foi feito com verba federal. Ficar recebendo essas críticas de gente que são sabe o que está falando é muito duro. E em todas as artes tem esses ataques. Nós não sabemos de fato o que vai acontecer.

Jornal Metamorfose - Fazer cinema seria uma forma de resistir?

Com certeza. A gente não sabe o que vai acontecer. Mudou o governo e nós temos bastante dúvidas. O Estado tá falindo. A gente não sabe.

Jornal Metamorfose - Como é ser organizadora do PirenópolisDoc?

Uma incógnita, também não sei o que vai acontecer. Organizar um festival requer planejamento. Eu preciso começar a trabalhar nele agora. É necessário abrir inscrição para receber os filmes para a curadoria ter tempo de assistir. Começamos a internacionalizar o festival o ano passado. Ele cresceu muito rápido, estamos indo para quinta edição. E agora não sei nem o que eu faço. É uma situação horrível. Minha vida toda é dedicada a isso.

Jornal Metamorfose - A extinção do Ministério da Cultura dividiu artistas e produtores culturais. Como você vê essa medida do novo governo?

Se a gente já tinha problemas com ele, imagina ele extinto. Ao que parece, o secretário federal de cultura é um professor de cinema do Rio Grande do Sul que entende como funciona todo o mecanismo da Ancine. E ele está mantendo a mesma estrutura, mas só que a gente não sabe o que vai acontecer daqui para a frente. Ele está de baixo do guarda-chuva do Ministério da Cidadania.

“Estamos recebendo cacetadas de tudo quanto é lado. De mamadores das tetas do governo. As pessoas estão falando coisas sem saber sobre o que é a Lei Rouanet.”

Jornal Metamorfose - Com a implantação das leis de incentivo à cultura, a produção cinematográfica aumentou consideravelmente nas décadas de 1990, 2000 e 2010.

Pois é. E uma coisa que as pessoas não entendem é que o fomento à cultura gera emprego e movimenta a economia. Estamos alugando equipamentos e comprando outras coisas. As pessoas estão pagando seus aluguéis, suas contas. E com o festival é da mesma forma. Movimenta a economia da cidade, pois alugamos pousadas, compramos passagem aérea, negociamos com restaurantes. Alugamos um monte de coisa, estrutura para tela. A cultural, em geral, tem impacto na economia. O ex-ministro da cultura no governo de Michel Temer, Sérgio Sá Leitão, mesmo com todas as críticas que podemos fazer a ele, deixou esses números antes de sair do MinC. Ele encomendou uma pesquisa e deixou aí para quem quiser olhar.

Jornal Metamorfose - O engraçado é que ele andou derrapando e falou algumas bobagens sobre o ex-baixista do Pink Floyd, Roger Waters. Segundo Sá Leitão, o músico teria recebido dinheiro da Lei Rouanet para protestar contra o neofascismo.

E não foi nada disso. Eu acho que esse momento delicado requer que tenhamos mais cuidados com o que estamos lendo, vendo e ouvindo. E é preciso filtrar. Se a pessoa fala uma coisinha boa, você esquece tudo de ruim que ela disse. A coisa está tão caótica que acontece esse tipo de coisa.

Jornal Metamorfose - Para finalizar, queria que você comentasse um pouco sobre a cena do audiovisual em Goiás.

Eu acho que a gente cresceu muito por conta de todos esses mecanismos que já falamos. E o reflexo disso tudo está aqui na Mostra. Olha quantos filmes feitos em Goiás temos aqui. Filmes na Mostra principal, como “Vermelha” (vencedor), de Getúlio Ribeiro. Filmes na praça. “Parque Oeste” na Mostra Olhos Livres. A prova é isto: Goiás está no mundo. Então, nosso Estado é uma representação da importância dessas leis para a cultura e, em nosso caso, para o audiovisual.

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