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  • Marcus Vinícius Beck

Medo e delírio em Tiradentes - parte 1


Cobertura especial

Confira a experiência de oito dias de embriaguez, cinema e política no histórico município mineiro

Era uma manhã de sexta-feira ensolarada, ao estilo Hunter Thompson sentado num bar caribenho pensando que diabos iria fazer a seguir. Lembro que disse para o cara do Uber que eu tinha uma missão especial com o objetivo de mudar os rumos do jornalismo cultural brasileiro. O ar estava quente de rachar, era como se estivesse numa sauna com a porta trancada quando tudo o que queria era vazar dali o mais rápido possível. Então o motora perguntou o que eu “fazia da vida”. “Sou um mentiroso profissional”, explanei, deixando o sujeito impressionado com tamanha sinceridade.

Bebi um pouco quando cheguei no aeroporto, mas não me senti nada confortável. Não usava gravata e as pessoas importantes que estavam ali pareciam não querer saber de mim. Eu ingeria a cerveja com sofreguidão, tentando ficar suficientemente bêbado para conseguir aliviar a tensão antes de embarcar na aeronave. Maia, a melhor fotógrafa da porra toda, disse que essa era a minha grande chance como jornalista. Carlos Durruti destacou que esse tipo de viagem costuma ser bem chata. Talvez cobrir um dos maiores festivais de cinema do País fosse o ápice para muitos escribas.

O problema é que, na maioria das vezes, eu não ligava para esse tipo de coisa. Tenho preguiça quando a galera da ‘imprensa séria’ se reúne. Todos puxam o saco dos assessores para conseguir o melhor ângulo para suas quadradas reportagens culturais, que tem como foco estimular o consumo mais perverso de produtos artísticos. Porra, eu vou a esses rolês para sentir o espasmo delirante do cinema correr em minhas veias…. jornalismo, assim como a vida, precisa de boas doses de emoção. É preciso fazer o leitor ir do riso ao choro. Só assim a coisa funciona.

Pois é, eu estava atrasado, mas não havia nada que pudesse fazer. Todo mundo andava mecânica e rapidamente atrás de seus compromissos diários, gritando nos guichês das companhias aéreas horários que não faziam sentido. Minha última lembrança é de estar de pé com ticket da passagem para entregar a aeromoça da Latam. Fiquei atrás de umas dez pessoas e de uma morena com cabelos cacheados.

Tinha certeza que se tratava de uma turista indo curtir o verão em alguma cidade litorânea. Tinha um belo corpo mignon, e seu jeito de esperar indicou altas voltagens de energia acumulada. Comecei a encará-la, sorrindo e sentindo a cerveja correr pelas minhas veias, esperando que ela virasse para que pudéssemos ter o primeiro contato visual - e talvez o único em toda nossas vidas.

Apaguei. Quando acordei já estava em São Paulo e o comandante de voo dizia que era para ficarmos sentando com o cinto afivelado. Estiquei a cabeça, mas não consegui encontrar ninguém de cabelo moreno encaracolado. O foda é que poucas garotas veriam com bons olhos um sujeito lamentavelmente embriagado às nove da manhã. Lembrei da expressão fria em seus olhos. Era difícil e engolir aquela reprovação.

São Paulo

Com dificuldade para conseguir soltar os cintos, berrei alguma coisa desesperada, olhando aflitamente para o comandante de voo.

“Calma”, disse o cara que estava ao meu lado. “É só fazer isso”, mostrou ele, libertando-me do assento.

“Muito obrigado, meu amigo. Mais um pouco ali e eu ia ficar preso”, falei, sorrindo.

“É normal”, comentou.

“Nem tanto”, respondi. “Deve ser porque sou um caipira do interior do Brasil”.

“Creio que não”.

De repente, o sujeito contou que precisava sair da aeronave e cruzar o aeroporto para embarcar aos Estados Unidos.

Sem expectativa de encontrar a tal diva, decidi tomar um café e ler os jornais do dia. A merda é que o aeroporto de Guarulhos é um lugar horripilante, moderno e cheio de gente andando a passadas largas para não perder o embarque da ponte aérea que os levará à reuniões com empresários barrigudos sem escrúpulos.

Caminhei por alguns minutos por um longo corredor, carregando meu blazer em uma mão e Medo e Delírio em Las Vegas na outra. Enquanto passava em frente a uma banca de revista, avistei meu semblante num espelho: eu parecia um vagabundo alcoólatra com olhos vermelhos.

Não só minha aparência era horrível como eu também cheirava a cerveja. Caralho, preciso urgentemente fazer com que minha apresentação melhore, pois não há nada mais deprimente do que chegar em um lugar em que você é totalmente desconhecido como um expoente da Geração Perdida parisiense.

O voo para Belo Horizonte ocorreu sem maiores problemas, mas eu tinha espasmos de pensamentos sobre realizar uma cobertura jornalística minimamente decente do festival. Foda-se se eu ia pôr meus pés no mesmo covil que o supra-sumo da imprensa que cobre cinema do Brasil... Em terras mineiras, peguei minhas bagagens e sai imediatamente do aeroporto com a intenção de fumar um cigarro.

Eu me sentia como algo trazido pela maré. Fazia alguns anos que eu escolhi o jornalismo como forma de ganhar a vida, mas até agora não tenho certeza se irei me dar bem. Embora já esteja calejado o bastante, ainda tenho um ímpeto, tal como o som da banda de rock psicodélico sessentista Jefferson Airplane, de mudar o mundo.

Acendi um cigarro. Um cara chegou ao meu lado:

“Porra, bicho, eu estava aficionado no avião para pitar”, informou.

“É, ficar bastante tempo sem fumar é foda”, respondi, jogando a bituca no chão.

“Todo fumante é um filha da puta em potencial”.

“Por quê?”, indaguei, curioso.

“Por quê ficamos away nos rolês”.

Para que esse diálogo possa fazer algum sentido, é necessário apresentar Vagner Augusto. Carioca, ele trampava como crítico de cinema para o site Cinéfilos. Sabia sobre o Cinema Novo e Marginal (e todas as curiosidades relacionadas à Boca Maldita, em São Paulo) na ponta da língua e, a partir disso, nem preciso dizer que o sujeito também ia cobrir a Mostra de Cinema de Tiradentes.

Um pouco melhor da bebedeira, perguntei a ele que horas eram: “São uma e meia, meu brother”. Caralho... “A gente deveria estar no ponto de encontro uma e meia, porra”, bradei. Calmo, Vagner disse que ninguém iria partir sem a nossa presença. Confiei nele, quase rezando para que o infeliz estivesse certo.

Tiradentes

Durante todo o trajeto para a histórica cidade mineira não falei nada. Apenas refleti como seria a minha vida daqui para frente. Ora, nunca pensei que um dia iria realizar a cobertura de um dos maiores eventos de cinema do País. Mas jamais imaginei que iria passar dificuldades financeiras. Nos últimos meses, não tenho grana para arcar com a conta de internet. Sou um repórter que escreve para pagar o aluguel e continuar fazendo reportagens literárias. É uma fase complicada, mas fui designado há tempos para fazer da escrita a minha vida.

Em Tiradentes, fiz o credenciamento para o rolê e fui para o hotel. Sem maiores problemas com os recepcionistas, subi para o quarto e conheci o cara que seria meu colega de quarto nos próximos oito dias.

Ele era um sujeito frio. De poucas palavras, passou todos os dias enfurnado no quarto, redigindo matérias que fez com diretores da cena independente do audiovisual brasileiro. Eu, por minha vez, era completamente o inverso dele. Tinha hábitos noturnos e não estava em meus planos mudá-los para agradar um jornalista paulista brother de todas as figuras importantes do festival.

Aliás, só para deixar devidamente registrado, nossos hábitos eram tão diferentes que no último dia o cara conseguiu acordar em tempo hábil, e eu não. Horas antes, a assessora de imprensa avisou que a van ia partir cedo para BH. Taóquei, sem problemas. Acontece que eu, como um boêmio de princípios, fechei o open bar da festa de encerramento e tive sérios problemas em sair da cama. Só abri os olhos quando uma das organizadoras começou a gritar: “VOCÊ ACABOU DE PERDER SEU VOO. MEU DEUS QUE TIPO DE JORNALISTA ESSE CARA É”.

Um jornalista inescrupuloso alcoolicamente, pensei. Porra, uma bebedeira sem grande importância acabou me colocando numa situação difícil de explicar, mas nada que com atenção não fosse contornável. A verdade é que eu estava perdendo o controle da situação. Tudo rolou muito rápido, mas não foi nada legal ter de lidar com a possibilidade de ficar na sarjeta numa cidade em que eu já tinha um histórico depravado por conta dos dias de festival.

Bem, temendo pela minha necessidade etílica e nicotínica, travei uma amizade cinematográfica com Vagner e, através dos contatos que ele tinha com artistas do eixo Rio-São Paulo, bebemos inúmeras doses de Gin com o cineasta carioca Felipe Bragança, que estava no festival com o longa-metragem "Tragam-me a Cabeça de Carmen Miranda" - no dia que o conheci fui espancado por três homens num bar. Ninguém me acertou um murro sequer, mas uma pessoa não consegue encarar de igual para igual três caras com braços de fora exibindo tatuagens e loucos atrás de briga com o primeiro demente que aparecer na frente.

A bosta é que o dono do estabelecimento ameaçou a morena de cabelo encaracolado - lembra dela? Nem pensei, apenas parti para a briga, mas tentei intervir mostrando a minha credencial de imprensa, o que não surtiu efeito algum. Lembro que o proprietário do bar gritou comigo, dizendo que era melhor eu ficar fora da situação. Acontece que eu tinha segundas - e até mesmo - terceiras intenções com a ela.

Foda-se. Foram oito dias tendo de fazer malabarismo retórico para conseguir beber uma cerveja. Além disso, tínhamos de conviver com o bar fechando cedo e não dava para sequer ficarmos um pouco ‘alto’, mas é verdade que isso não impediu ninguém de ficar bêbado na histórica cidade mineira.

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