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  • Marcus Vinícius Beck

Manifesto pela pedagogia da manga


Botequim Literário do Beck

Amigo leitor, antes de mais nada, devo te dizer uma coisa: mil perdões, meu caro e minha cara, por usar esse espaço para falar sobre o óbvio ululante. Sorry, seu Adão, mas a manga deve ser desfrutada com total devoção, com extremo carinho e com enorme ternura.

E nada dessa gracinha fácil, seu cronista bebum conservado em barril de carvalho e cevada de botecão do fundo do Criméia Leste em pleno final de semana. Enfim, chega desse blá-blá-blá retórico, poético, lírico e vagaba, e vamos ao que nos interessa.

Uma das queixas mais contundentes sopradas ao ouvido deste escriba nas peregrinações etílicas diz respeito à prática milenar do sexo oral. É, meus amigos, elas andam falando de nós por aí, e não é nada legal a fama de pouco bom no negócio que ganhamos.

Além de displicentes e pouco ‘bão no trem’, os rapazes, especialmente a galera dos novíssimos tempos, a famigerada geração Tinder, não estariam dando conta do recado lá embaixo. Isso quando não reclamam que a cabeleireira precisa ser desmatada - um crime ambientalista de lesa pátria.

Segundo elas, a gente não estaria sendo tão chegado, tão devoto, tão apaixonado, tão perdido, tão maluco, tão loucos pelo momento mais sublime do sexo, daquela hora que ficara eternizada nas páginas de putaria existencial de Henry Miller… é, elas andam queixosas de nossa oralidade chinfrim.

Confesso que estava tentando fazer um esforço para não citar o titio Nelson Rodrigues, mas eis que ele já pressentia a tragédia na década de 1950. Sim, senhoras e senhores: cada vez menos sabemos como dizer bom dia a uma mulher, tal como reclamou Nelsão para Otto Lara Rezende, em uma entrevista concedida ao escritor mineiro na TV Globo, na década de 1970.

Digo mais: os marmanjos, na cada dos 30 e poucos, são indiferentes a um bom agrado. Quase não sabem nada sobre a importantíssima pedagogia da manga.

Pobres criaturas. Só desejam receber, mas ao vosso reino dos prazeres, nada. Neste momento de crise, conclamo, podemos até lembrar (desculpem-me a heresia nossa de cada dia) da regra principal do franciscanismo: é dando que a gente recebe.

Portanto, só a pedagogia da manga, conforme já alertava o cronista Xico Sá no início desta década em sua coluna na Folha de São Paulo. Ouvi aos borbotões este ensinamento, tanto de jovens velhos quanto de novos - e, pasmem, tenho convicção de que estes estavam mentindo.

A manga é saudável, é milagrosa para a saúde, atenua os efeitos mordazes da ressaca que acomete o sujeito no dia seguinte… entenda, meu jovem, que deliciar-se a uma manga com uma poética devoção ao lambuzamento e ao fluído da fruta é sensacional... carregar aquele cheiro na barba, então?.

Aff. De uma vez por todas: sem sujeira, não há tesão, não há amor, não há nada disso que valha a pena sentir a loucura do delírio cotidiano. Daí devemos reverenciar a boa, velha e utilitária pedagogia da manga, para não esquecer Paulo Freire. É currículo básico que todo cara deve ter.

Já que ninguém hoje em dia escreve cartas de amor, vamos lamber carinhosa e deliciosamente a manga. Às mangueiras livres, belas e apaixonantes.

Em tempo, cara leitora: desculpem-nos, os homens não sabemos o que fazemos.

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