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  • Gabriella Campos

A curiosa vontade de ler livros


Afrescos da Alma

Foto: Quadro de Gabriella Campos

Existe uma lenda, uma história mal contada, que relata sobre uma garota que pensava muito. Todos os dias acordava bem cedo, duas horas antes de passar o ônibus que a levava para a escola no centro da cidade. Tomava o café da manhã, vestia o uniforme e calçava os sapatos, despedia-se da mãe e seguia no bonde.

Marcélia tinha doze anos quando decidiu que seria professora, dois dias após seu aniversário, onde ganhou de presente do avô Pedro Bonifácio, um livro que narrava a história da ferrenha relação de um jacaré e um filhote de jaguar.

A menina varou a noite desvendando as escritas de seu novo presente. Aprofundada na história, tinha cede de ler e ler mais, podia até prever certos acontecimentos, e quando lera o que já imaginava, até comemorava, como quem se orgulhasse da perspicaz de um detetive. Mas falava baixinho, para não correr o risco de acordar os pais, pois já era tarde, se descobrissem, iriam bronquear. No outro dia, já amanhecendo, dona Cristina veio chamar a filha, esta que quase perdeu a hora:

- Marcélia, o ônibus está prestes a passar, se arrume depressa para não se atrasar.

A menina deu um pulo da cama e caiu sentada no chão.

- Já vou, mamãe!

Se aprontou mais que depressa, engoliu um pedaço do bolo de cenoura e deu um gole no café quente, quase que sem esfriar. Correu Marcélia para a linha, onde chegou junto com o ônibus:

- Bom dia, seu Ataíde!

- Bom dia, menina!

Marcélia caminhou para o fundo do ônibus, onde se sentou sozinha e apoiou a mochila no assento ao lado. Não é surpresa que a menina tenha levado o seu novo livro para a escola, até mesmo porque ainda lhe faltava ler as últimas 5 páginas, matutou ela concluir no intervalo da escola.

- Até mais, seu Ataíde!

- Boa aula, crianças, até mais!

Marcélia desceu do ônibus e foi de encontro com Dionísia, sua colega de classe e também amiga mais próxima, a quem lhe contava os segredos. As duas se acomodaram em suas mesas para que a professora Clotilde desse início à aula de literatura. Era a matéria preferida de Marcélia, já Dionísia, fazia pouco, preferia as aulas de cálculos do seu Manoel, professor de matemática.

- Bom dia, crianças! Se lembram da história de um grande poeta do Modernismo que contei a vocês na última aula?

- Manuel Bandeira, professora? perguntou a voz baixinha, vinda do canto esquerdo da sala.

- Esse mesmo, querida Marcélia. Que tal todos vocês irem até à biblioteca da escola e me trazerem um histórico literário deste autor?

E assim fizeram todos, se encaminharam para o lugar de leitura e começaram a caça por conteúdo. Marcélia, ao mesmo tempo que fazia o trabalho solicitado pela professora, observava atentamente a senhora da biblioteca, esta que contém bochechas grandes, pele marcada pela idade, óculos recobrindo os olhinhos miúdos e que, com certa dificuldade, anotava cada livro retirado da biblioteca pelos alunos.

Caminhava lentamente, passos meio que arrastados, ajeitando com destreza em suas mãos trêmulas cada livro, enfileirados, separados por gênero e autor. Uma espanação de cá, outra lá, se certificava de retirar qualquer grão de poeira sobre eles. Marcélia, esta continuava a especular atentamente cada gesto da dona... bem, Marcélia não a conhecia pelo nome, até então era “senhora dos livros”, pois assim, esta gostava de ser chamada.

Interrompida pelo sinal barulhento anunciando a hora da merenda, a menina teve de adiar o trabalho para, como todos os outros, encaminhar-se até o salão onde são servidas as refeições. A menina correu na frente, se alimentou, outra vez mais que depressa, e antes mesmo que sua amiga Dionísia terminasse, correu para a biblioteca. Lá, Marcélia encontrou a Senhora dos livros:

- Chegou cedo menina, se alimentou direito? - Perguntou a velhinha com sua voz arranhada.

- Sim, senhora. Posso ficar aqui?

- Mas é claro! Aqui fica sempre aberto para vocês se desfrutarem desse grande acervo.

- Grande acervo?

- Sim, são muitos, cada um cheio de coisas novas e enriquecedoras, basta procurarem.

- A senhora já leu todos esses?

- Esses e aqueles dali também - apontou para um canto meio escondido que fica do outro lado de uma portinha estreita - lá ficam alguns que não couberam aqui neste espaço.

Olhou a menina atentamente para a portinha enferrujada e pensou como seria possível ler tudo aquilo, se perguntou também se a professora Clotilde, sendo professora, já teria lido um tanto daquele, ou se pelo menos metade. Questionou em pensamentos se, para que fosse professora, teria de ler tudo aquilo também. Perguntou:

- Mas como é possível? São muitos.

- Menina, eu trabalho aqui há cinquenta e oito anos, desde os meus dezessete anos, isso é que é muito. Não me faltou tempo para ler e até reler alguns destes.

Marcélia ficou pensativa por um instante, sendo interrompida pela Senhora dos livros:

- O que está pensando, minha querida?

- Como a senhora se chama? O seu nome de verdade?

Essa gargalhou em meio a tossidas, deu um gole num copo d’água que estava sobre a mesa da entrada e respondeu à menina:

- Já que é muito curiosa, darei a você esse prêmio, pois curiosidade é um grande bem, se todos soubessem disso, não viveriam lamentado às incertezas que nos trazem a vida. Me chamo Eleonora.

- Hum, (matutou a menina), eu me chamo Marcélia.

Outra vez, a velhinha deu lhe aquela risada cansada, seguida de engasgos consecutivos, outro gole de água, prosseguiu:

- Eu lhe conheço, menina. Me lembro de você quando chegou aqui na escola pela primeira vez. Era tão pequenina e desconfiada, estava acompanhada do pai, e você logo o perguntou o que era esse lugar, se referindo a biblioteca. A curiosidade lhe está no sangue desde muito cedo.

Dessa vez quem sorriu foi Marcélia, ainda encabulada por ter lido tantos livros na vida a senhora Eleonora.

Voltou-se ao seu lugar onde realizava sua pesquisa e continuou a fazê-la. A vida e obras de Bandeira tomavam a curiosidade da garota, que, apesar de ainda não ter conhecimento de determinadas palavras contidas em suas poesias, perguntava a dona Eleonora, que fazia gosto em ajudá-la, pois, assim como Marcélia, era também fiel admiradora da literatura, ainda mais brasileira. Sabia de tudo e mais um pouco, entre uma e outra dúvida, foram interrompidas as duas pelos alunos que vinham chegando.

A biblioteca agora, apesar do aviso escrito em letras grandes em vermelho “preserve o silêncio neste ambiente”, esta se tornou mais barulhenta. Arrastos de cadeiras, barulho de mochilas jogadas sobre a mesa, “ei, eu estava com este livro”, “xiu!” esbravejou dona Eleonora, digo, Senhora dos livros. Dionísia agora faz companhia para Marcélia, e por uma longa tarde, se finda a pesquisa. O sinal anuncia o fim de mais um dia letivo.

-Olá, seu Ataíde!

-Olá crianças, todos pra casa!

No dia seguinte, Marcélia foi a terceira a apresentar a pesquisa, depois de Clóvis e André. Dionísia foi a quinta, dando sequência aos outros. Após longa discussão sobre o assunto, as crianças foram dispensadas, aproveitando do momento a garota para interrogar a professora:

- Já leu tantos livros na vida como a Senhora dos livros? Digo, todos os que estão na biblioteca?

- Minha querida, eu já li muitos sim, não sei se tanto quanto ela e nem se os mesmos. Aliás, não há como saber, até mesmo porque não parei por aqui, ainda pretendo ler muito mais.

- Mais?

- Sim? Nunca sabemos tudo, sempre há algo novo, não dá para ter todo o conhecimento do mundo.

- E por que não?

- Para isso, precisaríamos viver mais.

- Mais quanto, professora?

- Ora! Eu não sei, uns quinhentos anos, ainda não acho que seria suficiente, difícil dizer, ninguém nunca viveu tanto para contar história.

Ainda mais encabulada ficou a menina, pensando e pensando, mas o agradável é que toda essa história, por fim, despertou na criança o que mais tinha guardada em si, a curiosidade pelo que tanto guardavam nestes livros.

Continua...

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