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A voz dos excluídos

Livro


Editora 34 nos dá nova chance conhecer personagens marginalizados de João Antônio, o grito dissonante em meio aos burocratas literários


Devoto da boêmia, João Antônio gostava de jogar sinuca - Foto: Reprodução/ Sesc



Era um taco calibrado. À esquina com Santa Efigênia, em São Paulo, estava a fina flor da boemia e da sinuca dos anos 50. Havia pela incipiente metrópole entendedores do assunto e punhos adestrados nas métricas do jogo, liquidando, com delicados toques, todas as bolas da mesa. Eram muitos, muitos. No entanto, ninguém detinha mais elegância e destreza do que o sinuqueiro profissa Carne Fria. Tornara-se “o taco mais forte do Brasil” e ganhara o status de celebridade, virando uma figura ilustre da noite e ganhando admiradores como o escritor João Antônio, que imaginou um encontro fictício entre gigantes da sinuca.


A cena foi eternizada no livro Malagueta, Perus e Bacanaço, de 1966, considerada a obra mais importante do escritor. Sob o título O Jogo da Vida, o texto foi adaptado para o cinema em 1976, com direção de Maurice Capovilla e trilha sonora de Aldir Blanc e João Bosco. O autor, à época do lançamento de Malagueta, movia-se numa originalidade linguística que exaltava os excluídos e os desfavorecidos. Antônio falava a linguagem dos pés-de-chinelos, dos zés-ninguéns, dos pobres-diabos que dominam a arte de chutar tampinhas pela rua e bebem nos botecos sujões que são patrimônios da vida noturna.


Personagens favoritos de João Antônio são os excluídos e os desfavorecidos – Foto: Acervo O Globo/ Reprodução



“Pode me julgar um pé-de-chinelo sem eira nem beira. Plantados como um dois-de-paus. Um porteirinho mixuruco e só. Falando claro, até gosto que se pense assim: minha dissimulação é dos sete capetas”, define-se o personagem leão de chácara. Outro aspecto que chama atenção na obra de Antônio é a tal ética masculina sobre a feminina. Trata-se de uma radiografia do jogo de poder exercido pela macharada brasileira em relação à mulher. Isso e mais um pouco integra o livro Malagueta, Perus e Bacanaço, relançada neste mês pela editora 34. Aqui, Antônio busca seus personagens em meio aos barrancos da rua.


Jornalista devoto da mesa de bilhar e da garrafa de birita, da mesma tradição que alçara o romancista francês Louis-Ferdinand Céline ao status de gênio das palavras, João Antônio veio ao mundo em 27 de janeiro de 1937. Com sua obra, hum-hum, deu voz pra quem sempre foi achincalhado por burocratas encalorados em seus panos elitistas, e o fez com a mais solene responsabilidade bukowskiana. Os textos de Antônio não são aqueles que interessam aos acadêmicos, aos mauricinhos das sílabas e aos demais tipos que não se lambuzam com a sujeira da vida, mas juram que são escritores, e passam longe disso.


Escritor foi um dos criadores do chamado conto-reportagem – Foto: Folhapress/ Reprodução



Acredite, “a rua geme, chia, chora, pede, esperneia, dissimula, engambela, contrabandeia”, como atesta Antônio. Porque, ora, apenas a rua, o passeio, o boteco sujão (e nada mais, nada mais) são a mais genuína fonte de matéria humana para compor histórias... humanas. Suas narrativas são sumarentas e, caso tenha a pretensão de topar com algum tipo folclórico, stop, por favor: vá ler outra coisa, deixe, gentilmente, o velho Antônio de lado. Do começo ao fim, o escritor tece um retrato corrosivo das camadas sociais às quais seus personagens pertencem, com a plenitude de suas grandezas e misérias.


Imprensa nanica


Além de ter escrito páginas valiosas sobre anônimos, o escritor João Antônio teve história rica na época em que trabalhara na imprensa dos anos em que os urubus fardados mandavam no Brasil (será que ainda não mandam?). Foi ele, olha só, quem criara o termo “imprensa nanica” para designar jornais de oposição ao regime, como O Pasquim, Opinião e Movimento. Como jornalista, passara pelas redações do (quase) extinto Jornal do Brasil e escrevera contos-reportagens, sempre com viés e enfoque humano, às revistas Realidade e Manchete, duas das mais respeitadas do período das grandes histórias.


Cena do filme ‘O Jogo da Vida’ – Foto: Reprodução



Em 31 de outubro de 1996, com 59 anos de vida noturna e cachaça, o escritor saiu de cena, no mais solitário ostracismo. Amplamente elogiado nos anos 60 e 70 por gente do naipe de Antonio Candido e Alfredo Bosi, Antônio só ‘recuperou’ seu prestígio nos anos 2000, quando sua família doou parte do acervo do repórter-contista para a Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). Agora, há mais uma chance de se debruçar sob o legado de João Antônio. Trata-se dos malandros, putas, traficantes e bêbados estando em evidência, ao menos uma vez. João Antônio, de fato, era o cara.


Ficha técnica

‘Malagueta, Perus e Bacanaço’

Autor: João Antônio

Editora: 34

Página: 160

Preço: R$ 47,00


Saiba mais


‘O Jogo da Vida’


Dirigido pelo cineasta Maurice Capovilla, o filme é uma adaptação da obra ‘Malagueta, Perus e Bacanaço’, de 1966, um clássico do escritor João Antônio. A trilha sonora é assinada pelos compositores Aldir Blanc e João Bosco.


Filme 'O Jogo da Vida' - Imagem: Youtube/Reprodução



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