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  • Gabriella Campos

Outra hora eu conto


Afrescos da alma

Foto da artista Gabriella Campos

Ontem à noite eu fui feliz. Estive na semifinal do campeonato dos Tiggers com Joseph e Santana. Se houvesse um terceiro tempo, fariam uns 5 ou mais dezenas de pontos.

Deixa-me dizer que na semana passada também fui feliz. Atravessava a 1006 e eis que surge um outdoor. Rebuscado. Um olhar míope. Estava alí. Próximo ao posto da avenida. Em letras enormes. Escritas azuis. Anunciavam o show tributo aos Beatles. A euforia quase me custou o parachoque. Graças à madame do carro ao lado. (Buzina)

-Olha pra frente! Esbravejou enquanto me acenava de maneira singela com seu dedo do meio.

Pois bem, não pude deixar de ir ao ponto de venda mais próximo.

Outro dia também fui feliz. Lembro-me bem. Estava sentada na escada que permite acesso ao terceiro andar do prédio acadêmico. Mike e Rosana são minhas fiéis companhias. Logo, a feliz notícia do noivado de Charlie e Aurora acabara de ser revelada. Quem mais poderia ser incumbida por fotografar o momento louvável. Dito isso, penso que talvez tenha me tornado uma espécie de coaching da fotografia.

Se não me foge a memória, em fevereiro, ainda este ano, também fui feliz. Fiz uma visita ao Museu da cidade. Havia exposição das 560 obras produzidas em 13 anos de trajetória de Margareth Talasse. Cheguei cedo. Peguei um folheto com sua foto e me dirigi até o centro da galeria. Lá estava ela. Talasse é tão bela e genial quanto os acervos que produz. Logo lancei a câmera no pescoço e fiz alguns registros. Outra hora posso mostrar. É que agora tenho pressa.

Claro! Não posso deixar de citar que no ano passado eu também fui feliz. Soube de uma ação social que acontecia na véspera de um evento anual. Careciam de doações. Nunca estive tão feliz em desfazer de meu casaco favorito. Me recorda até uma história icônica. Mas outra hora eu conto.

De fato, poderia mencionar diversos momentos e o quão feliz fui em cada um. No entanto, os corvos estão chegando. Preciso alimentá-los. Já disse sobre eles? Caramba! Eles moram comigo há anos.

São gentis e silenciosos. Aliás, essa ausência inerente me farta. Na noite se agitam. Não me causam muito trabalho. No entanto, não estão habituados a fazer muita coisa sozinhos. Se fazem presente a todo instante. Por onde vou. Por onde passo eles se reinventam em minha sobra humana. Estão sempre lá. Estiveram na semifinal do campeonato. Revidaram o dedo para a madame. Na escadaria da instituição. Tiveram a audácia de achar que o acrílico "Corvo da Noite" de Talasse fosse referência àeles, e sobre o casaco... ah! Outra hora eu conto.

Agora você me pegou! Não me lembro ao certo quando foi que se mudaram pra cá. Aliás, não me recordo de muita coisa. Até mesmo de ter os convidado. Alivia lembrar que atos de generosidade nunca são demais.

Ainda sobre os corvos, eu diria que são afáveis até. Em dias ruins me tomam para si. Me envolvem com toda sua realeza e aptidão predatória. Lançam suas garras firmes e extremamente afiadas sobre meu peito. A dor me aproxima do mundo do martírio e pressupõe morte como ato de esperança. Suas asas me recobrem dos pés a cabeça como num ninho de arame e agulhas. Às vezes me sinto sufocada com tamanho afeto.

Mas como disse, já vou indo. Não posso falar muito agora, pois tenho pressa. Ouço o cântico rasgado e feroz. Preciso alimentá-los.

Se me canso? Um pouco. Isso me custa muita coisa. Talvez a vida. Vai ver é como diz aquele velho ditado e quem sabe meu coração seja materno. Apesar de que este já não se encontra tão farto e próspero, afinal, é preciso alimentar os corvos.

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