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Alta no preço de alimentos

Atualizado: Set 15

Economia

Especialistas afirmam que reforma agrária é a solução para o aumento da inflação alimentícia

Alta no preço de alimentos prejudica famílias de baixa renda. Foto: Twitter/Reprodução


Júlia Aguiar


Estamos vivendo uma crise econômica com perspectiva global, agravada pela crise sanitária provocada pela pandemia do novo coronavírus. No Brasil, a crise econômica é política. As relações de trabalho mudaram ainda mais pela necessidade do isolamento social, e as políticas públicas não conseguem suprir todas as necessidades emergenciais da classe trabalhadora. Mas, o que esperar de uma política econômica angariada por Paulo Guedes?

Segundo pesquisa lançada na última quarta-feira (9), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação cresceu 0,24% em agosto. A alta no preço da gasolina e alimentos da cesta básica provocaram acumulo de 2,44% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), nos últimos 12 meses.

“O arroz acumula alta de 19,25% no ano, e o feijão, dependendo do tipo e da região, já tem inflação acima dos 30%. O feijão preto, muito consumido no Rio de Janeiro, acumula alta de 28,92% no ano, e o feijão carioca, de 12,12%”, destacou o gerente da pesquisa, Pedro Kislanov, em entrevista ao G1.

Na prática, a inflação já é sentida pela população, que viu um pacote de 5 kg de arroz passar de R$ 15 para 40 reais sem aviso prévio. Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pediu “patriotismo” aos donos de supermercado, como se eles fossem os culpados pela crise. “Estou pedindo um sacrifício, patriotismo para os grandes donos de supermercados para manter uma menor margem de lucro”, afirmou Bolsonaro a seus apoiadores, em Eldorado (SP). Em resposta, a Associação Paulista de Supermercados (Apas) afirmou em nota divulgada à imprensa que os aumentos são "provenientes dos fornecedores de alimentos, que são provenientes de variáveis mercadológicas como maior exportação, câmbio e quebra de produção”.

Nesse sábado (12), 1 dólar é o equivalente à 5,32 reais, com a alta do câmbio a venda de produtos brasileiros se torna mais lucrável na exportação do que na venda interna. A crise é provocada pela escolha dos grandes produtores de exportar os produtos, já que a venda interna não tem a mesma margem de lucro.

“A consequência da inflação é natural tendo em vista a desvalorização do câmbio nos últimos meses. A economia aberta faz com que o próprio produtor escolha para quem vender, é complicado sancionar essa exportação. O dólar tá mais valorizado em relação ao real, então o produtor consegue muito mais dinheiro vendendo para fora, o que desvaloriza o mercado interno”, explica o economista Pedro Vitor Garcia Ramos, mestrando em economia pela UFMG.

Além da exportação favorável para os grandes produtores, Pedro explica que a maioria dos maquinários são comprados em dólar, e esse valor é atribuído ao produto final. Com o aumento do dólar, o produtor escolhe vender para o mercado internacional, e assim aumentar sua margem de lucro e, consequentemente, investir mais em maquinários e infraestrutura. Caso o mesmo produtor queira investir no mercado interno, o preço do produto em real deve ser compatível com o valor em dólar, para que a margem de lucro do produto não caía brutalmente.

“Para que o produtor não exporte, uma solução é o governo subsidiar uma parcela da venda dos produtos. Ele paga uma parte desses alimentos para que os produtores vendam para o mercado interno com menor valor. Ou o governo investe em reforma agrária, incentivando os pequenos agricultores a abastecer o mercado interno, tirando milhares de pessoas da miséria, gerando emprego etc. Sempre existe contexto econômico para uma reforma desse porte, o problema é o lado político”, afirma o economista Pedro Vitor Garcia Ramos em entrevista ao JM.

Reforma Agrária

Foto: Sebastião Salgado/Reprodução


Reforma agrária é uma reorganização da estrutura fundiária, tendo como objetivo promover a redistribuição das propriedades rurais. “A ocupação colonial foi caracterizada pelo regime de sesmarias, da monocultura e do trabalho escravo, fatores estes que, conjugados, deram origem ao latifúndio, propriedade rural sobre a qual centrou-se a ocupação do espaço agrário brasileiro. Ao longo deste secular processo, ciclos bem definidos podem ser destacados, lembrando que a cada um sempre esteve associado uma forma particular de latifúndio,” afirma a Análise da Estrutura Fundiária Brasileira feita pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em 1996.


O Incra é uma autarquia federal, cuja “missão prioritária é executar a reforma agrária e realizar o ordenamento fundiário nacional”, como afirma o site oficial do órgão, que foi criado pelo Decreto nº 1.110, de 9 de julho de 1970, atualmente o instituto está implantado em todo o território nacional.

“A crise do novo coronavírus revela uma crise estrutural que é política, econômica e ambiental. Nesse contexto, a crise revela que a produção interna de alimentos que compõem a cesta básica é feita pela agricultura familiar. Eles produzem essencialmente os alimentos com diversidade, que abastece toda a sociedade brasileira. Isso é uma constatação real. O agronegócio é um sistema produtivo de grandes empresas transnacionais que aplicam modelo de commodities. Produção de milho, soja, mineral, e tudo pra vender pro mercado internacional, eles não alimentam a população”, afirma Roberto Baggio coordenador geral do Movimento Sem Terra (MST) do Paraná, em entrevista ao Jornal Metamorfose.

“Nossa economia é pautada na exportação de commodites, as elites brasileiras independentes dos governos não topam a reforma agrária, porque ela é um projeto de desenvolvimento econômico. Nós entendemos a reforma agrária não como pauta política, mas porque é uma necessidade do povo brasileiro”, explica Luiz Zarref, coordenador do setor de produção e cooperação de meio ambiente do MST de Goiás, em entrevista ao JM.

O economista Pedro Vitor Garcia explica que reforma agrária é até mesmo uma pauta liberal, do ponto de vista econômico. O economista cita o pai do liberalismo, John Locke no livro “Dois Tratados sobre o Governo”, de 1689.

No livro, Locke afirma: “Embora a terra e todos os seus frutos sejam propriedade comum a todos os homens, cada homem tem uma propriedade particular em sua própria pessoa; a esta ninguém tem qualquer direito senão ele mesmo. O trabalho de seus braços e a obra das suas mãos, pode-se afirmar, são propriamente dele. Seja o que for que ele retire da natureza no estado em que lhe forneceu e no qual o deixou, mistura-se e superpõe-se ao próprio trabalho, acrescentando-lhe algo que pertence ao homem e, por isso mesmo, tornando-o propriedade dele”.

Do ponto de vista emergencial, em função da crise sanitária, existem medidas urgentes que contribuem para o estímulo na produção de alimentos. “Qual o projeto do nosso país para o pós-pandemia? Com reforma agrária você consegue desenvolver economicamente uma série de municípios do país, você reorganiza a população do Brasil. Na perspectiva da agroecologia, você produz riqueza para o povo e não pra poucos empresários. Estamos convencidos que a agroecologia e reforma agrária é a solução para o país sair da crise econômica”, pontua Luiz Zarref.

Roberto Baggio explica que o mercado é controlado por grandes empresas transnacionais, que possuem o monopólio das produções brasileiras. “O que está acontecendo agora é que as grandes empresas transnacionais têm o monopólio do comércio, dominando a cadeia agroindustrial e os valores dos alimentos. O aumento dos produtos é pura especulação das transnacionais, em função da crise, ganhando dinheiro em cima da fome. A Conab e o Ministério da Agricultura não tem interesse em regular o mercado”, conta o coordenador geral do MST do Paraná, em entrevista ao JM.

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