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  • Amanda Stabile

Bacurau reafirma que "o sertanejo é, antes de tudo, um forte"


Cinema

Terceiro filme de Kleber Mendonça Filho inova ao retratar interior pernambucano não a partir de suas fragilidades, mas das potências

Foto: Divulgação

Quem conhece um pouco sobre o estilo e as obras de Kleber Mendonça Filho foi para o cinema assistir Bacurau, com pelo menos duas certezas: a de que o filme se passaria em Pernambuco e que, com alegorias, faria críticas políticas. Conservamos a primeira porque o diretor se autodenomina uma janela internacional do cinema recifense, mas, diferentemente dos filmes anteriores, os premiados O Som ao Redor (2013) e Aquarius (2016), o terceiro longa do cineasta pernambucano não se passa em Recife, mas no interior do estado, no sertão.

A trama conta com nomes conhecidos do cinema nacional como Sônia Braga (Domingas), Karine Teles (forasteira) e Silvero Pereira (Lunga) e é um mix de gêneros, um western, com suspense e, dizem alguns críticos, até um terror à brasileira. Lançado nos cinemas nacionais no último dia 29 e dirigido em parceria com Juliano Dornelles, Bacurau, logo na primeira semana, já deu indícios de ser a maior estreia da carreira de Kleber Mendonça Filho, arrecadando quase R$ 2 milhões. O longa também recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, ganhou como Melhor Filme no Festival de Munique e venceu nas categorias de Melhor Filme e Melhor Direção no Festival de Lima.

A música ‘Não identificado’, na voz de Gal Costa, embala as telonas enquanto os créditos são exibidos sob o pano de fundo de uma visão espacial da Terra. A trilha sonora é usada como epígrafe para o que vem a seguir e, como no cinema nada é por acaso, prestar atenção em sua letra já nos traz mais informações relevantes sobre o roteiro. Como no refrão:

Minha paixão Há de brilhar na noite

No céu de uma cidade Do interior Como um objeto não identificado Como um objeto não identificado

Que ainda estou sozinho

E apaixonado Como um objeto não identificado

Aqui já podemos fazer as ligações com algumas situações presentes no filme, como a questão de se passar em uma cidade do interior e a relação entre um objeto não identificado e a trama. Sobre a primeira questão, logo uma sequência de zoom-in nos tira da visão espacial e situa a pequena cidade de Bacurau no sertão de Pernambuco. Sobre a segunda, no decorrer do longa percebemos que o objeto não identificado do qual a música fala não é um disco voador, mas o minúsculo município que é apagado misteriosamente dos mapas digitais do século 21 – mas como o povo é resistente, eles têm o próprio mapa desenhado.

Foto: Divulgação

Bacurau é um povoado muito afetado pela falta de água, alimentos e medicamentos, mas com um espírito comunitário muito aguçado. Esquecida pelo governo há tempos é apenas lembrada nas épocas de eleição. É o povo pelo povo. A representação do vilarejo dissipa diversos estereótipos e pensamentos quanto ao sertão nordestino, como a ideia do conservadorismo e de uma população alheia à tecnologia. Em Bacurau pessoas trans e homossexuais são tratadas com muito respeito, como tem que ser; tem bandido andrógeno e tem prostituta consciente – “puta também vota”, gritam em certa situação –; eles se comunicam de forma bem estratégica pelo o whatsapp e a escola tem equipamentos digitais.

O conflito central do filme se dá a partir de uma sequência de acontecimentos estranhos: o caminhão de água – o bem mais precioso e escasso – chega à cidade perfurado a balas; no mesmo dia, mais cedo, cavalos passaram pelo povoado fugidos de uma fazenda próxima; chegam à vila dois motoqueiros sulistas e, após a passagem deles, a pequena cidade, tão articulada pelo whatsapp, fica sem sinal de celular ou internet. Bacurau também some do mapa. Mortes misteriosas começam a acontecer e nós sabemos antes dos moradores que gringos estão brincando em uma espécie de Free Fire com a população da cidade, a qual eles chamam de selvagens. Os motoqueiros são aliados.

Algo que eu acho muito divertido nos filmes de Mendonça é tentar decifrar qual a crítica política central do filme e em Bacurau temos muitas. Com toda certeza o filme foi idealizado muito antes do governo atual, mas podemos fazer diversas analogias, infelizmente, com alguns spoilers. Os motoqueiros se acham mais parecidos com os gringos do que com o povo do interior do país, por isso se acham superiores e ajudam a matar os “selvagens”. Porém, os gringos não estão nem aí para eles e na primeira oportunidade que têm, zombam deles por se acharem parecidos com os europeus e os matam sem dó, piedade ou aviso. “Eles podem parecer brancos, mas não são. A boca e o nariz dela denunciam”, zombam em certo momento.

Aqui vai com spoiler: no final entendemos que o próprio prefeito de Bacurau vendeu a cidade para os gringos brincarem de videogame. Um governante que não ligava para o seu povo e tratava-os com o pior do pior: livros velhos entregues como entulho, comida vencida, água que não dá para 1 semana, remédios tarja preta viciantes. Mas para os gringos ele chegou com um veículo novo para levá-los para dar uma volta, bancos com água engarrafada. Enfim, o próprio prefeito dá mais valor para os de fora para aqueles que o elegeram. A forma como o prefeito rifa a população da cidade para esses gringos brincarem, pode ser comparado com o modo como Bolsonaro, abertamente fã das medidas e ideias de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, valoriza muito mais as políticas estadunidenses dos que as que tem dado certo para a população brasileira.

Ouvi muitas pessoas comparando Bacurau a filmes do diretor americano Quentin Tarantino – que lançou recentemente o filme Era Uma Vez em Hollywood – e eu posso listar pelo menos dois motivos para ajudar a entender o porquê: primeiro que durante todas as cenas, após já entendermos o perigo iminente que a vila corre, ficamos em suspense e essa é uma característica usada por Tarantino em seus longas – que acontece, por exemplo, durante toda a sequência de Bastardos Inglórios (2009). Em segundo lugar, o filme tem um ritmo lento durante o primeiro terço e os diretores deixaram a explosão de violência para o final da trama, como em os Oito Odiados (2015), onde todo tiro, porrada e bomba acontece nos últimos minutos. Porém, assim como disse Kleber Mendonça Filho, eu não acho justa uma rivalização. O diretor escreveu via Twitter:

Por fim, uma das falas que mais martelou na minha cabeça ao final do longa, foi uma participação rápida e talvez única de uma criança, em contraposição aos que os tratavam como selvagens: “quem nasce em Bacurau é gente” e é esse pensamento que talvez resuma várias questões que o filme aborda. A forma como os diretores resolveram o conflito da trama, mostrando a organização do povo, como se estivessem sempre preparados para uma guerrilha, brotando do chão e protegendo os seus, reafirmou e exaltou uma frase eternizada por Euclides da Cunha, autor de Os Sertões (1902), no século passado: O sertanejo é, antes de tudo, um forte!

#Bacurau #Cinemabrasileiro #criticacinema

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