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  • Júlia Lee

48 Anos de resistência


Dança

Companhia Stagium lançará em breve espetáculo em homenagem à Elis Regina

Espetáculo do Ballet Stagium, foto por Arnaldo J. G. Torres

Me sinto na obrigação social de incendiar as malditas lojas burguesas na Oscar Freire, desço a rua com o olhar flamejante. Porém, após minutos de imaginação raivosa, a Oscar Freire cruza a Augusta e eu entro em um eterno procurar pelo prédio histórico onde fica a companhia de dança Ballet Stagium.

Existem pessoas que fumam na porta, descalças, em frente ao ballet, elas sobem comigo. Me sinto entrando em um portal de tempo-espaço, as paredes me contam que estou em 1971, ano de fundação da companhia. Porque deixamos a dança cair no esquecimento? Os corpos expurgam em movimento toda a história a ser contada de resistência desse lugar, rico em momentos revolucionários.

O Ballet Stagium foi criado pelos artistas Marika Gidali e Décio Otero, que uniram suas experiências de dança e teatro com o fim de contar a história do país em tempos sombrios. Após viajarem pelas culturas brasileiras, o grupo trouxe referências regionais e transformou a dança em um manifesto de liberdade que dura até os dias atuais.

Hoje, a companhia ensaia um espetáculo sobre a obra de Elis Regina, que esteve presente na companhia em diversos momentos. Além de ter tido uma amizade muito próxima com Marika e Décio, por isso a peça é não somente uma homenagem mas uma forma de demonstrar o carinho pela falecida artista.

Elis

Elis Regina, pelo fotógrafo Paulo Salomão

Subi as escadas em espiral da Stagium sem saber exatamente o que esperar, eu observava as fotos e matérias pregadas na parede, percebi que aquele seria um dos espetáculos mais belos e intensos que eu já tive contato.

Os dançarinos são alegres e enérgicos, agitados e brincalhões. Jovens com todo sentimento libertário flamejando em seus corações. O espetáculo conta com um repertório de músicas gravadas por Elis, como ‘Romaria’ e ‘Como nossos pais’, e a coreografia nos conta sobre o percorrer caminhos, sozinhos e juntos com as mazelas da sociedade nas costas.

Com uma poética envolvente e sinuosa, o espetáculos nos leva a uma revoltante e maravilhosa percepção da obra de Elis. Quiçá, seja na realidade, um grande ensinamento sobre a vida e os amores que se vão, a roda do esquecimento é o desafio de deixar a tristeza ir.

Amores tóxicos e temas sociais são o repertório para mostrar que o amor pode transmutar o cotidiano. Os movimentos corporais são abertos e alegres, como uma construção de uma vida em companheirismo com os seres que habitam esse planeta. É um grito de dor e amor. Não há de se esquecer do grande manifesto à favor da democracia que é essa peça, a mensagem é clara: somos resistência.

Marika, diretora da companhia, explica que “cada um diz sobre sua própria história quando está em cena, e todas as músicas de Elis, são infelizmente atuais. Então o dever do artista é estar sempre alerta”.

O espetáculo ainda não tem data para ser estreado.

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