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  • Metamorfose

Brasilidade psicodélica

Música


Surgida nos anos de 1970, a banda pernambucana Ave Sangria ressurge com novo single


lustração de Kin Noise para a capa do single ‘Janeiro’


A música psicodélica nordestina é riquíssima e, sobre a brasilidade dos timbres, escondem-se acordes, riffs, grooves, cantos e letras que ajudaram a definir os rumos da música brasileira mesmo relegados à marginalidade pela indústria fonográfica. Provavelmente, o maior exemplo dessa qualidade sonora, misturando solos psicodélicos de guitarra com baião, blues e rock, existiu por um curto momento durante a década de 1970. Foi apenas um disco, mas o necessário para que os milicos chegassem ao ponto de proibi-lo um mês após seu lançamento.


Sim, refiro-me à banda pernambucana Ave Sangria, um patrimônio do rock brasileiro. E com vocês, o criador disso tudo, Marco Polo, bem-vindos ao mestre: “Cerca de um mês e meio depois do lançamento, porém, o disco foi proibido pela Censura Federal da ditadura militar, sendo recolhido das lojas e das rádios, sob a alegação de que a música Seu Waldir ia “contra a moral e os bons costumes da sociedade pernambucana”, disse o cantor ao Jornal do Brasil, em 2019. Bem, não chega a ser uma surpresa esse tipo de postura dos fardados.


Surgida em 1968 quando o baixista Almir conheceu o cantor Marco Polo, a banda mais cultuada da cena recifense dos anos de 1970 foi redescoberta no ano passado pela geração da internet. E com uma verve mais psicodélica, mais roqueira, mais brasileira, mais experimental do que nunca. Quatro décadas e meia depois do emblemático disco de 1974, a Ave Sangria lançou o single Dia a Dia. A faixa é um rockão direto, cru, sem firula ou frescura, que relembra os tempos áureos do grupo, uma porrada tão fundamental quanto o ar.


Ave Sangria na década de 1970 e no ano passado - Foto: Reprodução/ Acervo da Banda



A volta aos holofotes não parou por aí: a banda produziu também no ano passado o disco Vendavais. Um ano após ter retomado a carreira, a Ave Sangria ressurge com o single Janeiro, que soa pop e leve como uma viagem regada a LSD na década de 1970. A letra, inclusive, fala sobre uma brisa amena, porém sem nenhuma referência a substâncias que alteram a consciência - isso, amigo leitor e amiga leitora, é uma metáfora do escriba. No mais, é preciso acrescentar que o trabalho é o mais inusitado possível, e numa época tensa.


Tensa porque a música psicodélica, e o rock inclui-se aí, não está necessariamente em alta na indústria fonográfica. Mas o que isso quer dizer? Marco Polo e companhia são acostumados ao underground. Recapitulemos: a banda é resultado direto de uma mistura explosiva entre rock, blues e música brasileira. Agora, porém, a vibe é outra, mas a essência é a mesma: “Tudo é claro/ E o céu é todo azul”, canta Polo, em Janeiro, música lançada no final do mês passado. Eis velha lisergia em alto e bom som.


Bota bom som nisso! O single apresenta uma mistura de psicodelia com baião, e conta com um solo de guitarra arrepiante do músico Paulo Rafael, que forma ao lado de Marco Polo e Almir Oliveira (guitarra base, violão e vocal) a espinha dorsal da formação atual do Ave Sangria. Juliano Holanda, no baixo, Gilu Amaral, na percussão, e Júnior do Jarro, na bateria, comandam a cozinha da banda nos palcos e nos estúdios, dando um quê saboroso para o necessário trabalho realizado por esses sobreviventes dos anos 70.



Primeiro disco da banda Ave Sangria - Reprodução/ Youtube


Embora seja responsável por uma sonzeira singular, a estética da banda deixou a careta sociedade dos anos 70 de cabelo em pé. Estamos falando de uma época em que ser cabeludo poderia dar cana, isto mesmo: usar cabelo grande, fazer rock, participar do desbunde, ser adepto da emancipação da consciência era subversão, e gostar dessas coisas era pedir pra ir parar no xilindró. Portanto, não poderia ser mais apropriado a aparição do grupo, e o consequente sucesso entre os jovens, pois a transgressão é o gene da juventude.


Com participações aclamadas nos principais festivais de música psicodélica do País, a Ave Sangria, de fato, é um tesouro da música brasileira que precisa ser reverenciado pelo público. Por mais shows dessa galera nos grandes palcos do Brasil e por mais discos lançados por essa galera. Vida longa aos pernambucanos.


Ficha técnica

‘Janeiro’

Artista: Ave Sangria

Composição: Marco Polo

Gravadora: Ave Sangria / Sun 7 Produções

Música disponível nas plataformas de streaming